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Estado de Minas editorial

O alerta da 'variante de BH'

A velocidade do vírus não respeita critérios de tempo estabelecidos por um enfrentamento vacilante e descoordenado da pandemia


09/04/2021 04:00 - atualizado 08/04/2021 23:53





Do ambiente normalmente silencioso dos laboratórios da Universidade Federal de Minas Gerais vem um novo e preocupante grito de alerta para os riscos de avanço da pandemia de COVID-19. Equipe do Laboratório de Biologia Integrativa do Instituto de Ciências Biológicas, em conjunto com o Setor de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Pardini e com a colaboração do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ e da Prefeitura de Belo Horizonte, identificou aquela que parece ser uma nova variante do coronavírus, em circulação na capital e em outras cidades mineiras.

Ao sequenciar 85 genomas do vírus Sars-CoV-2 obtidos de amostras clínicas coletadas na Grande BH, os pesquisadores identificaram em dois conjuntos de genes 18 mutações até então desconhecidas, o que pode caracterizar nova cepa em circulação. O material que possibilitou a identificação foi colhido em dias diferentes (27 e 28 de fevereiro), de pessoas infectadas que não teriam ligação entre si, o que reforça a suspeita de que a possível nova variante esteja se difundindo.

Ainda não há informações sobre quais os efeitos dessas mutações sobre os infectados ou sobre a capacidade de disseminação do coronavírus, mas o risco de surgimento de variantes mais letais ou infecciosas enquanto a vacinação no país não avança na velocidade ideal é um alerta recorrente entre especialistas. Para uma população estimada em cerca de 212,9 milhões de habitantes, o Brasil ainda não passa da casa de 24 milhões de doses de vacina administradas, entre primeira e segunda aplicações.

O risco da demora na vacinação – estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora indica que o país precisaria imunizar 2 milhões de habitantes por dia para controlar a pandemia em até um ano – se potencializa com a falta de controle na circulação da população e com os diferentes níveis de restrição adotados por estados e até municípios do país. Sem uma coordenação nacional e com diretrizes estaduais muitas vezes questionadas por prefeitos, municípios que impõem regras mais rígidas a seus cidadãos sofrem com a pressão de vizinhos que optam pelo relaxamento – e que muitas vezes são dependentes dos sistemas de saúde de outras cidades.

Nesse cenário, o estudo liderado por pesquisadores mineiros, feito sobre amostras de uma ínfima parcela dos mais de 13 milhões de contaminados pelo novo coronavírus no país, surge como uma advertência sobre a possibilidade de muitas outras mutações desconhecidas estarem em desenvolvimento, com potencial de dano imprevisível. Mostra também que a velocidade do vírus não respeita critérios de tempo estabelecidos por um enfrentamento vacilante e descoordenado da pandemia.

Enquanto prefeituras adotam posturas mais ou menos restritivas, estados deliberam por fases e cores diversificadas para definir o nível de abertura de suas economias e o governo central segue criticando os demais entes federados em sua falta de sintonia, os alertas da ciência se acumulam. Ao mesmo tempo, o vírus se propaga rápido e em silêncio, com uma eficiência que seus combatentes não alcançam.

Passado mais de um ano de pandemia, o país e seus cidadãos, que agora morrem a uma proporção que avança pela casa dos milhares, seguem clamando por uma gestão unificada do desafio. Apesar da resistência, especialmente em nível federal, fica cada vez mais evidente que fora do que indica a ciência não há saída para a crise da saúde – que segue alimentando suas próprias variantes, as crises política e econômica.


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