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Estado de Minas CHECAMOS

Preço da CoronaVac é inferior ao pago em outros países por imunizantes

Publicações em redes sociais dizem que a vacina contra COVID-19 da Sinovac, em parceria com o Butantan, é a 'mais cara do mercado'; isso é falso


18/01/2021 16:31 - atualizado 19/01/2021 10:12

Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais desde meados de janeiro afirmam que a vacina contra covid-19 desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantan é a “mais cara do mercado”, apesar de ter 50,38% de eficácia global. Isso é falso. O preço da CoronaVac é inferior ao pago por outras vacinas, como as da Pfizer e da Moderna. 


“Véi, a eficácia geral da coronavac é de 50,38%!!!! A vacina mais cara do mercado te dá 50% de chance de ser (na melhor das hipóteses) soro. Eram 98% de eficácia, depois 79%, depois 78,3%, depois 65% e agora 50,38%. E O MARKETING QUE FOI FEITO PRA PRESSIONAR ESSA APROVAÇÃO?”, diz um tuíte, compartilhado mais de 3.600 vezes desde o último dia 12 de janeiro.

Capturas de tela desta mesma publicação também foram replicadas mais de mil vezes no Facebook (1, 2, 3) e Instagram. Não é verdade, contudo, que a CoronaVac seja a vacina contra covid-19 mais cara. 

Como informou o governo de São Paulo ao AFP Checamos para uma outra verificação, o valor estimado da dose da vacina da Sinovac Biotech é de 10,30 dólares, ou 54 reais no câmbio de 18 de janeiro de 2021.

Este preço é consideravelmente inferior, por exemplo, ao cobrado pela empresa norte-americana Moderna, segundo estimativa fornecida por seu CEO em entrevista a um jornal alemão em novembro de 2020. Ao Welt Am Sonntag, Stéphane Bancel afirmou que a dose da vacina da Moderna custaria entre 25 e 37 dólares, ou entre 131 e 195 reais.

Em tuíte publicado em 17 de dezembro, a secretária de Estado do Orçamento da Bélgica, Eva De Bleeker, revelou que a União Europeia pagaria um pouco menos pelo imunizante da Moderna, gastando 18 dólares por dose, ou 95 reais - valor ainda significativamente superior ao da CoronaVac.

Nos Estados Unidos, o governo fechou um contrato de 1,5 bilhão de dólares por 100 milhões de doses da vacina da Moderna, o que colocaria o preço de cada unidade no patamar de 15 dólares, ou 79 reais.

O custo de cada imunizante é negociado separadamente entre o país comprador e a farmacêutica responsável, podendo variar dependendo da quantidade encomendada, entre outros termos do acordo. Esses valores podem ser protegidos por cláusulas de confidencialidade e nem sempre são divulgados publicamente.

Na mesma publicação, posteriormente deletada, De Bleeker também divulgou o valor acordado entre a União Europeia e as farmacêuticas Pfizer e BioNTech: 12 euros por dose, ou 76 reais.

O tuíte da oficial belga revelou, igualmente, o preço cobrado pela alemã CureVac, que ainda está na fase final de testes. Segundo os dados divulgados por De Bleeker, a dose do imunizante custará 10 euros, o equivalente a 63 reais, ainda acima do valor da vacina da Sinovac Biotech. 
Captura de tela feita em 15 de janeiro de 2021 de uma publicação no Twitter
Captura de tela feita em 15 de janeiro de 2021 de uma publicação no Twitter

O preço da CoronaVac é, por outro lado, mais alto do que o do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca. Segundo divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz, que irá produzir a vacina no Brasil, sua dose custa 3,16 dólares, ou 16 reais.

Essa grande diferença se deveria ao fato de que a AstraZeneca se comprometeu a vender o imunizante “a preço de custo” em todo o mundo, abrindo mão, portanto, da margem de lucro - promessa que não foi feita por outras farmacêuticas.

Eficácia de 50,38%


Na data em que o conteúdo começou a circular, o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, anunciou que a CoronaVac apresentou 50,38% de eficácia global no estudo clínico desenvolvido no Brasil.

O número gerou controvérsia por ser inferior a duas porcentagens que haviam sido divulgadas uma semana antes pelo mesmo instituto. Em 7 de janeiro, o Butantan anunciou que a vacina da Sinovac Biotech havia atingido 100% de eficácia para casos graves e moderados e 78% para quadros leves, sem a necessidade de internação hospitalar.

A taxa também é inferior a algumas divulgadas por outras farmacêuticas, mas, como explicou ao AFP Checamos o professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Carlos Dias, o imunizante pode ajudar o Brasil a vislumbrar uma saída da pandemia de covid-19. 

“O que eles observaram foi que no grupo de placebo, 167 voluntários contraíram a covid-19 e no grupo de voluntários, que tomou a candidata vacinal, a CoronaVac, 85 voluntários contraíram a covid-19, o que mostra que a vacina protegeu cerca de 50% das pessoas”, disse o integrante da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Mas, essa não foi a única observação importante, destacou Dias. “A CoronaVac se mostrou capaz de evitar aqueles casos mais moderados e graves da infecção pelo coronavírus. Esse é o principal objetivo de uma vacina, evitar os casos mais graves. Consequentemente você evita óbitos, alivia o sistema de saúde”, pontuou.

Segundo o professor, isso indica que o imunizante vai funcionar de maneira semelhante à vacina contra a gripe. “De 100 pessoas que tomam a vacina da gripe, 45, 50 ficam imunizados, os outros não. Mas os que pegam a gripe, pegam uma gripe mais leve. [...] Foi por causa da vacina que você pegou uma gripe mais leve. E é isso que vai acontecer com a covid-19”.

Dias explicou que a vacinação também protege por meio do conceito de imunidade de rebanho, já que diminui a quantidade de pessoas suscetíveis ao vírus, reduzindo a circulação da covid-19 e, consequentemente, o número de contágios. Por isso, é importante que o maior número de pessoas participe da campanha de vacinação.

“Uma vacina com 50% de eficácia, desde que ela fosse aplicada em, digamos, 80% da população brasileira, nos tiraria dessa pandemia. [...] Ela daria tempo do sistema de saúde se organizar e desenvolver outras vacinas mais robustas”, afirmou.

Em resumo, é falso que a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantan, seja a vacina contra a covid-19 mais cara do mercado. O preço do imunizante é inferior ao pago por múltiplos países por outras vacinas, incluindo as fabricadas pelas farmacêuticas Pfizer e Moderna.


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