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Estado de Minas

Águias Negras, a grupo sem rosto que aterroriza a Colômbia


postado em 23/08/2019 10:55

Yovana Sáenz ficou gelada quando leu a mensagem em seu celular. Agora era alvo das Águias Negras, a tenebrosa "marca" por trás da qual talvez se escondam narcotraficantes, paramilitares ou agentes do estado com o objetivo de aterrorizar a Colômbia.

"Vocês não são mulheres que se deixam amedrontar facilmente, por isso o único caminho que resta é a morte".

A mensagem foi enviada por WhatsApp em 20 de agosto para seis pessoas, mas em Yovana causou maior terror.

Há dez anos, dois homens armados a estupraram em Cazucá, um municipio vizinho de Bogotá, onde ela morava.

"Você vale menos que uma bala", disseram a ele.

Yovana sofreu na própria pele a defesa que fazia das mulheres vítimas do conflito armado, assim como outras líderes de seu grupo, também agredidas.

Ela ainda chora ao lembrar daquele pesadelo.

"Cada vez que chega uma ameaça, fico doente. 'Me dá pânico de que vá acontecer algo comigo ou com meus filhos por um trabalho que fiz para defender os direitos humanos", explica Sáenz, de 44 anos, que recebeu a AFP no centro de Bogotá, longe de casa, por uma questão de segurança.

Por trás de seus temores estão as Águias Negras, a organização clandestina e antiguerrilheira que estava oficialmente extinta, mas que reviveu como uma fênix: um águia de asas negras, cabeça e rabo brancos, com as patas segurando fuzis.

"Não há uma única prisão, nem foto ou acampamento. Trata-se do símbolo de algo que existiu e que continua sendo utilizado para ameaçar com distintos propósitos", afirma Camilo González Posso, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz.

- Ciclo de violência -

O sinistro nome foi ouvido pela primeira vez no início do século no nordeste do país, perto da fronteira com a Venezuela. Sob esse termo, cerca de 800 paramilitares foram agrupados, de acordo com a Comissão Nacional de Reparação e Reconciliação.

Logo após a desmobilização das milícias de extrema direita (cerca de 30 mil homens em todo o território), o símbolo caiu em relativo esquecimento até pouco depois da assinatura da paz com as poderosas FARC em 2016.

Então, um novo ciclo de violência eclodiu, com assassinatos seletivos, ameaças e exílios, nas áreas deixadas pelos rebeldes marxistas que não foram rapidamente ocupadas pelo Estado, onde o tráfico de drogas persiste.

Agindo especialmente através da intimidação, o nome Águias Negras espalhou onda de terror por lugares tão distantes como a cidade de Cali no sudoeste, Soacha no centro ou Aguachica em o nordeste, entre 2016 e 2017, de acordo com a Fundação Ideias para a Paz.

Os panfletos com ultimatos que levam essa marca visam a adversários como o ex-candidato à presidência Gustavo Petro, ativistas de direitos humanos e indígenas que promovem acordos de paz e defendem seus territórios.

A questão se transformou em uma "prioridade" para as autoridades por causa da "ansiedade e do desconforto" que gera, diz o coronel José Restrepo, da força policial de elite que investiga ameaças a ativistas.

Mas o órgão especializado da promotoria, criado há cerca de um ano para essa questão, ainda não conseguiu determinar o que são as Águias Negras.

- Fachada -

Policiais e analistas concordam que pode ser uma fachada por trás da qual políticos, remanescentes de paramilitares e até indivíduos comuns se escondem para intimidar a população.

As ameaças apontam para "setores da oposição, organizações sociais (e) movimentos de protesto", nunca para "setores de ultra direita", o que explica por que suas vítimas atribuem a um elemento político, diz o analista González Posso.

A impunidade alimenta esse fenômeno, afirma a pesquisadora da ONG Somos Defensores, Leonardo Díaz.

E apesar de não ter havido relatos oficiais de recentes capturas ou assassinatos de Águilas Negras, a Ouvidoria (ombudsman) chamou a atenção para um grupo que opera com esse nome em bairros no sudoeste de Bogotá, onde líderes sociais deslocados pelo conflito coexistem com ex-membros de grupos armados.

Desde 2017, Yovana Sáenz, moradora dessa área, recebeu quatro ameaças com essa marca.

O medo a acompanha toda vez que ela recebe uma mensagem e tem que usar transporte público - por falta de dinheiro para pagar por um táxi ou um veículo particular - o caminho de volta para casa, acompanhado por uma escolta designada pelo Estado.

"Se vão nos matar, que nos matem de frente, não dessa forma", conclui ela, visivelmente esgotada.


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