Publicidade

Estado de Minas Bolívia

Esquerda de volta ao poder

Opositores reconhecem derrota. Ex-ministro de Evo Morales, o economista Luis Arce vai assumir o país dividido e em crise econômica. Ex-presidente comemora e fala em retorno


20/10/2020 04:00

Presidente eleito Luis Arce (C), segundo pesquisas, com o vice Choquehuanca (D), teve mais de 52% dos votos, contra 31% do centrista Carlos Mesa (foto: Ronaldo Schemidt/AFP)
Presidente eleito Luis Arce (C), segundo pesquisas, com o vice Choquehuanca (D), teve mais de 52% dos votos, contra 31% do centrista Carlos Mesa (foto: Ronaldo Schemidt/AFP)
O esquerdista Luis Arce, idealizador do milagre econômico do governo de Evo Morales, assumirá o governo de uma Bolívia polarizada e em crise econômica, após uma vitória contundente nas urnas no domingo, de acordo com as projeções de dois institutos privados. Apesar da ausência de resultados oficiais significativos, com o avanço lento da apuração dos votos, Arce e Morales proclamaram vitória na noite da eleição, o que foi reconhecido pela presidente interina de direita, Jeanine Áñez, que sucedeu ao primeiro presidente indígena da Bolívia quando ele renunciou, há 11 meses, durante uma convulsão social.

O candidato centrista Carlos Mesa, segundo na votação, reconheceu ontem a vitória “contundente” de Arce por maioria absoluta e cerca de 20 pontos de vantagem, com a qual o apoiador de Morales vence a presidência no primeiro turno, segundo as projeções. “Cabe a nós, assim como convém àqueles que acreditam na democracia, reconhecer que houve um vencedor nesta eleição”, disse Mesa, que foi presidente da Bolívia entre 2003 e 2005. “A Bolívia recuperou a democracia. Quero afirmar, sobretudo aos bolivianos, recuperamos as esperanças”, disse Arce, chamado por seus seguidores de 'Lucho' em uma entrevista coletiva ao lado de seu vice-presidente, David Choquehuanca, que foi chanceler de Morales (2006-2019).

Em seu exílio em Buenos Aires, Morales expressou ontem que “cedo ou tarde” voltará à Bolívia, o país com a maior proporção de população indígena da América Latina (41%). “O meu maior desejo é voltar à Bolívia e entrar em minha região. É questão de tempo”, afirmou Morales, que tem ordem de prisão pendente na Bolívia por suposto “terrorismo”.

Enquanto isso, o ex-presidente conservador Jorge Quiroga – que, como a presidente interina, Jeanine Añez, retirou sua candidatura a alguns dias da eleição para facilitar uma frente anti-Morales –, escreveu no Twitter: “Duro amanhecer para os que lutamos por 15 anos” contra o ex-presidente do Movimento ao Socialismo (MAS).

No entanto, para José Carlos Quispe, um trabalhador de 52 anos, “esses 10 meses (de governo de Añez) mostraram ao povo que a direita é inoperante, inútil para governar”. “O povo decidiu, a voz do povo é a voz de Deus, não?”, questionou Quispe.

Arce recebeu as felicitações de Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), entidade cujo relatório sobre as eleições de 2019 estimulou protestos que levaram à renúncia de Morales, após uma polêmica nova reeleição. “O povo da Bolívia se expressou nas urnas. Parabenizamos Luis Arce e (o futuro vice-presidente) David Choquehuanca, desejando sucesso em seus trabalhos futuros”, disse Almagro no Twitter.

Jeanine Añez, grande inimiga do MAS, partido de Morales, admitiu rapidamente a vitória de Arce. “Ainda não temos o cômputo oficial, mas pelos dados que recebemos o Sr. Arce e o Sr. Choquehuanca venceram a eleição. Felicito os vencedores e peço que governem pensando na Bolívia e na democracia”, escreveu no Twitter.

Pesquisas


De acordo com o canal de televisão Unitel, Arce venceu no primeiro turno da eleição presidencial com 52,4% dos votos, contra 31,5% de Mesa. A fundação Jubileo aponta Arce com 53% dos votos e Mesa com 30,8%. As duas pesquisas acabaram com o clima de incerteza que imperava no país sete horas após o fim da votação, sem que as autoridades eleitorais anunciassem os resultados preliminares.

Arce e Mesa eram os candidatos favoritos para a eleição, que ocorreram de maneira tranquila, apesar dos temores de repetição dos incidentes registrados após a votação de outubro de 2019, anulada por denúncias de fraude e que terminou com a renúncia de Evo Morales. As autoridades eleitorais decidiram suprimir nesta eleição a apuração rápida, baseada na transmissão das atas dos colégios eleitorais por foto.

Tecnocrata


Economista de 57 anos, Arce estudou na estatal Universidade Maior de San Andrés, em La Paz, e fez mestrado na universidade britânica de Warwick. Trabalhou por 18 anos no Banco Central, onde ocupou diversos cargos e foi ministro da Economia e Finanças por quase todo o período de governo de Morales, com uma pausa de 18 meses. Tem um perfil mais tecnocrata que político.

Durante a presidência de Morales, a Bolívia elevou o Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 9,5 bilhões anuais a US$ 40,8 bilhões e reduziu a pobreza de 60% a 37%, de acordo com dados oficiais. Isto permitiu o pagamento de gratificações a milhares de gestantes, estudantes e idosos, assim como investimentos milionários para tentar industrializar a exploração do lítio e do gás natural.

Arce “era um grande ministro. Agora sendo presidente, a economia estará muito bem. Teremos cinco anos de riqueza”, declarou à AFP a estudante Ada Mary Medrano, de 18 anos. 

Quase 7,3 milhões de eleitores estavam registrados para votar e o dia transcorreu com tranquilidade, apesar das tensões da campanha. Os bolivianos também renovaram as 166 cadeiras do Congresso bicameral.



receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade