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Estado de Minas editorial

Questões sem respostas

A população espera mais que a solução adotada pelo governo de contratar a energia das termelétricas, com geração mais cara, para evitar racionamento ou apagão


16/07/2021 04:00






A sabedoria popular nos ensina que o “pior cego é aquele que não quer ver”, provérbio bem aplicado ao Brasil da inflação de insumos tão fundamentais quanto a energia e os combustíveis, enquanto o governo parece empenhado nas promessas de queda nos preços. A evolução do custo de vida nos últimos 12 meses até junho escancarou a realidade dessas despesas pesadas no orçamento dos brasileiros. Deixou claro o equivocado discurso de um futuro de tarifas menores, como se a privatização polêmica da Eletrobras tivesse o poder de resolver o problema pela simples batida do martelo da iniciativa privada, e, da mesma forma, uma mudança de comando da Petrobras conteria aumentos da gasolina e do diesel.

A correção do gasto com energia elétrica residencial, segundo o IBGE, foi de 14,20% em 12 meses até junho, na média nacional, tendo superado de longe o IPCA de 8,35%. O avanço dos preços da gasolina é ainda mais preocupante, com alta de 42,21%, mais de cinco vezes superior à variação geral do custo de vida. Na mesma toada, houve reajuste de 40,74% para o óleo diesel, fôlego 4,8 vezes maior do que a inflação.

Entre as 16 regiões metropolitanas do país pesquisadas pelo IBGE, a energia elétrica residencial encareceu acima do IPCA em 12 áreas. A variação campeã atingiu 24,04% na zona metropolitana de Fortaleza (CE). Em Brasília e entorno, a diferença para o IPCA esteve entre as menores, com 7,93% e 7,13%, respectivamente. No grupo de regiões metropolitanas em que o insumo teve remarcação abaixo da média geral de preços, ficaram quatro capitais e seus entornos.

A Grande BH teve fôlego mais curto do reajuste da energia, de 7,19%, ante o IPCA de 9,08% nos últimos 12 meses até junho. Para quem costuma limitar o seu campo de visão, melhor ir a fundo na busca de interpretação dos números e não se enganar. No mês passado, a energia elétrica residencial foi reajustada em 1,60%, frente ao IPCA de 0,42% na região metropolitana da capital.

Para gasolina e diesel não houve freio nas remarcações. Esses combustíveis encerraram um ano em junho de aumentos bem à frente do custo de vida. Na média nacional, os preços evoluíram 42,21% e 40,74%, respectivamente. A Região Metropolitana de Brasília se destaca, com alta de 51,28% do custo da gasolina no varejo e 47,58% no caso do diesel. Na Grande BH, onde os preços nos postos já passam de R$ 6 o litro, como mostrou reportagem do Estado de Minas, os aumentos foram, respectivamente, de 43,56% e 42,30%. O comportamento do gás de botijão, como era de se esperar, dispensa comentários: os reajustes atingiram 24,25% na média nacional, 19,39% e 25,89%, respectivamente, em Brasília e BH e entorno.

A população que arca com o custo final da energia e dos combustíveis espera mais que a solução agora adotada pelo governo de contratar a energia das termelétricas, com geração mais cara, para evitar racionamento ou apagão. A prioridade dada ao uso das águas dos reservatórios das hidrelétricas para a produção de energia também não resolve, tendo em vista que ela afeta outras formas de utilização importantes como o turismo e a piscicultura na região do lago de Furnas. Tampouco ajuda a resignação ao se justificar que os preços dos combustíveis são fruto do comportamento das cotações do petróleo no mercado internacional.  

Os governos e o Parlamento existem para se debruçar sobre políticas públicas. São eleitos para isso. O desmatamento na floresta amazônica e no cerrado, áreas de proteção permanente importantes para preservação dos rios, nascentes, córregos e lagos, precisa ser contido. É fator determinante da crise hídrica. Por que o Brasil não cria regulamentos para estimular a reutilização das águas nas empresas e nas residências, com estabelecimento de metas e prêmios pela superação delas?

Outra iniciativa seria buscar junto do setor privado a adoção de técnicas de irrigação modernas, unindo demanda racional de recursos hídricos e a produtividade no campo, que já é elevada em cultivos como o do café. Difícil compreender ainda o porquê de o país não estar trabalhando na revisão da matriz energética, para sua readequação à demanda, incentivando o desenvolvimento de outras fontes que não sejam as hidrelétricas.


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