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Estado de Minas

Um desafio para todas as ciências


postado em 08/05/2019 05:07


Não há como permanecer calado em relação a uma série de notícias polêmicas. É difícil até escolher por qual delas deve-se começar uma reflexão. Vejamos, por exemplo, as notícias sobre a oferta dos cursos de medicina e das ciências humanas e sociais. Durante algumas décadas fazendo pediatria, conheci muito de perto doenças infantis associadas às condições socioeconômicas. Posso citar a desnutrição, as gastroenterites, a desidratação, as pneumonias, as parasitoses intestinais, as doenças infectocontagiosas, entre elas, a tuberculose, a sífilis, o tétano, a difteria, a coqueluche, o sarampo, a paralisia infantil e muitas outras.

Testemunhei, assim, como médico formado em 1975, que no último quarto do século passado os hospitais pediátricos viviam lotados. A mortalidade nos primeiros anos de vida era muita alta. Os transtornos emocionais, comportamentais e de aprendizagem também eram muito comuns, porém, se escondiam atrás das doenças prevalentes. Na maioria desses casos o pano de fundo era sempre o mesmo, ou seja, fatores sociais adoeciam e matavam milhares de crianças. Muitas vezes doenças associadas primordialmente com a indiferença humana sempre muito presente nesses cinco séculos da formação da sociedade brasileira. Leituras de história, geografia, sociologia, direito, filosofia me ajudaram nessa compreensão. Graças a elas desconstruí paradigmas que norteavam o entendimento equivocado que tinha sobre o desenvolvimento humano neste país.

Nessas décadas do século atual, diferentemente, os impactados já não são mais crianças pequenas e, sim,  milhares de adolescentes e adultos jovens. Hoje, convivemos com o estresse, a obesidade, a depressão, a automutilação, o suicídio, o abuso de drogas, a violência, o aprisionamento, a mortalidade alta de adolescentes e de adultos jovens e com a dengue. Essencialmente, entretanto, os fatores causais continuam os mesmos.

Isso ocorre porque falta neste país a aplicação consistente de medidas fundamentadas em conceitos da filosofia, como a razão e a lógica, a ética, a reflexão; da antropologia e sociologia, que orientam a organização e o funcionamento das sociedades humanas saudáveis; do direito, como os conceitos de justiça e cidadania implícitos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; das ciências da religião, como espiritualidade, fraternidade, solidariedade e, por fim, conceitos da psicologia e psicanálise relacionados à subjetividade, ao altruísmo, à compreensão das emoções básicas, à construção da personalidade e às origens da indiferença, da agressividade, da perversidade. São conceitos que uma vez garantidos na formulação dos textos das políticas públicas e na postura ética da governança (Executivo, Legislativo, Judiciário, e mais economia, agricultura, meio ambiente, educação, saúde, desenvolvimento social, justiça, segurança pública etc.) contribuem para melhorar os seres humanos e as sociedades. É tempo, portanto, da valorização da universidade e potencialização da produção dos conhecimentos e socialização perseverante dos mesmos até alcançar o cidadão onde ele estiver.

Por fim, propositadamente, cabe aqui recorrer a uma história sobre crianças que, desesperadas, desciam continuamente rio abaixo lutando contra a correnteza. As pessoas consternadas procuravam retirá-las do rio até que uma delas decidiu ir rio acima para tentar descobrir o que estava acontecendo. Na verdade elas estavam sendo jogadas no rio.

Como na história acima, além de tentarmos cuidar das crianças e adolescentes, muitas vezes impactados biopsicossocialmente, que lutam cotidianamente contra as experiências adversas, é preciso erradicar as causas que levam a esse quadro preocupante. Certamente que essa não é uma missão unicamente das “ciências da saúde” e sim de todas as “ciências”, por meio de ações transdisciplinares e integradas a curto, médio e longo prazo.

Há um abismo estarrecedor entre o ritmo das decisões políticas e a implementação das intervenções sociais. A tragédia social no Brasil é grave, não pode esperar mais, exige ações urgentes.


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