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Estado de Minas

Educação contemporânea e o sentido da volta às aulas


postado em 09/08/2019 04:00

Belisa Rabelo de Andrade
Diretora do Colégio Franciscano Sagrada Família


Institucionalizada na modernidade, a educação escolar convencional foi sedimentada em um contexto espaço-temporal com objetivos claros: o Iluminismo e seus ideais de igualdade, fraternidade e democracia. Naquele momento, havia a necessidade de um processo educativo que formasse indivíduos com domínio da língua escrita e da matemática, mas que, sobretudo, disciplinasse os seres e os convertesse em cidadãos instruídos, civilizados e moralizados. As escolas, então, se constituíram de espaços privilegiados de transmissão e difusão do saber técnico-científico. O professor detinha a posição de destaque na sala de aula, uma vez que a informação era restrita a poucos. Aos alunos, cabia a função de receptores de conhecimentos predeterminados, em um ambiente de ordem e pouco envolvimento.

Por um longo e importante período da história mundial, a educação escolar nos moldes iluministas foi exitosa em seus fins e gerou, em determinadas partes do mundo, o tão almejado progresso.

No entanto, o século 21 assinala para mudanças expressivas nas concepções de espaço e tempo, alavancadas pelo acelerado desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e comunicação. A escola não está dissociada dessas mudanças de ordem global e, consequentemente, vive desafios diários diante da necessidade de se adequar aos novos contextos sociais, culturais e espaciais.

Um dos grandes problemas enfrentados em muitos ambientes de educação básica do Brasil é a insistência no cumprimento rigoroso de um modelo de educação efetivado no contexto europeu do século 18. O distanciamento entre concepções de educação antiquadas e a realidade das crianças e jovens do século 21 gera certos desgastes nas escolas e, principalmente, nas salas de aula. Talvez alguns desses incômodos sejam a apatia e a indiferença dos alunos durante o período letivo. Nesse molde, a escola é repulsiva e, para muitos estudantes, o mais aguardado período de todo o processo formativo é o das férias, quando é possível flexibilizar a organização do tempo, fazer escolhas e exercer a autonomia, criar e desenvolver novas tarefas, ampliar as relações de colaboração com os colegas.

Diferentemente da escola moldada no Iluminismo, o contexto atual exige o desenvolvimento de diversas habilidades e competências pelos educandos, as quais superam o campo da instrução. Para além do domínio dos conteúdos, os estudantes devem promover o uso assertivo dos objetos de conhecimento científico com vistas à análise, avaliação e proposição de alternativas de solução para os diversos problemas vivenciados pelas sociedades em escalas local e global. Os alunos também devem se apropriar de temas que envolvem o empreendedorismo, a cidadania e a sustentabilidade, por exemplo. Na escola atual, o aluno é protagonista e precisa se dedicar à construção da própria aprendizagem. Nesse contexto, o período letivo exige ativa e efetiva participação dos educandos.

Muitas escolas brasileiras, amparadas pela legislação e próximas das recentes pesquisas no campo científico da educação, têm procurado caminhos para a aproximação às novas necessidades dos educandos (e isso não significa uma ruptura completa com as estruturas que vêm sendo construídas há séculos). Para tanto, têm investido em salas de robótica e pensamento computacional, metodologias ativas de aprendizagem e recursos multimídia, por exemplo. Todas essas inovações têm creditado aos alunos o preenchimento de diversos tempos e espaços da escola, o que possibilita a construção de novos sentidos ao aprender.

Nos ambientes de ensino e aprendizagem que buscam a constante revisão de suas práticas com olhares claros sobre as estruturas que moldam o século 21, o estudante é protagonista. Para ele, as férias e os recessos são aguardados, é claro! Mas a volta às aulas também é motivo de comemoração. Afinal, a escola tem feito sentido!


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