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Estado de Minas ENTREVISTA/ANTÓNIO MANUEL DA CRUZ SERRA

Alunos brasileiros já são 1/3 dos estrangeiros em Portugal

Professor fará conferências em BH para estudantes interessados amanhã e terça-feira


postado em 17/11/2019 04:00 / atualizado em 17/11/2019 07:27

''Consideramos nosso dever disponibilizar a esses estudantes (de Minas Gerais) a oportunidade de fazerem um curso superior numa universidade (Ulisboa) de elevado prestígio'' (foto: DUARTE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO)
''Consideramos nosso dever disponibilizar a esses estudantes (de Minas Gerais) a oportunidade de fazerem um curso superior numa universidade (Ulisboa) de elevado prestígio'' (foto: DUARTE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO)

Um terço dos estudantes que chegam a Portugal para cursar universidade são brasileiros. Direito, arquitetura, design e psicologia são os cursos mais procurados, seguidos por medicina dentária, economia e gestão, relações internacionais, ciências da comunicação e engenharia. Para intensificar esse intercâmbio, o reitor da Universidade de Lisboa, professor António Manuel da Cruz Serra, estará em Belo Horizonte, amanhã e terça-feira, às 15h, em conferências para alunos interessados, respectivamente, na Academia Mineira de Letras e na PUC Minas.

A Universidade de Lisboa (Ulisboa), a maior de Portugal, tem cerca de 50 mil estudantes de mais de 100 países. Em nível de graduação, os cursos custam em média entre 3 mil e 7 mil euros ao ano. Em entrevista por escrito ao Estado de Minas, Cruz Serra nega que casos de discriminação a brasileiros, recentemente divulgados em reportagens na mídia nacional, sejam frequentes. “São claramente exceção. Portugal é considerado um país acolhedor, tolerante e dos mais seguros do mundo”, diz.

Brasileiros têm demonstrado crescente interesse em cursar universidade em Portugal. Como está o intercâmbio de estudantes entre os dois países? Existem estatísticas da evolução desse fluxo estudantil com a Universidade de Lisboa?
O número de estudantes oriundos do Brasil é cada vez mais importante, representando cerca de 33% dos alunos estrangeiros a estudar em Portugal, num total de 45.797 inscritos no ano letivo 2018/19. Destes, cerca de 1.800 são estudantes em mobilidade ao abrigo de protocolos de cooperação, que vêm a Portugal para frequentar aulas durante um ou dois semestres. No que diz respeito à Universidade de Lisboa, temos inscritos cerca de 3.000 estudantes brasileiros, o que representa um terço do total dos nossos alunos estrangeiros, que ronda os 9.000. Claramente, o intercâmbio com o Brasil tem-se intensificado nos últimos anos, pela maior procura direta por parte dos interessados e através dos protocolos estabelecidos com instituições de ensino superior e outras organizações (associações, empresas).

Quais são os cursos mais procurados por brasileiros?
Os cursos de direito, arquitetura, design e psicologia são os mais procurados, logo seguidos por medicina dentária, economia e gestão, relações internacionais, ciências da comunicação e engenharia. Dentro dos cursos de engenharia nota-se uma procura especial pela informática. O curso de medicina é muito procurado, mas, infelizmente, a lei não nos permite admitir alunos nesse curso.

Como é para o brasileiro o processo de admissão nas universidades portuguesas?
O processo é variável consoante o grau que pretendam obter. Para se inscreverem num curso de mestrado ou de doutoramento podem candidatar-se todos os que forem possuidores de um curso de graduação ou de mestrado, respetivamente. As taxas de frequência são geralmente idênticas às dos nacionais portugueses, com algumas exceções, no caso de cursos com vagas específicas para estudantes internacionais. A inscrição em cursos de graduação na ULisboa exige que o estudante tenha sido aprovado no ensino médio. Além disso, os estudantes que já sejam estudantes de uma universidade brasileira podem candidatar-se a um curso da ULisboa. O Enem poderá ajudar a seriar os candidatos caso o número de vagas para um determinado curso seja inferior ao número de candidatos.

