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Estado de Minas GERAL

Desastres iminentes criam onda de 'refugiados' no Brasil


postado em 07/04/2019 13:00

Por um tempo, a sensação era de viver à espera do pior. O sono era invadido pelo receio de precisar fugir a qualquer momento. Hoje, eles estão a salvo, mas já convivem com a sensação de terem perdido tudo (ou quase). A descrição pode remeter a uma zona em conflito ou sob ameaça de desastre ambiental, mas se refere a alguns milhares de brasileiros. A eles, a única alternativa foi sair de casa.

Em meio às tragédias iminentes, duas chamam a atenção por criarem ondas de "refugiados" no País: a Vale realocou 748 pessoas que vivem na Zona de Autossalvamento (área até 10 quilômetros de distância das barragens sob risco iminente de romperem em Minas Gerais); e outros 19 mil moradores de Pinheiro, bairro nobre de Maceió que corre o risco de afundar, passam por desocupação.

Hoje em casas temporárias ou hotéis, parte deles convive com a incerteza do retorno e a falta de uma vida que talvez nunca retomarão. Ao Estado, relataram dificuldades em se adaptar a nova realidade, como a mudança de cidade ou bairro, a nova residência e convívio social.

"A repetição desses desastres tecnológicos tem criado um ambiente de insegurança", diz Frederico Garcia, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "A gente não tem dados diretos, mas houve claramente um aumento de transtornos de ansiedade em populações que vivem no entorno ou embaixo dessas barragens."

O professor foi um dos coordenadores de um estudo com 271 moradores de Mariana, de 10 e 90 anos, que passaram pela tragédia de 2015. Do total, 63% diziam sofrer discriminação pela condição de atingido por barragem, 29% foram diagnosticado com depressão e 83% apresentavam sintomas de estresse pós-traumático.

Segundo Garcia, os moradores dessas áreas têm maior propensão a desenvolver estresse crônico, doenças mentais e também físicas, como diabete e hipertensão. Por isso, ressalta a necessidade de atendimento preventivo. "Tem efeito a curto e a longo prazo, se nada for feito."

Decisão difícil

Dentro dessa lógica, ele aponta que a saída de casa é uma decisão muito difícil para as famílias, por terem uma ligação estreita não só com o imóvel. "São pessoas que saíram da fazenda onde a família estava há 200 anos, que perderam o contato com as pessoas que conhecem, em quem confiavam. Se perde um imóvel, mas também uma rede de apoio, uma história."

A situação não é diferente com os moradores de Pinheiro, explica Laeuza Farias, presidente do Conselho Regional de Psicologia. Com sede no bairro alagoano, a entidade tem cerca de 50 colaboradores que atendem a população das áreas de risco - ao menos 447 pessoas já se cadastraram para receber auxílio-moradia da Prefeitura. "O dano causado à saúde mental das pessoas é imensurável, mesmo ofertando apoio psicológico." Segundo ela, o impacto maior é sobre a população mais idosa, que costuma ter um laço mais antigo com o local. "Ainda tem a incerteza do patrimônio material, que praticamente não vale mais nada."

Por fim, um dos fatores mais estressantes é a falta de informação. "Algumas pessoas se mudaram, mas deixaram parte das coisas na casa. Saíram, mas ainda têm esperança de voltar para o seu cantinho."

Sem escolha

Especializada em produção de eventos, Luíza Vieira Wollny, de 32 anos, queria construir uma casa no distrito de São Sebastião das Águas Claras, conhecido como Macacos, em Nova Lima, na Grande Belo Horizonte, e se casar. Ela e outros 200 moradores, aproximadamente, de área vizinha à barragem da Vale no município, foram obrigados a deixar as casas em 16 de fevereiro, depois da empresa de consultoria se negar a atestar a estabilidade da estrutura. Todos viviam na chamada zona de autossalvamento (ZAS).

A ex-moradora de Macacos está hoje em um hotel em Belo Horizonte. Ainda pensa em se casar. "Mas construir casa lá, não. É dar sorte para o azar", disse. Com o impacto do risco de rompimento da barragem, Luíza perdeu o emprego e não sabe para onde ir nem se volta para o interior. "Não sei se posso ir. Se for, não sei se perco meus direitos."

