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A saúde da nossa educação

Será que, na educação do século 21 (seja na escola ou em casa), estamos transformando em patologias as dificuldades do dia a dia?


postado em 15/12/2018 05:04









A expressão "educação do século 21" se transformou em um jargão na imprensa, nos congressos e em encontros de educadores, pois tem sido descrita, majoritariamente, pela perspectiva das transformações tecnológicas e o que elas têm proporcionado nos últimos tempos, como o impacto nas formas da transmissão de informação, no mercado de trabalho e suas profissões, além de nas próprias relações humanas. Aqui, proponho usarmos uma lente diferente: a da saúde.

O modo como a educação tem sido entendida e praticada no Brasil pode ser discutida a partir dos resultados de algumas pesquisas, realizadas nos últimos anos, sobre o aumento alarmante do uso de medicamentos psiquiátricos entre crianças e adolescentes no país e no mundo.

De acordo com estudo realizado pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), entre 2003 e 2012, o consumo do metilfenidato (conhecido também como Ritalina ou Concerta), o mais utilizado na tentativa de reverter os sintomas do controverso transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), aumentou 775% entre crianças e adolescentes na faixa dos 6 aos 16 anos.

Os sintomas mais frequentes do quadro de TDAH, e que fazem parte da descrição relatada pelo manual de psiquiatria (DSM 5), são: agitação, falta de atenção e impulsividade. Além de manifestações não inusitadas na infância e adolescência que podem ser oriundas de questões circunstanciais e não de saúde, mas que também podem ser sinais de outros quadros psicopatológicos, como ansiedade ou depressão.

A pressa por uma resposta e a falta de critérios para distinguir uma coisa da outra (por isso o termo "controverso" para caracterizar o TDAH) aumentam as chances de essas crianças receberem o diagnóstico e, consequentemente, o medicamento. De fato, não existe um exame clínico e nem psicológico que determine de forma objetiva a existência de TDAH.

Então, será que o fato de uma criança se distrair, agir impulsivamente ou, ainda, estar inquieta significa que ela tenha essa patologia? Será que essas questões devem necessariamente ser cuidadas com o uso de medicação? E o que isso tem a ver com a educação?

O principal caminho para se chegar a esse diagnóstico no Brasil tem seu início na escola, a partir das dificuldades de aprendizagem e/ou insubordinação de determinada criança ou adolescente. São corriqueiras hoje, nas escolas, cenas em que professores e coordenadores encaminham alunos para avaliação psiquiátrica, neurológica e psicológica com suspeita de TDAH e/ou supervisionam o uso de medicação daqueles já diagnosticados. A responsabilidade da falta de atenção, nesse caso, seria sempre de uma incapacidade particular do aluno e não de uma aula desinteressante do professor ou outra situação do contexto escolar.

Além dos professores, mães e pais passaram a exigir diagnóstico e medicamento em busca de aquietar os conflitos na escola e dentro de casa. Encontrar um culpado pelos problemas – e que tem possibilidade de desaparecer com o uso de uma pílula – pode ser menos angustiante do que escutar o que uma criança ou um adolescente está querendo dizer com seu comportamento e sinais.

Além disso, os efeitos do uso de medicamento psicotrópico em crianças e adolescentes ainda são desconhecidos, tendo em vista que eles estão em desenvolvimento físico e emocional.

Com essas provocações, o intuito não é condenar as avaliações médicas e nem a pesquisa de novos tratamentos medicamentosos. Até porque, foi devido ao aprofundamento do estudo das psicopatologias e sua divulgação que as pessoas tiveram mais acesso à informação; e as crianças, que antes eram tachadas de burras ou incompetentes, puderam ter a oportunidade de aprender melhor. De acordo com o psiquiatra infantil Luis Rodhe, não é só no caso do TDAH que a intervenção medicamentosa, quando aliada a uma orientação familiar e escolar, pode ajudar os estudantes no desempenho de suas tarefas diárias. Em outros transtornos, ela se faz ainda mais necessária em situações em que outras psicopatologias são identificadas, como o autismo grave, psicose infantil ou depressão.  De qualquer forma, o diagnóstico e a prescrição não são definitivos.

O alerta, portanto, é o  seguinte: será que, na educação do século 21 (seja na escola ou em casa), estamos transformando em patologias as dificuldades do dia a dia? Será que o mais saudável é medicar uma criança, a fim de que ela se adapte e se conforme a um mundo que nós mesmos criticamos?

Este não é um artigo que nega os diagnósticos como aliados do cuidado, mas sim um alerta de que eles não devem ser usados como rótulos, classificando as crianças e adolescentes como passíveis ou não de serem educados. Este é um artigo que afirma a importância de escutar os estudantes na sua singularidade, como protagonistas de suas histórias, e que fazem parte de um contexto familiar e social. Calá-los em suas tentativas de se comunicar com os adultos, em prol de uma "normalidade", pode significar calar não só os conflitos, mas também aquilo que os alimenta: o pensamento crítico, a curiosidade, a capacidade imaginativa. Ou seja, pode significar calar os propulsores do ato de educar que a gente espera para o século 21.



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