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Estado de Minas

Nem só do aço vive o Vale

Moradores da zona rural da região descobrem no turismo uma forma de diversificar os negócios e garantir geração de renda e lucro com a atividade


postado em 13/10/2019 04:00 / atualizado em 11/10/2019 18:08

Belinha recebe turistas para visitas e oferece café com quitandas, além de belíssimos trabalhos feitos à mão(foto: Felipe Machado/Divulgação)
Belinha recebe turistas para visitas e oferece café com quitandas, além de belíssimos trabalhos feitos à mão (foto: Felipe Machado/Divulgação)


Há quase um século, o Vale do Aço está entre os maiores parques industriais da siderurgia na América Latina. É difícil imaginar que, em meio a gigantescas usinas, a região abrigue também parte da Mata Atlântica brasileira e a maior cidade, Ipatinga, tem 54% de seu território situado na zona rural. E são nesses espaços verdes que surgem pequenos negócios voltados à gastronomia e empreendimentos turísticos. O visitante poderá tomar deliciosos cafés da manhã, curtir artesanato local e até participar do processo de fabricação e formatação de rapaduras, no Sítio Recanto Vovô Teixeira, negócios que vêm rendendo dinheiro e gerando emprego.
 
O projeto Turismo no Vale teve início em 2011, quando pessoas envolvidas no Circuito Mata Atlântica firmaram parceria com o Sebrae-MG para a criação de roteiro inspirado em outras iniciativas (circuitos do Ouro, do Diamante, das Grutas e Estrada Real, entre outros). Inicialmente, foram realizadas reuniões de sensibilização com gestores públicos dos 11 municípios que compõem a região de Mata Atlântica, para traçar um diagnóstico que norteou os primeiros passos da proposta, segundo conta uma das coordenadoras do projeto, Cidinha Sampaio. “Realizamos uma pequisa de mercado em 2012 e o resultado nos provocou, mostrando que as pessoas tinham como indicativo turístico do Vale do Aço apenas bares e shoppings e não viam potencial para investir em outras fontes no setor. A pesquisa sinalizava que faltava o indutor turístico para a região. Posteriormente, foi elaborado um plano de marketing, apontando quais segmentos potenciais no Vale.”
 
Com a filha, o casal Jamil e Irineia produz 40 quilos por dia de várias qualidades de queijos e diz que a atividade promoveu uma guinada em suas vidas(foto: Felipe Machado/Divulgação)
Com a filha, o casal Jamil e Irineia produz 40 quilos por dia de várias qualidades de queijos e diz que a atividade promoveu uma guinada em suas vidas (foto: Felipe Machado/Divulgação)
 
 
Foram indicados os grupamentos rural, gastronômico, religioso, cultural, eventos e negócios. Os moradores foram incitados a desvendar os atrativos locais e inciou-se capacitação para oferecer produtos de qualidade. O turismo passou a ser gerido pelos empreendedores locais. A linha férrea, única que opera comercialmente o transporte regular de passageiros na região Sudeste, ligando Belo Horizonte a Cariacica, na Região Metropolitana de Vitória, tornou-se mais um atrativo. A mobilização para esse nicho desvendou inúmeros produtos e espaços particulares usados de forma despretensiosa e que, se agregados, poderiam ser explorados como negócio. Atualmente, são 50 participantes que avaliam mensalmente o andamento das atividades e articulam execuções de eventos. São traçados roteiros para grupos ou turistas individuais, com passagem em fazendas, sítios e centros de artesanato, para visita e aquisição de produtos.
 
“A região era muito dependente da cadeia da siderurgia, e o Sebrae buscou aproveitar todos os ganhos que o aço proporcionou às cidades para propor alternativas. Em 2015, percebemos a necessidade de envolver mais empreendedores”, explica Alessandro Challub, analista do Sebrae Minas.
 
