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Estado de Minas artigo

Obra de Niemeyer, outrora rejeitada, é consagrada santuário

Fico imaginando o que diria Niemeyer se soubesse que a sua outrora rejeitada igreja agora é um santuário. Acho que ele ficaria feliz


14/10/2021 04:00




Paulo Sérgio Niemeyer
Arquiteto, conselheiro estadual do Conselho de 
Arquitetura e Urbanismo (CAU) e presidente do Instituto Niemeyer 
 
 
 

A Igrejinha da Pampulha, obra de Oscar Niemeyer que se tornou símbolo de Belo Horizonte, foi elevada a Santuário Arquidiocesano São Francisco de Assis. Ela é uma das principais obras de Niemeyer no conjunto arquitetônico da Pampulha. A história desse templo modernista se entrelaça com a história de BH no período em que Juscelino Kubitschek foi prefeito e convidou Niemeyer para fazer esse projeto.

Obra nada convencional, a igreja causou polêmica quando foi erguida, em 1943. Pela primeira vez, traços e curvas em concreto foram utilizados em uma edificação católica no Brasil. Ele se inspirou nas montanhas de Minas Gerais para criar as cúpulas. E colocou São Francisco ao lado de um cão, em vez do tradicional lobo, fato que incomodou. Por Niemeyer se declarar comunista, ele foi acusado de fazer apologia política. Por isso a igreja ficou quase 16 anos fechada. Em 2018, foi restaurada, e em 2019 foi reaberta ao público. Hoje, recebe cerca de 1.550 pessoas/mês.

Fico imaginando o que diria Niemeyer se soubesse que a sua outrora rejeitada igreja agora é um santuário. Acho que ele ficaria feliz. E como ele valorizava o debate sobre as cidades, provavelmente estaria preocupado com os problemas ambientais no entorno da igreja. Espero que esse título de santuário ajude a resolver a poluição da Lagoa da Pampulha, que até hoje recebe esgoto de quase 20 mil famílias de Contagem e de Belo Horizonte.
 
 
 
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Niemeyer me falava sobre sua opção religiosa. Contou que durante sua juventude tinha morado na casa de seus avós, os Ribeiro Almeida. Sua avó era muito católica e a missa era rezada em casa. Com 20 anos, ele trabalhou como voluntário no Socorro Vermelho, onde um grupo de comunistas recolhia donativos para distribuir entre os mais pobres. Já arquiteto, ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), tornando-se militante das causas humanitárias. A ideia de um Deus todo-poderoso, criador de todas as coisas, havia desaparecido do seu pensamento. Lembrava com carinho dos amigos daquele tempo, a maioria católicos, dizia que eram pessoas boas. Só não entendia por que eles não se revoltavam contra a pobreza. Esse lado humano dele me encantava. Niemeyer se referia aos excluídos com fraternidade. Esse era o meu amado bisavô: justo, solidário, repleto de sensibilidade social.


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