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Estado de Minas PROJETO COMPROVA

Automedicação e uso de azitromicina, ivermectina e nitazoxanida não são recomendados contra COVID-19

Recomendação contraria a orientação da ampla maioria das autoridades e entidades de saúde. A orientação para pessoas que apresentam sintomas de COVID-19 é procurar assistência médica e não se automedicar


postado em 08/07/2020 19:38 / atualizado em 08/07/2020 20:59

Conteúdo com informação falsa viralizou no Facebook(foto: Projeto Comprova)
Conteúdo com informação falsa viralizou no Facebook (foto: Projeto Comprova)
Uma publicação do dia 25 de junho da página “Um pouco de tudo” no Facebook indica o uso dos medicamentos azitromicina, ivermectina e nitazoxanida para pessoas com sintomas leves de COVID-19. O texto sugere que a recomendação parte de “profissionais de saúde”, sem citar nomes, em função de um suposto “colapso no Sistema de Saúde do Brasil” e é direcionada a quem não quiser se “arriscar a ir a um hospital”.

Essa recomendação, porém, contraria a orientação da ampla maioria das autoridades e entidades de saúde. Embora haja estudos em andamento sobre a possível ação desses medicamentos contra o vírus que causa a COVID-19, o SARS-CoV-2, a eficácia deles não foi comprovada até o momento. Além disso, a orientação para pessoas que apresentam sintomas é procurar assistência médica e não se automedicar.

A afirmação de que haveria um “colapso” no sistema de saúde brasileiro também não é verdadeira. Levantamento feito pelo Comprova mostra que, neste momento, todos os estados possuem leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) disponíveis.

Como verificamos?

Entramos em contato com a responsável pela publicação no Facebook por meio de um número de telefone que consta na apresentação da página. Ela disse não saber a origem do texto que compartilhou.

Também consultamos o administrador de um perfil que havia publicado material semelhante mais de dois meses antes, em 3 de maio, mas não obtivemos resposta. Por meio de buscas na internet, não identificamos nenhuma entidade de saúde que tenha reivindicado a autoria.

Em seguida, solicitamos por e-mail um posicionamento do Ministério da Saúde em relação às recomendações feitas no texto. Confrontamos essas sugestões com as orientações de entidades médicas, autoridades de saúde e estudos científicos já publicados a respeito da COVID-19.

Submetemos, ainda, o conteúdo do texto à análise de dois especialistas: os infectologistas Unaí Tupinambás, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Marcelo Carneiro, professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e integrante da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (Abih).

Por fim, realizamos um levantamento com base em informações disponibilizadas pelas secretarias estaduais de Saúde para verificar as taxas de ocupação de UTIs em todo o país e entrevistamos o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto para compreender o que significa um “colapso” no sistema de saúde.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a COVID-19 disponíveis no dia 8 de julho de 2020.

Verificação

O texto faz menção a três “fases” da evolução da COVID-19 e lista sintomas e tratamentos associados a cada uma delas. Esse modelo de classificação é citado em revisão publicada em abril na revista Journal of Infection Control, da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (Abih).

Assinado por 28 especialistas, o artigo confirma que a infecção por SARS-CoV-2 pode ser dividida em três estágios. O estágio I é “um período de incubação assintomática com ou sem vírus detectável”; o estágio II é um “período sintomático não grave com presença de vírus” e o estágio III é um “estágio sintomático respiratório grave com alta carga viral”. O estudo, porém, não associa sintomas ou tratamentos específicos a cada uma delas.

De acordo com o infectologista Unaí Tupinambás, essa classificação se aplica a apenas algumas situações, já que a ampla maioria dos casos de COVID-19 não são graves e, portanto, não atingem a fase mais aguda da infecção. “Aqueles pacientes mais graves talvez possam se enquadrar nas três fases, mas, felizmente, são a minoria. Só os que estão naquela fase mais grave que precisam realmente de internação, de CTI”, explicou. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 80% das infecções são “leves ou assintomáticas”.

