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Comércio internacional: crise


28/03/2021 04:00

Márcio Coimbra
Coordenador da pós-graduação em relações institucionais e governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, 
cientista político, mestre em ação política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-diretor da Apex-Brasil. Diretor-executivo do Interlegis no Senado Federal

No mundo ocidental, costumamos definir a palavra crise como problema, morte ou momento decisivo. No português, por exemplo, o vocábulo deriva do latim crisis, momento decisivo, e do grego krísis, decisão. No kanji, o ideograma weiji, crise, seria formado pela junção de dois outros – um negativo, que significa “perigo”, e um positivo, referente a “oportunidade, ocasião propícia”.

No Oriente, toda crise é o momento em que há perigo e medo, mas também é o período em que existem inúmeras oportunidades.

A crise econômica gerada pela pandemia causou danos aos fluxos de comércio internacional, isso porque, se imagina, passaremos por um período de refluxo mercantil externo, com as nações voltadas mais aos seus mercados internos. Apesar dessa leitura, fato é que novos caminhos estão se abrindo e aqueles países que souberem se adequar ao que se convencionou chamar de nova realidade comercial global podem fazer suas economias responderem mais rapidamente. Uma crise que, diante de uma leitura correta, abre um potencial imenso de oportunidades.

O mundo, que após a crise financeira de 2008 já vem passando por um movimento de desglobalização, busca um novo meridiano geoeconômico consistente. Nosso país, que soube fazer movimentos importantes na crise, elogiados inclusive pelo Banco Mundial, ainda precisa romper as amarras que mantêm nossa corrente de comércio em patamares muito baixos, cerca de 25% do PIB. Com uma tarifa média de importação em 16%, ainda estamos muito longe dos futuros parceiros de OCDE, que navegam em níveis mais favoráveis ao comércio, em torno de 2%.

Nesse sentido, é fundamental que o Brasil se mova nesta direção. Somos o país que atende atualmente ao maior número de requisitos exigidos para o ingresso na OCDE. Já foram cumpridos 90 dos 252 instrumentos exigidos, o equivalente a 35%. O caminho é longo, mas nosso país segue no rumo certo. Além dos 90 instrumentos que já receberam adesão, o Brasil tem outros 54 em análise e 59 prontos para solicitar adesão.

A entrada neste clube de boas práticas, composto atualmente por 37 países-membros, ajudará a potencializar o crescimento econômico e colaborar com o desenvolvimento de todos os demais sócios. Entre os mecanismos mais interessantes, existe um fórum de debates para os integrantes compartilharem experiências e buscar soluções para problemas comuns. Algo que certamente ajudaria o Brasil neste momento de transição.

Diante disso, sabemos que nosso país pode ir além. Neste momento crucial, em que novos desenhos e arranjos são delineados, existe a chance para o Brasil trabalhar uma agenda inteligente, atraindo parcerias, impulsionando a economia e a geração de empregos. Movimentos bem calculados podem inserir nosso país em cadeias globais de valor dentro destes novos eixos dinâmicos da economia mundial que passam a surgir neste momento.

Nossas exportações, que crescem à taxa média anual de 9,7%, com participação de apenas 1,2% no quadro global, ainda são resultado de um modelo ultrapassado de substituições de importações. Ao contrário da Coreia do Sul, que trabalhou este instrumento de forma inteligente, utilizando métricas de performance, o Brasil acabou criando uma fortaleza interna de privilégios. Precisamos quebrar este ciclo, pois sabemos que nosso potencial está muito além desse passado.

Uma abertura comercial está longe de ser apenas redução de tarifas e cotas. Logo, precisamos também de realinhamento estratégico e reposicionamento de nossa presença comercial no exterior, um plano de mobilidade global que torne o Brasil um player efetivo do comércio internacional. Uma estrutura organizada, leve e efetiva, que sirva de base para nossos exportadores, ao mesmo tempo em que funcione como elemento propulsor de novos negócios, aquilo que se convencionou chamar de intelligentsia, um corpo técnico estrategicamente alocado no exterior, exclusivamente dedicado a abrir mercados e oportunidades.

Nossos business desks, assim como fazem os canadenses, precisam estar espalhados em lugares como Baku, Bangalore, Cidade do Cabo e Cingapura, apenas para citar alguns. Na Índia, que há quatro anos cresce mais que a China, há espaço para forças modernizantes vindas do exterior, com demanda, por exemplo, para infraestrutura e commodities. As oportunidades estão postas. Precisamos de uma agência de exportação, que ao invés de estar enraizada no Brasil, deve se espalhar pelo mundo, abrindo frentes de negócios. Ao agir de forma inteligente, o Brasil pode se colocar de maneira estratégica no novo desenho do comércio internacional.

Dos mercados populares do Brasil ao indígena de Otavalo, no Equador, passando pelo Kejetia, em Kumasi, Gana, e o flutuante de Bangcoc, na Tailândia. Do Mercado de Djemaa el Fna, em Marrakesh, no Marrocos, ao conhecido de peixes Noryangjin, em Seul, na Coreia do Sul, e o tribal em Bati, na Etiópia, a humanidade foi moldada na liberdade econômica em sua trajetória.

Vivemos um período de desafios com a pandemia. Entretanto, estamos diante de movimentos estruturais no comércio internacional, onde existirá ainda mais lugar para um novo intercâmbio econômico que o Brasil pode ocupar de forma eficaz e inteligente. Ao lembrar do kanji, devemos entender o significado oriental de “crise”, que certamente significa “perigo”, mas certamente também “oportunidade e ocasião propícia”.


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