Queijo premiado produzido no Empório da Serra(foto: Felipe Machado/Divulgação)
Queijo premiado produzido no Empório da Serra (foto: Felipe Machado/Divulgação)
 
 
Em 1968, José Zacarias, “sô Zaca”, deixava a cidade natal, Monlevade, e aportava em Ipatinga, onde adquiriu 30 hectares na zona rural. A área era utilizada pelos primeiros desbravadores do então Vale Verde desde 1911, para o plantio de café. O produto era transportado por tropeiros até Mesquita e seguia de canoa pelo Rio Doce até a cidade de Figueira, hoje Governador Valadares.
 
Sô Zaca lembra que, quando chegou, era só terra e que começou a construir aos poucos a sede e instalações da Fazenda do Zaca. Somente na década de 1990, num período de crise econômica, os sitiantes da região começaram a alugar suas casas. “O turismo é uma alternativa nesses momentos e foi a forma de gerar emprego e de dar aporte financeiro aos moradores da zona rural.”, diz. Ele conta que começou a receber visitantes e pesquisadores por estar em área de Mata Atlântica, que soma 17 hectares preservados e oito nascentes, e foi alertado que seu terreno funcionava como um centro de educação ambiental. Foi o ponto de partida para a criação da zona permanente de proteção ambiental, o que a tornou intocável. Para agregar, sô Zaca construiu uma hospedaria, que, hoje, tem capacidade para receber até 200 pessoas por mês. O roteiro inclui café da manhã na Fazenda do Zaca, visita ao artesanato no sítio da Belinha, na localidade de Ipaneminha, e almoço no Empório da Serra, do casal Jamil Delfino dos Santos Júnior e Irineia Pereira Fortunato Delfino, integrantes do projeto.
 

ROTEIRO
Processo de fabricação de rapadura no Sítio Recanto Vovô Teixeira(foto: Felipe Machado/Divulgação)
Processo de fabricação de rapadura no Sítio Recanto Vovô Teixeira (foto: Felipe Machado/Divulgação)
  

O empório fica a 40 minutos da sede Ipatinga, no alto de uma montanha, com vegetação exuberante e clima ameno, destoante do calor da região. O investimento no turismo começou a partir de uma “surpresa” promovida pelo marido, conta Irineia. “Eu reclamava de ficar um pouco isolada e pensei em montar uma pousada. Certo dia, Júnior (como Jamil é conhecido na região) me telefonou, dizendo ter um presente para me dar. Pensei logo em um carro novo, mas fui surpreendida quando ele chegou com quatro vacas e me desafiou a produzir queijos.” Foram muitas as tentativas. “Ela me ligava chorando e dizia ter perdido todo o leite e, para incentivá-la, dizia-lhe que procurasse identificar o erro”, conta Jamil.
 
No entanto, em pouco tempo, Irineia se apaixonou pela produção artesanal, buscou apoio técnico para criar uma fábrica de queijos curados, ainda sem produtores na região. Em agosto, resolveram inscrever seu produto, com cura de 18 meses, no Mundial de Queijo, em Araxá. “Não tínhamos muita pretensão de ganhar, foi mais pela busca de experiência, tanto que sequer demos tratamento especial que todos os expositores dão”, relata o produtor. Sem acreditar na possibilidade de premiação, o casal deixou Araxá antes do término do concurso. Porém, assim que chegaram em casa, receberam um telefonema da produção do evento, informando que haviam conquistado o segundo lugar entre os queijos da linha parmesão.
 
Jamil não revelou quanto investiu, mas disse que toda a produção atual é destinada a novos investimentos e que o resultado tem sido positivo. O Empório produz uma média de 40 quilos por dia, entre queijos parmesão, gruyere, morbier, reino, gouda, meia-cura, meia-cura com ervas e boursin. “Nosso investimento inicial não foi muito. Adaptamos ao que já existia na propriedade. Hoje, investimos o que ganhamos lá. Estamos supersatisfeitos com o turismo rural, que deu uma guinada nas nossas vidas.”

* O repórter viajou a convite do Sebrae Minas
 
 
SERVIÇO

Fazenda do Zaca
(31) 99966-1320
www.fazendadozaca.com.br

Artesanato no sítio da Belinha
(31) 98633-0364

Empório da Serra
(31) 987705-8978
www.emporiodaserralaticinios.com.br

Sítio Recanto Vovô Teixeira
www.sitiorecantovovoteixeira.com 


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