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Estado de Minas ASSÉDIO

João de Deus se entrega e ficará em cela individual

Acusado por ao menos 300 mulheres de abusos sexuais, líder espiritual está preso em presídio de Goiás. Advogado de defesa nega que médium tenha feito saques de R$ 35 mi de aplicações


postado em 17/12/2018 07:00 / atualizado em 17/12/2018 09:29

João de Deus foi levado ainda na noite de ontem para o Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia(foto: Evaristo Sá/AFP)
João de Deus foi levado ainda na noite de ontem para o Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia (foto: Evaristo Sá/AFP)
Brasília – O médium João de Deus se entregou à polícia pouco depois das 16h de ontem em uma estrada perto de Abadiânia, cidade goiana onde ele atendia no centro religioso Casa Dom Inácio de Loyola. Ele chegou à Delegacia Estadual de Investigações Criminais (DEIC), em, Goiânia pouco antes das 18h. Um dos responsáveis pela rendição, o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, disse que João de Deus não apresentou resistência e que a prisão é preventiva, ou seja, sem prazo para terminar.

O delegado disse ainda que o interrogatório seria “longo e detalhado”. Em virtude da idade – 76 anos – e dos crimes pelos quais é acusado, a expectativa é de que o médium fique em uma cela individual do Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia para onde foi levado ainda ontem.

O líder religioso era considerado foragido desde sábado, quando a polícia fez buscas em mais de 30 endereços apontados pela investigação. Ele teve a prisão decretada na sexta-feira. Para pedir a prisão do médium, o Ministério Público justificou que, caso permanecesse solto, ele poderia ameaçar mulheres que denunciaram os abusos ou, ainda, fazer novas vítimas.

João de Deus é acusado pelos crimes de assédio sexual e estupro por mais de 300 mulheres, do Brasil e do exterior. Ao menos 30 vítimas foram ouvidas pelos procuradores que atuam no caso. Segundo o advogado de defesa Alberto Toron, não há contemporaneidade entre as denúncias contra o médium e sua necessidade de prisão. “Os fatos são antigos e não aconteceu nada de novo que justificasse a prisão”, declarou.

Segundo o delegado André Fernandes, a investigação sobre as denúncias de abuso sexual contra o médium  vai se concentrar em 15 casos e que a polícia vai focar, a partir de agora, na formação de provas. “A Polícia Civil está analisando caso a caso e está se concentrando na questão do abuso (sexual). O grande desafio é provar essa situação. A Polícia Civil persiste focada na formação da prova. Muitos crimes estão prescritos, mas vítimas que comparecem atuarão como testemunha”, afirmou.

O delegado negou que a Polícia Civil estivesse preocupada com uma possível fuga do acusado. “Tínhamos situação controlada. A apresentação espontânea só se deu após várias técnicas utilizadas, aprendida por grandes delegados. É o momento agora da Polícia Civil confeccionar suas provas”, afirmou.

Fernandes afirmou também que, caso a investigação aponte para a participação de funcionários da Casa Dom Inácio de Loyola nos supostos crimes cometidos, essas pessoas também serão alvos do inquérito policial. “Se as investigações provarem isso, que houve qualquer tipo de conivência, essa pessoa será trazida para dentro da investigação. Com certeza (cúmplices podem ser punidos).”

APLICAÇÕES 

O criminalista Alberto Toron negou movimentações suspeitas de R$ 35 milhões na conta e aplicações financeiras e afirmou que o líder espiritual não planejava deixar o país. “O dinheiro não foi sacado, o senhor João de Deus apenas baixou as aplicações. Não houve movimentação. Ele não sacou o dinheiro do banco e não estava fora do estado”, afirmou Toron.

Na quinta-feira, o Ministério Público protocolou pedido de prisão preventiva contra João de Deus após notar retirada de R$ 35 milhões de contas e aplicações financeiras em nome do médium. No dia seguinte, a Vara Judicial de Abadiânia expediu o documento, mas ele não foi localizado pelas autoridades.

Toron disse encarar com ‘estranheza’ o fato de denúncias de supostos crimes cometidos há 30 anos terem voltado à tona agora. “À medida em que os fatos forem sendo apurados, as pessoas forem sendo ouvidas, vamos poder ver se são aproveitadores”, disse, ao citar uma holandesa que denunciou João de Deus e que, segundo o criminalista, tem um passado ‘mais que duvidoso’. “Se fere de forma tão grave, como mulheres voltaram (ao Centro Dom Inácio Loyola, onde foram cometidos os supostos crimes) cinco vezes, oito vezes?”, questionou.

O criminalista pediu “calma e serenidade” em relação à apuração das acusações. “Precisamos de um pouco de calma e serenidade para que não se faça um linchamento”, afirmou. “Em respeito a essas mesmas pessoas e mulheres, precisamos fazer essa investigação com todo o cuidado.”

Toron disse que apresentará um pedido de habeas corpus para suspender a prisão preventiva em troca de medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.

O CASO 


Desde a revelação do caso, quando as primeiras acusações foram mostradas pelo Jornal Nacional e pelo Conversa com Bial, ambos da TV Globo, a promotoria de Abadiânia, em Goiás, recebeu 335 denúncias de abuso sexual contra João de Deus.

As acusações vieram de Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Pará, Santa Catarina, Piauí e Maranhão, e pelo menos seis países – Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça.

O crime teria ocorrido durante sessões espirituais no Centro Dom Inácio Loyola. Segundo a Promotoria, João de Deus oferecia “atendimentos particulares” a mulheres após os tratamentos, momento em que os abusos seriam cometidos.

ABADIÂNIA 

Apesar de toda a polêmica envolvendo João de Deus, a Casa Dom Inácio de Loyola ficou aberta ontem até o horário do almoço e encerrou as atividades em seguida. Durante a manhã, ao menos 10 pessoas continuaram no local, a maioria estrangeiros, vestidos de branco. Enquanto alguns faziam orações, outros meditavam.

Quem circulava pela cidade encontrava poucos pontos de comércio abertos. Em condição de anonimato, algumas pessoas arriscaram a comentar o assunto. Disseram, por exemplo, que o médium não era “flor que se cheire”. Além disso, mostraram preocupação sobre como a prisão dele deve afetar a economia do município.


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