Em nota, o Ministério da Saúde esclareceu que os “sintomas da COVID-19 podem variar de um simples resfriado até uma pneumonia severa, sendo os sintomas mais comuns a tosse, coriza, dor de garganta e dificuldade para respirar”. Embora haja relatos de infectados que apresentaram alguns dos demais sintomas citados no texto, eles são menos comuns.

De acordo com o infectologista Marcelo Carneiro, que é um dos autores do artigo do Journal of Infection Control, os sintomas mais frequentes apresentados por pacientes da COVID-19 são os mesmos de outras infecções gripais. A exceção é a perda do olfato e paladar, registrada em alguns casos e, que parece, conforme o especialista, ser um traço particular da doença causada pelo novo coronavírus.

A informação da postagem de que os sintomas de virose aparecem a partir do terceiro dia de infecção também não é necessariamente verdadeira. Conforme Carneiro, os sintomas podem aparecer em até cinco dias após a pessoa ter contato com o vírus. “Isso é muito variável, depende de uma pessoa para outra”, disse.

Os medicamentos

O conteúdo que viralizou também recomenda a automedicação e indica o uso do antibiótico azitromicina a partir do terceiro dia de sintomas, bem como os medicamentos antiparasitários ivermectina e nitazoxanida (mais conhecido como Annita) “para ser mais rápido na cura”. Essa recomendação, porém, é refutada pela maioria dos profissionais e autoridades sanitárias.

Na nota, o Ministério da Saúde reiterou que “até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus ou ser utilizado com 100% de eficácia no tratamento”. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) corrobora o posicionamento e afirma que, por enquanto, “não há vacina nem medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a COVID-19.”

Em relação à azitromicina, o Ministério da Saúde afirma que as evidências encontradas até agora “não comprovam a eficácia do uso de medicamentos antibacterianos em pacientes com COVID-19.” Essa posição é ratificada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Quanto à ivermectina, o documento do Ministério da Saúde esclarece que “ainda não existem evidências clínicas suficientes que permitam tecer qualquer recomendação quanto ao uso de ivermectina em pacientes com COVID-19”. O mesmo posicionamento é adotado pela Food and Drug Administration(FDA, órgão norte-americano equivalente à Anvisa).

Um estudo e publicado em junho pela revista Antiviral Researchapontou que a ivermectina pode atuar como inibidor do SARS-CoV-2 em laboratório. Segundo o infectologista Marcelo Carneiro, porém, isso não garante a eficácia do medicamento em humanos. “Já está provado que as doses de ivermectina precisam ser extremamente altas para funcionar. Então, em laboratório ela funciona como antiviral. Mas não existe doses para humanos e, se existir, será extremamente tóxica”, explicou.

Quanto à nitazoxanida, uma revisão sistemática rápida publicada no dia 9 de junho por pesquisadores dos hospitais Alemão Oswaldo Cruz, Sírio-Libanês e Moinhos de Vento concluiu que, por “ausência de evidência clínica”, não é possível recomendar o uso do medicamento como terapia para COVID-19. Atualmente, estão em andamento no Brasil e em outros países pesquisas sobre a possível ação da nitazoxanida contra a COVID-19, mas ainda não há comprovação.

Automedicação

Especialistas também criticam a automedicação, que é sugeridapelo texto. Conforme reforçou o Ministério da Saúde na nota, o diagnóstico da COVID-19 deve ser “realizado primeiramente pelo profissional de saúde que deve avaliar a presença de critérios clínicos.”

De acordo com o infectologista Unaí Tupinambás, a recomendação é de que pessoas com quadro suspeito evitem a automedicação e procurem assistência médica para receber orientações de como proceder. “É muito importante que todos os pacientes com suspeita de COVID-19 tenham acesso a uma consulta médica, mesmo que à distância”, pontuou. O especialista esclareceu ainda que o tratamento da doença envolve repouso e hidratação oral frequente e que medicamentos como dipirona, novalgina ou paracetamol podem ser utilizados para aliviar sintomas como febre, mal estar e dor de cabeça.

