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Estado de Minas editorial

Conjuntura preocupante

Brasil caminha para uma "estagflação", neologismo para explicar o ambiente de preços acelerados sem crescimento econômico


27/10/2021 04:00

O momento da economia, que deveria ser de celebração com a retomada das atividades após o avanço da vacinação e expectativas otimistas, se torna de incertezas e riscos na medida em que os problemas não são encarados. A divulgação ontem pelo IBGE de que o IPCA-15, que é uma prévia da inflação oficial, fechou outubro com alta de 1,20% – a maior para o mês desde 1995 e a mais elevada desde fevereiro de 2016 – mostra uma perigosa aceleração de preços que deixa, pelo segundo mês consecutivo, a inflação acumulada em 12 meses com dois dígitos, numa escalada sem precedentes nas últimas décadas. Com a inflação alta, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve anunciar hoje o aumento da taxa básica de juros, a Selic, de 6,25% para 7,50%, conforme expectativas de economistas e instituições do mercado financeiro. Mas pode ser que os juros básicos subam um pouco mais, para 7,75%, se os diretores do Banco Central seguirem o conselho do ministro da Economia, Paulo Guedes, que pediu à autoridade monetária para que “corra com o juro”.

Inflação em alta e taxa de juros acelerando funcionam como um freio para o crescimento econômico, porque de um lado a escalada de preços corrói a renda dos trabalhadores, já comprimida pelo alto desemprego, e do outro o encarecimento do crédito inibe o consumo de bens de maior valor e os investimentos. Não sem razão, o Relatório de Mercado Focus, divulgado segunda-feira, mostra que, para este ano, a estimativa de inflação passou de 8,69% para 8,96%, enquanto a projeção para o PIB baixou de 5,01% para 4,97%. Essa tendência também vale para o ano que vem, com média de reajuste de preços subindo de 4,18% para 4,40% e a da geração de riqueza recuando de 1,50% para 1,40%.

Numa atitude mais agressiva, os economistas do Itaú/Unibanco revisaram a previsão de crescimento de 0,5% em 2022 para queda de 0,5%, com a justificativa exatamente da alta das taxas de juros e seu efeito sobre a expansão da atividade econômica. Nesse contexto, resolve pouco o ministro Paulo Guedes considerar que “a conversinha é sempre essa” quando o mercado piora as projeções para a economia brasileira. O governo mantém seu otimismo e prevê PIB acima de 2%. Mas mais do que um embate entre os que estão certos e os que estão errados, é preciso observar o comportamento dos indicadores econômicos para enxergar problemas no médio prazo e trabalhar para que eles não se concretizem.

Hoje, o Brasil caminha para uma “estagflação”, neologismo para explicar o ambiente de preços acelerados sem crescimento econômico. A alta dos juros vai encarecer consumo e investimentos que demandam crédito, inibindo tanto um quanto o outro. Terá efeito sobre a atividade econômica e pode sim baixar a inflação dos alimentos, mas terá pouco efeito sobre produtos e serviços com demanda compulsória e cujos preços dependem de fatores alheios à regra de procura e oferta no mercado interno. Combustíveis vão continuar em alta, com os preços do petróleo atingindo patamares recordes, assim como a energia elétrica permanecerá cara enquanto os reservatórios das hidrelétricas não forem recuperados.

E mais, tanto combustíveis quanto energia são impactados pela alta do dólar, que se mantém num patamar acima de R$ 5,50, por fatores externos, mas também pela desconfiança com a possibilidade de descontrole das contas públicas a partir da elevação de gastos para atender à necessidade de aliviar a profunda desigualdade para uns ou em nome de interesses eleitorais em 2022, para outros. É preciso que a área econômica do governo deixe a atitude passiva que a tem caracterizado até agora para se tornar protagonista de medidas que possam conter a inflação, de forma a reduzir a pressão sobre os juros e não permitir que o país enfrente recessão exatamente no momento em que se espera uma reação mais forte.


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