Luisane Vieira
Médica patologista clínica e diretora
técnica do Laboratório Lustosa
Parece ficção científica, mas um exame simples de laboratório pode medir a concentração pregressa de açúcar no sangue em até dois meses. O teste, chamado de hemoglobina glicada, é pouco conhecido e utilizado no Brasil, mas pode auxiliar no diagnóstico e no tratamento do diabetes.
Como já é sabido, o diabetes se caracteriza pelo excesso de concentração de açúcar no sangue, por falha na produção ou na ação do hormônio insulina, produzido pelo pâncreas. O tipo 1 está ligado a falhas diretas das células do órgão produtor. Já o tipo 2, responsável por cerca de 90% dos casos, está mais associado a fatores externos, como a obesidade e o estilo de vida, somados aos fatores genéticos.
Os principais sintomas são aumento da diurese, sede, fraqueza e com o tempo podem surgir lesões das artérias, dos rins e da visão, que podem demorar anos para se manifestar. O diabetes em geral não regride espontaneamente, mas, se descoberto precocemente, seu controle pode permitir que o indivíduo leve uma vida praticamente normal.
O exame de glicemia é atualmente o procedimento mais comum para diagnóstico e monitoramento do tratamento do diabetes. Ele identifica os níveis de açúcar (glicose) no sangue do paciente em um determinado momento do dia, geralmente em jejum. No entanto, a hemoglobina glicada (A1C) mostra os níveis de glicose ligados à proteína hemoglobina. E a quantidade encontrada tem relação direta com a concentração pregressa de açúcar no sangue. Diferentemente do teste-padrão de glicemia, que mede a quantidade de açúcar no sangue no momento da coleta, a hemoglobina glicada faz uma análise dos últimos 60 dias. A realização do exame é uma forma, também, de complementar a diagnóstico da doença, que deve atingir cerca de 366 milhões de pessoas em todo o mundo em 2030.
A glicemia tradicional aponta a variação dos níveis de açúcar em um curto espaço de tempo. Essa variação, no entanto, pode ser causada por outros fatores, como o estresse, o que pode prejudicar o diagnóstico. Já a hemoglobina glicada consegue refletir o monitoramento por um período maior, sem a necessidade de jejum, e com apenas uma coleta de sangue.
Para facilitar o entendimento: as moléculas de hemoglobina têm meia-vida de cerca de 60 dias, habitualmente. Ao longo do tempo, caso haja aumento do açúcar no sangue, a adesão dessas moléculas à hemoglobina também cresce. Por isso, a quantidade de açúcares presentes na hemoglobina indica quais foram as concentrações no sangue ao longo desse período, permitindo um retrato histórico e dando mais subsídios para o diagnóstico ou para a avaliação do tratamento aos já doentes. É como se o sangue tivesse “memória”.
É importante que os médicos não percam a oportunidade de indicar o exame de A1C em um laboratório de confiança no caso de suspeita de diabetes e, principalmente, no seu monitoramento. Em 2017, a Sociedade Brasileira do Diabetes e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia divulgaram documento no qual padronizam os procedimentos que os laboratórios devem seguir e os parâmetros que devem ser analisados para nortear as decisões quanto ao diagnóstico e ao acompanhamento do diabetes. Assim, é esperado que cada vez mais profissionais indiquem a realização desse procedimento.