Nos casos mais graves, o tratamento passa pela oxigenoterapia — o uso de respiradores mecânicos. Unaí Tupinambás citou ainda a dexametasona, que, segundo estudo da Universidade de Oxford, do Reino Unido, apresentou resultados satisfatórios quando ministrada a pacientes em estágios avançados da doença. O uso, porém, só deve ser feito sob orientação médica.

A situação do sistema de saúde

Ao contrário do que diz o texto publicado no Facebook, não é possível afirmar que o sistema de saúde brasileiro colapsou. Professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto explicou o que tecnicamente significaria esse colapso, que já atingiu certas regiões, mas ainda não foi observado em cenário nacional.

“Colapso é quando você tem que fazer uma escolha entre quem vai para a UTI e quem vai para o cuidado paliativo. Exemplificando: há dois pacientes que precisam entrar na UTI para terem uma chance de salvamento e você tem que escolher um dos dois, porque só tem uma vaga. O Brasil já experimentou [o colapso] em Manaus, em Belém, em algumas cidades do interior do Pará, como Marabá. Colapso geral no Brasil, não (ocorreu)”, explicou.

Levantamento feito pelo Comprova com base em dados divulgados pelas secretarias de saúde mostra que todos os estados brasileiros possuem vagas em UTIs. Sergipe (93,8%), Mato Grosso (93,2%) e Acre (92,4%) têm as maiores taxas de ocupação. Portanto, tecnicamente é possível dizer que nenhuma unidade federativa apresenta colapso no sistema de saúde no momento. 
 

A página "Um pouco de tudo"


Por telefone, a administradora da página “Um pouco de tudo”, Lucia Barros, disse desconhecer o autor do texto e alegou que copiou o material da página de outra pessoa, mas que não se recorda quem. Lucia, que se apresentou como cabeleireira e alegou que divide-se entre Brasília e o Piauí, afirmou que mantém a página “por hobby” e que retirou o texto do ar por recomendação da filha, que é profissional da saúde. Várias versões diferentes do texto foram publicadas no Facebook antes. Por meio da plataforma CrowdTangle, identificamos que a mais antiga é da página “Dr. Mike” e data de 3 de maio. O perfil é administrado pelo dentista Ezequias Nascimento dos Santos, que mantém uma clínica em Manaus (AM) e, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi candidato a deputado estadual pelo PSC em 2018. Na postagem – que faz menção à azitromicina, mas não à ivermectina e à nitazoxanida -, a autoria do texto não é atribuída a “profissionais de saúde”.


Procuramos a clínica por telefone para solicitar informações sobre a origem do texto, mas não houve retorno.



Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais. Quando o material aborda assuntos relacionados à COVID-19, a verificação se torna ainda mais importante, pois esses conteúdos podem colocar a saúde das pessoas em risco.

Até o dia 2 de julho, antes de ser retirada do ar, a publicação da página “Um pouco de tudo” alcançava 76 mil compartilhamentos no Facebook. O conteúdo é perigoso porque atribui a profissionais da saúde recomendações que não são aceitas por autoridades sanitárias e entidades médicas, o que pode induzir pessoas a adotar procedimentos arriscados, como a automedicação ou o uso de medicamentos cuja eficácia contra a COVID-19 ainda não é comprovada. A informação de que a rede pública de saúde estaria em colapso também é perigosa pois distorce a realidade e pode fazer com que pessoas potencialmente infectadas deixem de procurar assistência médica.

 
Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

O conteúdo já havia sido verificado pelo Estadão e pelo Aos Fatos, que também o classificaram como falso. 

* Texto produzido pelo Projeto Comprova, coalizão de veículos de imprensa para checar conteúdo viral nas redes sociais. Investigado por: Estado de Minas e Gazeta do Sul.  Verificado por: Jornal do Commercio, Poder 360, Nexo Jornal, UOL, SBT e Revista Piauí. 


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