A advogada aposentada paulistana Guiomar Marotti Dumont, de 61 anos, queria construir uma casa no lote que tem em Macacos para a filha, o genro e o neto de 3 meses. Vivia havia 15 anos no distrito e, viúva, fazia planos de voltar para São Paulo, onde também tem familiares. A casa que possui em Macacos, o lote, e a casa onde moravam a filha e o genro ficam no Engenho, localidade distante três quilômetros, dentro da zona de salvamento.

"Eu nunca mais quero ouvir aquela sirene tocar, me arrepio só de pensar nisso. É como se o cérebro da gente parasse. Não sei explicar. É um pavor", rememorou Guiomar. A sirene em Macacos foi acionada pela primeira vez no dia 16 de fevereiro, data da evacuação, quando o nível de emergência da barragem foi elevado a 2. No dia 27, o status foi alterado para 3, que indica rompimento iminente. "A sensação que tínhamos era de que, com a sirene, a barragem já havia rompido, tendo visto o que aconteceu em Brumadinho (que deixou mais de 300 mortos e desaparecidos)", afirmou.

"Fomos muito felizes lá. Olhava para aquelas montanhas e dizia: Para que lá fosse perfeito, só faltava o mar", afirmou. Vivendo em um apart-hotel em Belo Horizonte, Guiomar espera agora uma indenização da Vale. "A casa agora não vale nada. O lote também não. E eu não pretendo fazer mais nada lá."

25 km

O genro de Guiomar, Gabriel Francisco dos Santos, de 28 anos, proprietário de um restaurante em Macacos, precisa agora se deslocar todos os dias do hotel em Belo Horizonte para o trabalho no distrito, a 25 quilômetros da capital.

Acostumado com a calma do interior, reclama de ter de viver em um grande centro. "Lá eu tinha mil metros quadrados com jabuticabeiras. Aqui abro a janela e só vejo prédio. Você não vive na sua casa. Não tem privacidade. Vive sob as regras de um hotel."

Para ajudar a enfrentar a nova vida, Gabriel e Guiomar levaram os animais para o hotel. "São dois cachorros e cinco gatos. O apart-hotel providenciou tela nas janelas", observou ele.

Tristeza

O pedreiro Wilson Mendes, de 51 anos, vive agora em uma casa alugada pela ArcelorMittal no Centro de Itatiaiuçu. Em 8 de fevereiro, foi retirado às pressas de sua residência no distrito de Pinheiros, na zona de autossalvamento da barragem da mineradora. Com a mulher, uma filha de 22 anos e um filho de 18, passou a viver em um hotel, até ser alojado na casa em que está hoje. "Para a minha filha e o meu filho foi bom, porque estudam e trabalham na cidade. Para mim, não. Eu tinha horta, criava porco e galinha."

Mendes morou no distrito durante 27 anos. "Saímos de casa com a roupa do corpo. Tive de vender os animais. Ficaram meu gato e meu cachorro, que agora têm de ficar presos. Até eles estão tristes", relatou.

No mesmo dia em que Mendes foi obrigado a deixar sua casa, José Wilson Magalhães, de 69 anos, teve de sair da sua, no distrito de Socorro, em Barão de Cocais. Pelo mesmo motivo: problemas com uma barragem que, no município, pertence à Vale. Magalhães, que é separado, mora hoje em um hotel em Santa Bárbara, município vizinho. "Ficar em um hotel dois dias é uma coisa, mas dois meses é bem diferente."

O aposentado conta que deverá se mudar para uma casa alugada nos próximos dias. "O que eu queria era ficar na minha casa. Era o lugar em que eu iria passar o resto da minha vida. Isso foi tirado de mim. Tudo o que faço agora é porque sou obrigado a fazer." Em nenhum dos casos, existe a possibilidade de que moradores das zonas de autossalvamento retornem para as casas em que viviam.

Cenas de 'Vidas Secas'

No planalto acinzentado do bairro do Pinheiro, em Maceió, o Jardim das Acácias espalha 23 edifícios de paredes desbotadas. No número 17 - o Bloco Açaí, na Rua Manoel Menezes -, a aposentada Nailde Leal Messias, de 74 anos, despacha, de um dos apartamentos do 2.º andar, as últimas caixas para o caminhão de mudanças estacionado na frente do prédio. Deixa por último o Lourinho, um papagaio que a acompanha há 23 anos. As rachaduras nas paredes do imóvel lembram a lama seca na margem de um rio desértico.

