Vivaldo José Breternitz
Doutor em ciências pela Universidade de São Paulo e professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
É útil acompanharmos como as grandes empresas que operam na China estão voltando ao trabalho. Afinal, o mundo necessita estabelecer regras para o pós- pandemia e a China pode ser vista como um laboratório onde se descobrirá o que funciona e o que não funciona.
Medidas óbvias estão sendo tomadas ali, como o uso de máscaras, desinfetantes e manutenção de distância entre os trabalhadores, mas naquele país, uma ditadura, vêm sendo adotadas certas medidas que talvez sejam vistas com estranheza em países democráticos, como o uso obrigatório de aplicativos aprovados pelo governo para acompanhar o estado de saúde e os locais por onde as pessoas transitaram e a adesão compulsória a outras regras, que variam de cidade para cidade. Mas há um ponto em que todos parecem concordar: a vida não voltará a ser como antes.
A Foxconn, empresa taiwanesa que entre outros produtos fabrica iPhones, recomenda que seus empregados evitem o transporte público, lavem as mãos antes e depois de tocar documentos e almocem com bastante espaço entre as pessoas. As salas de reuniões devem ter as janelas sempre abertas.
Gigante da área química, a alemã Basf exige que os ônibus que transportam seu pessoal também tenham as janelas abertas, independentemente do frio. A temperatura dos que chegam às fábricas é tomada e aqueles com febre são imediatamente enviados para um hospital; seus colegas são postos em quarentena. A empresa, em parceria com o governo, tenta descobrir se funcionários viajaram em trens ou ônibus em companhia de pessoas infectadas.
Todos na Basf são obrigados a usar máscaras; mesas e outras superfícies são higienizadas, continuamente, e nos refeitórios, cada mesa só pode ser ocupada por uma pessoa. Os funcionários administrativos trabalham em regime de home office e as fábricas e laboratórios passaram a operar em dois turnos, diminuindo a quantidade de pessoas trabalhando simultaneamente. Nas trocas de turno, as informações são passadas com o uso de telefones.
Os motoristas do DiDi, a versão chinesa do Uber, todas as manhãs devem enviar um vídeo à companhia, comprovando ter higienizado seus carros, além de informar sua temperatura, tudo com o uso de um aplicativo da empresa; devem também usar máscaras e luvas.
A gigante do e-commerce JD.com de- sinfeta todos os pacotes que saem de seus armazéns; seus entregadores, sempre usando máscaras, agora podem falar com seus clientes, o que eram proibidos de fa- zer anteriormente. Predomina o home office, mas os empregados que vão aos escritórios foram divididos em dois turnos; marcas no piso mostram onde as pessoas podem ficar e os elevadores foram programados para parar em determinados andares, para evitar que os usuários toquem os botões.
Empresas de porte menor também tomam medidas de defesa: alguns restaurantes só permitem que clientes entrem após exibir em seus celulares o "sinal verde" gerado pelos aplicativos aprovados pelo governo; esses aplicativos em breve serão unificados, operando à base de QR codes.
Em resumo: é uma luta diferente contra um inimigo novo e terrível; medidas como essas que vêm sendo to- madas na China, provavelmente, serão de difícil implantação nos países ocidentais, de cultura e governo muito diferentes, mas talvez sejam as únicas alternativas eficazes.
