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Estado de Minas

Moradores de Paraisópolis denunciam que abuso policial é rotina no local


postado em 02/12/2019 19:37

Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, respirava medo e indignação nesta segunda-feira (2), um dia depois da morte de nove pessoas pisoteadas durante uma ação policial. Apesar da comoção, os moradores da localidade afirmam que é comum o abuso da força nas ações da polícia na comunidade.

"Os policiais cometem abusos todo fim de semana", disse uma jovem de 18 anos que mora na rua principal da favela, na Zona Sul da capital paulista. Por medo de represálias, a maioria prefere não dar seu nome.

Foi nessa rua, Ernest Renan, onde as nove vítimas foram pisoteadas na manhã de domingo, quando vários policiais entraram em um baile ao ar livre. A versão oficial é que os policiais perseguiam dois homens em uma moto que fizeram disparos contra os agentes de segurança, mas os moradores têm uma história diferente.

"Todo o fim de semana acontece a mesma coisa. É só começar o baile funk e a polícia chega para botar as pessoas para correr. Aqui ouvimos os gritos, os jovens ficam desesperados, tentam fugir, aqui se escondem até cem", disse outro morador, de 42 anos, apontando para um beco estreito onde os policiais encurralaram e bateram nas pessoas que foram ao evento, de acordo com vídeos divulgados nas redes sociais.

Com cerca de 100 mil moradores, Paraisópolis tem uma rua principal movimentada e cheia de lojas comerciais. As construções, muitas em tijolo aparente, surgem a cada dia de maneira desorganizada. A maioria não possui serviços básicos e emaranhados de fios ficam pendurados entre os postes. Nenhum táxi de fora entra na comunidade.

Na entrada da favela é realizado de quinta a sábado o "Baile da 17", um evento que começou há cerca de dez anos em frente a um bar com este número e que atualmente atrai frequentadores de outras cidades. Entre as vítimas fatais da tragédia da manhã de domingo, todas com idades entre 14 e 23 anos, não havia nenhum morador da comunidade.

O baile, apesar de atrair uma multidão, não agrada a todos os habitantes de Paraisópolis. "Teve gente aqui que se mudou por causa disso, o barulho é insuportável, não deixa você dormir", disse um morador de 42 anos.

Glória Maria, de 20 anos, pensa diferente. Para ela, promotora cultural da comunidade, o baile é uma forma barata de lazer.

- Estigmatização e racismo -

A favor ou contra, quem vive na região concorda que a polícia age de forma estigmatizante e racista.

Gabriela Santana, de 21 anos, reconhece que no 'Baile da 17' há drogas e sexo, "assim como nas festas dos ricos. A diferença é que o funk é estigmatizado, é visto com preconceito", afirma.

"Na Praça Pôr do Sol, na Vila Madalena, todo mundo fuma maconha para assistir o pôr do sol. E a polícia chega com bombas lá?! O problema é que somos negros e pobres ", diz Lions Pacs, um rapper de 23 anos que cumpriu dois anos de prisão e diz que tem tanto medo da polícia que em dias como domingo ele não ousa olhar pela janela.

Em Paraisópolis, que fica ao lado do bairro nobre do Morumbi, há um campo de futebol e um parque fechado. O cinema mais próximo fica a meia hora de ônibus.

"Nunca fui ao baile", diz uma jovem de 23 anos. "Não gosto, mas se a polícia quisesse acabar com o baile, chegaria mais cedo. Mas eles (os policiais) gostam de chegar tarde porque gostam de bater nos pobres e favelados", acrescenta.

"A polícia sempre começa com bombas, depois joga gás lacrimogêneo, que dá para sentir dentro de casa porque a garganta começa a queimar. Depois, dá para ouvir os gritos das pessoas pedindo ajuda", acrescenta uma outra jovem, de 18 anos, que mostra um vídeo no celular em que é possível ver os policiais batendo com cassetete em um grupo de pessoas encurraladas em um beco.

O Comando da Polícia Militar disse que vai investigar a ação para determinar se houve excessos. "Luto" estava escrito em letras brancas na rua onde ocorreu a tragédia e onde, na próxima quinta-feira, as duas jovens acreditam, "tudo vai acontecer novamente".


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