Em geral, como é o desempenho dos alunos brasileiros: adaptam-se bem ou têm dificuldades recorrentes?
Em geral, todo o estudante internacional na Universidade de Lisboa tem tendência a sentir-se imediatamente integrado, quer do ponto de vista social, como cultural. O fato de a cidade de Lisboa ser muito cosmopolita ajuda muito a essa integração. Além disso, o laço linguístico que une o Brasil a Portugal vem facilitar, ainda mais, essa realidade no que toca ao estudante brasileiro. Apesar disso, a ULisboa tem vindo a desenvolver uma série de facilidades com vista a criar mais e melhores condições de integração dos estudantes internacionais através de gabinetes específicos de apoio em todas as escolas.

Recentemente foram publicadas reportagens em vários veículos de informação com relatos de situações de discriminação de brasileiros nas universidades. Esses casos são frequentes ou constituem exceções?
São claramente exceção. Portugal é considerado um país acolhedor, tolerante e dos mais seguros do mundo. A sua capital, Lisboa, não foge a essas características e nela vivem e trabalham pessoas de todas as religiões, origens étnicas e geográficas, e de todas as línguas. As situações de intolerância não são aceitas pela população portuguesa em geral nem pelas suas autoridades. A universidade está particularmente atenta ao cumprimento rigoroso das normas de sã convivência entre todas as pessoas da sua comunidade e atuará em caso de desvio.

A Universidade de Lisboa é o resultado da fusão entre as universidades Clássica e Técnica e tornou-se a maior de Portugal. Há planos de expansão? Qual é a oferta de cursos e os preços médios?
A Universidade de Lisboa tem a dimensão que precisa para cumprir a sua missão. Contudo, não estamos satisfeitos com o que temos. Nunca estamos. Queremos sempre fazer mais e melhor investigação, mais e melhor ensino e ter mais estudantes internacionais. Quanto à oferta, a ULisboa é uma instituição abrangente, oferecendo cursos em todas as áreas do saber. Dependendo do nível da formação pretendido, os valores podem, ou não, ser diferentes. Assim, se falarmos ao nível da graduação, que nós denominamos por licenciatura ou por mestrado integrado, os valores das taxas de frequência aplicadas aos estudantes abrangidos pelo Estatuto do Estudante Internacional, onde se incluem naturalmente os estudantes brasileiros, varia entre 3.000 euros e 7.000 euros por ano, dependendo do curso. No caso especifico de medicina dentária e medicina veterinária, o valor da taxa de frequência é de 12.500 euros por ano. Alguns cursos de mestrado dispõem de valores diferentes quando haja vagas específicas para estudantes internacionais, outros são iguais às taxas aplicados aos alunos portugueses. No caso do doutoramento os valores são iguais para todos os estudantes, quer sejam nacionais, quer estrangeiros.

Portugal vive um momento econômico de vitalidade, com aportes de investimentos estrangeiros na construção civil, no setor de turismo, entre outros. Os imóveis se valorizaram nos centros urbanos e muitos portugueses têm optado por vender as suas casas e mudar-se para regiões menos centrais. Em sua opinião, esse intenso fluxo de estrangeiros tem trazido desconforto aos portugueses?
Os centros urbanos onde a pressão imobiliária devida a investimentos estrangeiros se mais fez sentir foi em Lisboa e no Porto. Contudo, há a consciência de que esses investimentos também trouxeram benefícios evidentes para esses centros urbanos que ultrapassam os possíveis desconfortos.

Qual é o objetivo de sua visita a Belo Horizonte?
Há alguns anos a esta parte temos feito visitas a algumas cidades do Brasil com o intuito de continuar a estreitar as nossas relações com as instituições de ensino superior brasileiras, bem como para apresentar a universidade a potenciais estudantes brasileiros e às suas famílias. Nesse périplo, ainda não tínhamos tido oportunidade de trabalhar em Belo Horizonte, onde sabemos haver um conjunto vasto de estudantes bem preparados, que terminaram o ensino médio, e que não conseguem lugar nas importantes universidades públicas do estado de Minas Gerais. Assim, consideramos nosso dever disponibilizar a esses estudantes a oportunidade de fazerem um curso superior numa universidade de elevado prestígio. Com as suas 18 escolas, cobrindo todas as áreas do saber e liderando os rankings internacionais em Portugal, a Universidade de Lisboa situa-se nos 100 primeiros lugares na generalidade dos mais reputados rankings internacionais das universidades europeias, confirmando assim o seu prestígio a nível mundial. Esta posição cria-lhe uma responsabilidade acrescida de contribuir para a construção de um mundo mais tolerante, sabedor e melhor.
 



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