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A pandemia e o dilema da classe média


02/05/2021 04:00

Victor Missiato
Doutor em história, professor de história do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre Desenvolvimento Humano (Mackenzie/Brasília) e Intelectuais e Política nas Américas (Unesp/Franca)

Sentar-se a uma mesa no centro da sala ou jantar na cozinha por volta das 20 horas, compondo uma narrativa coletiva de um determinado dia da semana a partir de quatro ou cinco vozes distintas, representadas pelo pai de família, a supermãe e os filhos estudantes, em breve irá se tornar uma peça de museu da sociedade moderna. A classe média está acabando?

Tendência essa iniciada a partir do final da década de 1960, quando diversos movimentos sociais procuraram romper com o american way of life, emergente a partir dos anos 1920, hegemonizou-se de vez tendo como ponto de partida a pandemia atual. Diferentemente de outras epidemias presentes na história da modernidade, a COVID-19 especifica-se como um turning point filosófico, refletido através do termo “tempos pandêmicos”. Seu linguajar coloquial está representado através da expressão “novo normal”. É consenso, portanto, que “o mundo jamais será o mesmo” depois desta pandemia.

Diversas são as tendências que ilustram tal movimento. Em comparação com o ano de 2020, o número de nascimentos no Brasil caiu 14%. Apesar de ser um fenômeno constante em décadas anteriores, a porcentagem atual é destoante. Embora alguns analistas atentem para a possibilidade de um baby boom, similar ao que ocorreu no pós-Segunda Guerra, ele jamais terá a mesma proporção tendo em vista a universalização dos métodos anticoncepcionais e a própria revolução no mundo do trabalho. Para além das questões demográficas, a pandemia fez explodir um fenômeno mais profundo: o brutal distanciamento entre gerações e concepções de mundo.

Em contrapartida, nos EUA, o presidente Joe Biden apresenta seu projeto de governo mais ambicioso: revitalizar a classe média, considerada a matriz fundadora da nação estadunidense, segundo o atual mandatário. A partir de um projeto que envolverá trilhões de dólares, Biden almeja reconstruir o tecido social que elevou os EUA à máxima potência no século 20. No entanto, alguns desafios profundos deverão ser enfrentados. Os movimentos afrodescendentes e latinos serão incorporados integralmente à sociedade americana ou irão permanecer presentes enquanto atores de resistência? Em um mundo pós-COVID, a produtividade e rentabilidade do trabalhador médio nos EUA conseguirá competir com o apetite voraz da cultura disciplinar do trabalho na China? A conjuntura internacional, avessa a uma nova guerra mundial na Europa e Ásia, favorecerá esse novo empreendimento global da política externa de Biden?

A partir de tal empreitada, poderemos observar o início do fim da hegemonia norte-americana ao não conseguir competir com a modernização asiática ou presenciarmos um novo american way of life, que consiga se reinventar a partir de novos atores sociais. No mundo das artes, da política e dos esportes, essa nova sociedade luta diariamente para expandir este cenário. Resta saber, se na área econômica, na qual a modernidade se reatualiza a partir das grandes transformações sociais e industriais, haverá espaço para uma nova classe média ocidental.


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