Mariana Luz
CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e uma jovem líder global indicada pelo Fórum Econômico Mundial Globais

pauta ambiental dominou a agenda da 50ª edição do Fórum Econômico Mundial, encerrado no último dia 24 de janeiro em Davos, na Suíça. Foi uma longa jornada desde que o assunto foi introduzido no fórum até que viesse para o primeiro plano. É natural que seja assim. Os grandes problemas que assolam o mundo não se alteram de um ano para o outro, ou mesmo em várias décadas.
Seria difícil contestar a importância de quaisquer dos assuntos tratados pelo fórum. Mas é preciso abrir espaço para um tema que não foi devidamente valorizado: a criança. Meu objetivo este ano, em Davos, foi chamar a atenção para esse assunto, que, assim como ocorreu com o clima no passado, está presente na maioria dos painéis, mas de forma ainda periférica.
Isso tem de mudar. A qualidade do ar, os refugiados, o futuro do trabalho. Não há um único recorte possível sobre desenvolvimento sustentável que prescinda da necessidade de cuidarmos da primeira infância. Essa é a causa raiz de tantas dessas e de outras causas.
Em 2000, James Heckman recebeu o Prêmio Nobel de Economia por comprovar que investimentos feitos para assegurar um ambiente saudável para a criança, do ponto de vista físico e emocional, desde o seu nascimento até os 5 anos de idade, evitaria gastos sociais e acarretaria ganhos econômicos ao longo de toda a vida de cada indivíduo. Cada dólar alocado nesses cuidados proporciona um retorno anual de 13%, mostrou Heckman.
Isso ocorre porque, nos primeiros três anos de vida, a arquitetura do cérebro está em construção, fornecendo o alicerce para a evolução das futuras habilidades da vida adulta, como resolução de problemas, planejamento, criatividade e pensamento flexível. Mas o ambiente e as experiências interferem nessa construção. A exposição contínua a diferentes tipos de adversidades compromete o desenvolvimento pleno do cérebro, o que impactará o indivíduo ao longo de toda a vida.
Isso quer dizer que uma criança vivendo entre refugiados ou em situação de pobreza extrema ou vítima de violência tem seu desenvolvimento irremediavelmente comprometido?
Não, se usarmos o conhecimento e os instrumentos que já possuímos para criar estratégias de cuidados e proteção à criança e à família.
É essencial que discutamos, globalmente, estratégias para proteger o desenvolvimento saudável dessas crianças nos desafios que nossa sociedade enfrenta, desde as diferentes situações de vulnerabilidade extrema, como ambientes de guerra e miséria, até os dramas cotidianos que assolam qualquer sociedade, por mais desenvolvida que seja: a instabilidade emocional gerada pelo desemprego na família; a insegurança urbana, que cerceia o acesso a um cotidiano de estímulos; a violência doméstica.
Em um mundo complexo, turbulento e incerto, existem muitas prioridades. Diante de orçamentos limitados, os gestores precisam fazer escolhas sobre quais políticas e programas priorizar. Um foco em emergências imediatas pode parecer mais atraente. No entanto, a realidade é que investir nos primeiros anos de uma criança poderia, realmente, prevenir muitas dessas mesmas crises.
Em todo o mundo, os formuladores de políticas são, cada vez mais, obrigados a fazer mais com menos. A chave é como oferecer intervenções que tenham um baixo custo inicial, gerem retornos rápidos e garantam um impacto duradouro. A provisão de serviços de atendimento infantil de alta qualidade faz exatamente isso. Eles não só produzem cidadãos criativos e capazes, mas também interrompem os ciclos de pobreza entre gerações e contribuem para o enfrentamento dos grandes desafios globais.
O valor do desenvolvimento da primeira infância como motor da quarta revolução industrial está claro. Em Davos, os participantes se concentraram, como sempre, no que é necessário para se prepararem para um mundo dominado pela tecnologia, automação e trabalhos que ainda não existem. As medidas voltadas para a primeira infância são essenciais para preparar as futuras forças de trabalho, pois é nessa etapa que se define a flexibilidade conflitiva – ferramenta que permitirá a adaptação e aperfeiçoamento de diferentes habilidades. Investir em ter capital humano com bases sólidas e que possa se ajustar as dinâmicas de um mercado imprevisível é nossa única esperança de garantir o futuro do trabalho.
Discutimos esses temas no encontro entre os integrantes do Young Global Leaders ao longo do fórum. Nosso norte foi a busca por alternativas que contribuam para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente as metas relacionadas às crianças. Nossa batalha, agora, é construir caminhos para que o cuidado com a primeira infância vá para o centro do debate. Assim como ocorreu, merecidamente, com o clima, a criança deve passar para o primeiro plano de toda discussão sobre desenvolvimento sustentável. Priorizar a criança é mais que um interesse ou responsabilidade da sociedade, é o maior e mais eficiente legado que podemos construir hoje.
