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O enigma da esfinge


02/08/2020 04:00

José Knopfholz
Médico cardiologista, decano da Escola de Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e conselheiro segundo corregedor do Conselho Regional de Medicina do Paraná

"Decifra-me ou te devoro."

Em Tebas, Rio de Janeiro, Curitiba, Paris ou em Nova York, o desafio da esfinge nunca deixou de existir.

As esfinges que afligiram a humanidade foram sempre pontos de inflexões. A pandemia da COVID-19 é uma delas. Vive-se um desafio de busca por uma cura, um remédio, uma vacina, uma luz e ainda a necessidade de se decifrar uma receita para a crise econômica e emocional que se abate sobre uma espécie.

Cada uma dessas inflexões proporcionou belas pontes na história da humanidade. Parece ser necessário acreditar que a dor de tantas famílias não será em vão. Novas tecnologias, medicamentos, técnicas terapêuticas e cuidados médicos irão emergir do sofrimento que nos assola. Mais que isso, viver-se-ão por anos tempos de reuniões remotas, trabalho em casa, prestação de serviços à distância e milhares de inovações.

Perguntava a esfinge: "Qual animal tem quatro patas pela manhã, duas pela tarde e à noite três patas?". A resposta errada condenava à morte por devoramento. Hoje, poderíamos ser devorados porque as afirmações incertas poderiam nos levar a caminhos pouco verossímeis, ainda que afirmadas com tanta segurança e veemência, que soam inquestionáveis aos ouvidos do interlocutor pouco informado.

A ciência da pandemia também é ciência e assim não pode deixar de ser. Com processos e modelos estruturados, alicerçada na velocidade necessária para um momento excepcional, deve o ser humano encontrar seu caminho longe do empirismo absoluto, para não correr o risco de voltarmos à etapa primária da esfinge. Por outro lado, os preciosismos habituais de tempos normais para conclusões assertivas não são possíveis nesse momento. Justamente por isso, vive-se um tempo de decisões dialogadas, compartilhadas, incertezas transparentes e descobertas a cada dia. Os acertos absolutos não existem e, por isso, cabe oferecer à esfinge os caminhos da razoabilidade e do diálogo, nem sempre homogêneos para cada situação. Nem a boa-fé dos que sofrem, nem a ganância dos feiticeiros de plantão, e por outro lado, nem o retardo decorrente muitas vezes do frequente extremo cuidado com a forma, podem sobrepor o bom senso e a coerência do momento de exceção que vivemos.

A esfinge, de cabeça humana e corpo animal, foi decifrada por Édipo. Logo em seguida, o monstro se joga no precipício, sobrando somente Édipo, totalmente humano. A esfinge, representativa do próprio ego seguro de si, está morta. E, junto com ela, morre a autofagia e o interesse individual acima de qualquer coisa. É o momento de olharmos além de nossa própria caverna. A presença da bengala no fim dá ao homem a sabedoria que surge entre a dualidade do adulto e o arroubo quase irracional do bebê engatinhando com os quatro membros. Permite a ele enxergar além do preto e do branco, algo entre as duas pernas separadas: o caminho do bom senso e da sabedoria. E aceita sua fragilidade.

Decifrar o coronavírus pode ser uma pequena chance para uma espécie ressignificar seus modos, alicerçar seus valores e alinhar suas intenções em sua passagem por um planeta que existe, apesar dela.

Decifrar o homem, e não o coronavírus, na profundidade de suas dores e anseios, nas entranhas de suas rebeldias e resignações, é uma necessidade para não sermos devorados pelas esfinges que virão.


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