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Estado de Minas editorial

É preciso ter fé na ciência

Vacinas nacionais são hoje a grande esperança de o Brasil alcançar a autonomia em imunização para deter a escala letal da COVID-19


13/04/2021 04:00








O governo de Jair Bolsonaro bem que poderia ter imitado Donald Trump naquilo que se transformou na melhor herança deixada pelo republicano para o sucessor, Joe Biden: vacinas em quantidade suficiente para a imunização em massa da população americana. Enquanto o presidente brasileiro perdia tempo minimizando a pandemia e subestimando protocolos sanitários, o magnata republicano fazia um jogo duplo. Ao mesmo tempo em que alimentava o negacionismo dos seguidores, apostava também na face mais pragmática da ciência: a busca pela vacina contra a COVID-19.

Foi com a operação batizada de Warp Speed, termo usado na ficção científica para designar a fantasia de viajar mais rápido do que a velocidade da luz, que Trump lançou, ainda em maio passado, uma ofensiva para que os Estados Unidos conseguissem produzir a vacina contra a COVID-19 antes do fim de 2020. Para isso, apostou pesado, cerca de US$ 10 bilhões, na indústria farmacêutica, em projetos como os da Pfizer-BioNTech, Moderna e Johnson&Johnson, quando ainda não havia garantia de que nenhuma dessas empresas seria bem-sucedida no desenvolvimento de um imunizante contra o coronavírus.

Nos Estados Unidos, hoje, o democrata Biden conta com doses de sobra para acelerar a vacinação, com cerca de 3 milhões de aplicações por dia. Enquanto isso, o Brasil patina e até corre o risco da falta do fármaco para a campanha nacional de imunização. Sem conseguir cumprir, desde já, a meta de vacinar, diariamente, 1 milhão de brasileiros, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, lembra que a escassez do produto é um problema mundial. A rica União Europeia, por exemplo, está tão atrasada quanto o Brasil nesse quesito. No continente, apenas o Reino Unido, ex-integrante do bloco, está próximo de imunizar toda a população.

Assim como Trump, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, investiu desde cedo na compra de alta quantidade de vacinas, além de reconhecer o erro inicial de minimizar a pandemia e de pedir desculpas à população. Desde então, adotou remédios amargos, como o lockdown, quando foi necessário tomar medidas como essa para deter o avanço da COVID-19. Agora, colhe os frutos do dever de casa cumprido e inicia a política de abertura gradual do país, enquanto membros da União Europeia, como Alemanha e França, batem cabeça sem conseguir avançar no processo de imunização.

No horizonte brasileiro, há cerca de 20 vacinas em estágio experimental. Dessas, pelo menos duas estão em fases mais aceleradas de desenvolvimento e entraram com pedido na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para início dos testes com voluntários. A mais conhecida delas, a ButanVac, do Instituto Butantan, aguarda o sinal verde para dar a largada nos ensaios clínicos com humanos, mas já faz planos de começar a produção do imunizante ainda neste semestre. A outra conta com apoio federal. É a Versamune, projeto da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, em parceria com a Farmacore Biotecnologia e a empresa americana PDS Biotechnology.

Apesar de ainda estarem em fase de testes clínicos, no momento em que o país sofre as consequências da etapa mais crítica da pandemia, essas vacinas são hoje a grande esperança de o Brasil alcançar a autonomia em imunização para deter a escala letal da COVID-19. Cada vez mais, o país precisa deixar para trás o negacionismo assassino e reforçar a aposta em pesquisa. É preciso, sem demérito de religiões e crenças de cada um, ter mais fé na ciência.



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