Sentada na sala, a filha da aposentada, Soraia Leal Messias, inevitavelmente se lembra da mudança de Fabiano e Sinhá Vitória, personagens de Vidas Secas que tentam sobreviver aos infortúnios da caatinga no romance do alagoano Graciliano Ramos. A diferença, lembra ela, é que o êxodo é urbano. Depois de fechar o apartamento, Nailde Leal desce os dois lances de escadas que separam seu apartamento do térreo observada pelos vizinhos que insistem em continuar no edifício condenado pela Defesa Civil de Alagoas. "Adeus", fala para um deles. "A gente ainda vai se ver", responde o vizinho esperançoso.

O Bloco 17 está na chamada área vermelha do Pinheiro - uma das três cores escolhidas pela Defesa Civil para definir o grau de perigo, sendo a vermelha a mais ameaçada de desabamento desde março de 2018, quando um tremor de terra na região provocou fissuras em dezenas de imóveis e afundamento do solo. Ao todo, a Prefeitura de Maceió diz que pelo menos 2.415 imóveis correm risco de desabamento. Entretanto, passado mais de um ano, ninguém sabe as causas. Profissionais do Serviço Geológico do Brasil investigam o caso.

Enquanto isso, os moradores do Pinheiro tentam sobreviver em outros bairros longe da ameaça de desabamento, que agora afeta também os bairros do Mutange - onde está o centro de treinamento do CSA, o primeiro clube alagoano a disputar a Série A do Brasileiro - e Bebedouro.

Sem água

Na quarta-feira (3), o aposentado José Alves, de 65 anos, foi o último a deixar o edifício Gameleira - o Bloco 13 do Jardim das Acácias. Saiu, faz questão de esclarecer, porque a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) cortou a água do prédio. "Não iria conseguir arcar com uma despesa de cerca de R$ 500 sozinho."

Na saída do edifício de três pavimentos, o aposentado cruzou com o funcionário público Antônio Rodrigues de Araújo, de 66 anos, que havia deixado o bloco algumas semanas antes dele. Especialmente naquele dia, Antônio tinha marcado com um engenheiro da Caixa Econômica Federal que faria uma avaliação do imóvel onde morava com a mulher. "Preciso saber como vai ficar minha situação, porque ainda pago financiamento do imóvel."

Enquanto aguardava o representante do banco, Antônio Araújo abriu a caixa de correios do prédio e se surpreendeu com o volume de correspondências. Não era o único. Nos dias em que a reportagem percorreu as ruas do bairro, agentes dos Correios e técnicos da Equatorial Energia Alagoas visitaram imóveis abandonados distribuindo correspondências.

Sem querer se identificar, funcionários da distribuidora de energia informavam que estavam apenas avisando sobre a possibilidade de interrupção de fornecimento de energia para quem estivesse deixando o bairro. Ao mesmo tempo, as ruas do Pinheiro foram tomadas por empresas de mudança - que cobram até R$ 400 dependendo da distância.

Perto dali a secretária Ana Paula Cirilo Castelo Branco enchia o veículo com alguns objetos pessoais retirados da casa que acabara de abandonar com o marido e os dois filhos. Abalada com as notícias de possível desabamento do bairro, ela passou a tomar ansiolíticos para poder conviver com a realidade local. Sua casa, avaliada em R$ 500 mil há quatro anos, não vale a metade disso atualmente, segundo o mercado imobiliário.

Embora tenha se mudado para um lugar que considera seguro, Ana Paula costuma voltar ao bairro com frequência para visitar a tia, a aposentada Maria Nadir Marques Farias, de 82 anos, que se recusa a deixar o Pinheiro. "Isso tudo não passa de especulação", diz a aposentada. "Tem alguém querendo ganhar dinheiro com isso", acrescenta, se referindo às notícias sobre uma eventual catástrofe.

"Além de driblar um fenômeno aparente natural, os moradores do Pinheiro têm de driblar a incompreensão e a ganância do homem", lamenta José Alves. Enquanto isso, como em Vidas Secas, o Pinheiro continuará mandando para outros lugares da cidade homens e mulheres fortes como Fabiano, Sinhá Vitória, Nailde, José Alves, Antônio, Ana Paula e a própria Nadir, que insiste em ficar. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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