A bravura dos indígenas Krenak deixou o sagrado Rio Doce em uma jornada de 10 mil quilômetros. Uma missão que levou seus líderes a enfrentar, nesta segunda-feira (4/4), um batalha sob a insistente chuva fina, o vento cortante e o frio de 3ºC para defender os direitos dos atingidos pelo rompimento da Barragem do Fundão, na primeira audiência em Londres que definirá, até o fim da semana, se a Justiça do Reino Unido pode julgar o caso e determinar uma indenização pelo desastre.
Os advogados dos atingidos querem processar a mineradora inglesa e australiana BHP Billiton, para que assuma a responsabilidade sobre a barragem que era operada por sua subsidiária, a Samarco – a Vale é a outra proprietária da empresa.
Os advogados dos atingidos querem processar a mineradora inglesa e australiana BHP Billiton, para que assuma a responsabilidade sobre a barragem que era operada por sua subsidiária, a Samarco – a Vale é a outra proprietária da empresa.
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Lama faz índios Krenaks depender de água mineralMP de Minas espera concluir até fevereiro repactuação do acordo de reparação de MarianaCinco anos depois, vítimas de Mariana esperam por uma casaOs cerca de 200 mil atingidos dessa ação são representados pelo escritório internacional PGMBM. A maioria é de pessoas físicas, mas os maiores valores devidos são referentes a 25 municípios mineiros e capixabas - incluindo o de Mariana, o mais devastado -, cinco autarquias, seis instituições religiosas e 530 empresas de diferentes portes. Estima-se o valor do processo em cerca de 5 bilhões de libras (mais de R$ 31 bilhões). O julgamento da ação termina na sexta-feira (8/4)
A intenção é processar a BHP Billiton (BHP Reino Unido e BHP Austrália), uma das controladoras da Mineradora Samarco, ao lado da Vale. A Samarco operava a Barragem do Fundão quando ela se rompeu, em 5 de novembro de 2015, matando 19 pessoas – um corpo nunca foi encontrado – e devastando a Bacia Hidrográfica do Rio Doce entre Mariana e a foz no mar do Espírito Santo.
Dentro do tribunal, o julgamento se mostrou mais meticuloso do que o ocorrido em primeira instância, em 2020, e que considerou que o pedido dos atingidos seria um abuso da Justiça do Reino Unido, sem condições práticas para julgar o número grandioso de clientes e com risco de sobrepor ações em curso no Brasil. Essa decisão está sendo contestada pelos advogados do escritório PGMBM.
Desta vez, participam três juízes, incluindo o vice-presidente do Tribunal de Apelação, o que mostra a importânci do caso, que pode se transformar no maior do Brasil e do Reino Unido em termos de valores e número de pessoas defendidas. Os advogados da PGMBM e da BHP Billiton concordaram inclusive em ampliar o tempo previso para a audiência devido à grande amplitude de argumentos. E logo no primeiro dia essa dilatação de tempo se mostrou necessária. Os argumentos dos advogados dos atingidos foram sistematicamente submetidos a exames, reexames e sua validade esgarçada sob simulações de passos futuros e choqes com as legislações brasileira e do Reino Unido em caso de progressão da ação.
Sobre a questão de que não se trata de abuso e nem de sobreposição de ações brasileiras e inglesas, os advogados do PGMBM lembraram que a maior causa coletiva - a Ação Civil Pública do Ministério Público Federal (MPF) de R$ 155 bilhões -, está parada. Lembrou, também, que prefeituras, como a de Mariana, que pode receber mais de R$ 1 bilhão em indenizações, não participam de ações em curso no Brasil, como milhares de clientes que veem apenas no processo do Reino Unido uma chance de justiça.
O trio de juízes chegou a alegar que essa pessoas e entidades poderiam entrar na justiça a qualquer tempo. Mas os advogados salientaram que o tribunal não pode trabalhar com possibilidades e que há remédios específicos para lidar com aqueles que, nesse caso, cometerem algum abuso. A BHP Billiton informa que os casos já são tratados no Brasil e que duplicariam demandas que já estão em curso, informando que mais de R$ 30 bilhões em reparação e auxílios emergenciais já foram pagos desde 2015.
Cortes em Londres
As disputas da Corte eram intensas. Mas a dos indígenas, do lado de fora, não são menos duras. O grosso agasalho umedecido pela chuva e fechado até o pescoço mostrava como a manhã chuvosa londrina castigava o vice-pajé Tum Krenak, de 39 anos, que chegou cedo com outros quatro indígenas do Rio Doce até a porta das Cortes de Londres. Mas a mesma vestimenta simbolizava determinação ao ostentar adereços rituais de penas sobre os ombros desse que é um dos líderes da aldeia Atorã, de Resplendor, o Vale do Rio Doce.
"A gente está atrás de justiça. Morreu o espírito do povo Krenak. O rio, que chamamos de Watu, era onde batizávamos nossos meninos. Era onde fazíamos os nossos rituais. Hoje, não podemos mais fazer nada devido a esse crime. O rio está morto. Ele é da nossa religião e tem alguns costumes que para a gente acabaram, como o da caça da capivara, a pesca, os remédios do rio e as nossas religiões."
Para os indígenas, a injustiça que considera ser alvo o Brasil faz com que a esperança desse povo repouse sobre os tribunais do Reino Unido. “Até hoje, não tivemos compensação. Espero que a justiça venha em relação a isso. Não tem preço que pague essa devastação, porque foi destruidor demais, grande demais, não tem jeito de recuperar mais a morte do nosso rio. Temos a nossa luta agora, porque temos a próxima geração de crianças. Queremos ter um futuro melhor para as nossas crianças, com educação, qualidade de vida e uma esperança de manter nossas tradições”, disse Tum Krenak.