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Estado de Minas EDITORIAL

Virada na Argentina?

Não por acaso se diz que as nações não têm amigos, têm interesses


postado em 13/08/2019 04:00

Domingo, os argentinos foram às urnas. Em 2009, o país vizinho criou uma jabuticaba portenha. Em modalidade única no mundo, todos os eleitores devem comparecer às primárias abertas, simultâneas e obrigatórias (Paso), espécie de linha de corte para reduzir o número de candidatos às eleições presidenciais de outubro. Quem não consegue 1,5% dos votos fica fora do páreo. Dez postulantes disputaram a preferência popular.
Conforme se esperava, duas chapas sobressaíram. Uma encabeçada pelo ocupante da Casa Rosada, Mauricio Macri. A outra, liderada por Alberto Fernández, que tem como vice a ex-moradora do mesmo endereço Christina Kirchner. O que não se esperava foi o resultado. A oposição surpreendeu. Obteve mais de 47,01% dos votos. A situação ficou com 32,66%. Caso os números se mantenham em outubro, Fernández vencerá em 1º turno. É o que diz a legislação – 45% dos votos ou mais de 40% e no mínimo 10 pontos percentuais de vantagem para o segundo colocado.
 
Talvez a frase de James Carville explique a derrota acachapante de Macri. Em 1992, ao dar a razão da vitória de Bill Clinton sobre Bush, o comentarista político americano ventilou uma verdade que se tornou mantra em situação como a vivida pela nação vizinha: "É a economia, estúpido". Mauricio Macri, quando eleito, encontrou uma economia em ruínas e prometeu pô-la nos trilhos. Mas, ao assumir o poder em dezembro de 2015, negou-se a promover as mudanças estruturais indispensáveis. Em vez de quimioterapia, optou por analgésico.
 
Resultado: a economia encolheu 2,5% em 2018 e deve recuar mais 1,5% este ano. A inflação bateu em 40%. Mergulhada em grave recessão econômica, a Argentina não vê luz no fim do túnel. A teimosa alta no preço dos produtos da cesta básica, aos quais a população é muito sensível, levou o governo a tomar atitudes drásticas: cortou subsídios, congelou preços e recorreu a empréstimo no Fundo Monetário Internacional (FMI).
 
O mercado da região reagiu negativamente quando se anunciaram os números depositados nas urnas. O risco-país saltou de 900 (na sexta) para 1.500. O dólar subiu – de 46 pesos, no fim de semana, passou para 55. As ações listadas nos Estados Unidos operaram com queda de 30%. No Brasil, também se registraram abalos. O dólar teve alta e a bolsa caiu. Depois houve acomodação.
 
É claro que o pleito de domingo serve apenas de termômetro da tendência do eleitorado. Uma virada é possível, embora improvável. O Brasil deve ficar atento às oscilações registradas do outro lado da fronteira. A Argentina é, historicamente, um mercado comprador de produtos brasileiros com alto valor agregado – US$ 15 bilhões em 2018. Não só: Macri é aliado essencial nas negociações do acordo Mercosul-União Europeia. Daí por que, num cenário de guerra comercial global, seria mau negócio para Brasília um governo hostil em Buenos Aires.
 
Não por acaso se diz que as nações não têm amigos, têm interesses. Posição pragmática do Palácio do Planalto é muito bem-vinda. O governo deve acompanhar com atenção a marcha dos acontecimentos nas próximas semanas (até 28 de     outubro) e traçar estratégia para conviver com possível hóspede kirchnerista na Casa Rosada.


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