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Estado de Minas

O lado pedagógico da pandemia


postado em 26/03/2020 04:00



Aleluia Heringer
Líder de sustentabilidade da Sociedade Inteligência e Coração (SIC) e doutora em educação pela UFMG


Em tempos de ruídos e incertezas, lideranças de vários setores da nossa sociedade estão perdendo a oportunidade de se apresentar, de fato, como lideranças. Ao invés de se unirem e pensar grande, se apequenam ao buscar defender e garantir o próprio interesse. É o mesmo padrão de comportamento de quem esvazia prateleiras de supermercados.

A pandemia não traz somente a morte e o caos. Ela tem nos interpelado, colocado em xeque nossos recursos tecnológicos e soberba. Nesse sentido, ela é pedagógica, pois abre a possibilidade de nos reinventarmos como sociedade. Infelizmente, nosso modelo de pensamento fragmentado, regido pelo primado das jaulas, grades, cercas, muros, além dos estigmas, não consegue, em um momento como este, pensar em termos de comunidade ou do bem comum. A civilização planetária requer uma cidadania, também, planetária. O discurso é de interdependência, contexto e conexões; entretanto, não conseguimos aplicar esses conceitos no momento de resolver os problemas da vida.

A experiência dolorosa da pandemia pode ser pedagógica, se também a entendermos como uma simulação e oportunidade de nos preparar para aquilo que iremos viver no caso do agravamento da crise climática. Tanto uma quanto a outra não escolhem nacionalidade, sexo, idade ou profissão, mesmo que, como sempre, as consequências sejam mais severas com os empobrecidos, os mais frágeis e os que vivem na periferia do sistema e da sociedade.

Tomar medidas unilaterais, partidárias, corporativas, apressadas e sem diálogo não condiz com todo o conhecimento que já acumulamos até agora como humanidade. Mesmo com todas as saudáveis e bem-vindas diferenças, é possível conversar, nos fortalecer, fazer pactos, alianças, acordos e todos os demais verbos que apontem para a construção de algo e não tensionem ainda mais o já frágil tecido social.

No âmbito da educação escolar, será necessário muito diálogo e paciência entre as famílias, professores, dirigentes de escolas, sindicatos e de quem legisla o sistema educacional brasileiro. Metade dos estudantes do planeta está em casa. Famílias estão se organizando como podem. Nossas moradias, quase sempre apertadas, e o modo de organização das cidades não favorecem uma rotina interessante para as crianças.

As escolas de educação básica operam no regime presencial; não há como, de uma hora para outra, apresentar algo consistente e com propósito educativo. Os professores precisam se reorganizar e rever planejamentos. No caso do Brasil, como cumprir 200 dias letivos, sendo que nos faltará margem de manobra se consideramos recessos e férias? Quais os acordos possíveis, pensando na comunidade escolar? Não será possível operar com as leis, regras, cultura ou convenções coletivas estabelecidas para tempos de normalidade. Não faz mais sentido pensar e agir sem levar em consideração todas essas variáveis. Se não entendermos e não conseguirmos fazer essa leitura ampla da realidade, é sinal de que não aprendemos nada com a crise. Aí, sim, ela só servirá para o caos e para a morte.


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