Publicidade

Estado de Minas

Em Singapura, Trump passará por teste de fogo


postado em 08/06/2018 11:30

Donald Trump é, como não cansa de repetir, um negociador excepcional? Após 500 dias à frente da maior potência do mundo, poucos elementos concretos confirmam essa teoria.

A cúpula com Kim Jong-un, na terça-feira (12), em Singapura, será uma oportunidade única para causar uma boa impressão. Mas a aposta é arriscada: um fracasso reforçaria a sensação de que o provocador bilionário não tem a disciplina nem o cacife para realizar discussões internacionais de alto nível.

Na política externa, o presidente americano diz não se importar com detalhes ("o importante é o estado de espírito"), defende sua falta de experiência diplomática como um mérito, impõe e desfaz ultimatos e envia, com tuítes irritados, sinais frequentemente contraditórios.

A Casa Branca insiste em que ele "restaurou a credibilidade do discurso da América no cenário internacional", mas uma sensação de desconforto domina, e as tensões com os aliados, em meio ao G7 no Canadá, se multiplicam.

De fato, desde que chegou ao poder, o empresário de 71 anos desmembrou o legado de seus predecessores mais do que construiu novas alianças, ou esboçou novas arquiteturas.

Acordo Climático de Paris, Acordo de Viena sobre o programa nuclear do Irã, Acordo de Livre-Comércio Trans-Pacífico (TPP): o 45º presidente da história americana fechou várias vezes a porta ao mundo, em nome de seu lema "América em primeiro lugar".

Logo depois de se estabelecer na Pennsylvania Avenue, assegurou que alcançar um acordo de paz entre Israel e os palestinos "talvez não seja tão difícil quanto as pessoas pensam". Um ano depois, a perspectiva de um acordo nunca pareceu tão distante.

O impasse comercial com a China até agora não produziu os resultados esperados, e muitos republicanos estão preocupados com as consequências econômicas - e eleitorais - desta cruzada.

"A 'América Primeiro' é, como previsto, a América sozinha", resume o presidente do Council on Foreign Relations, Richard Haass.

"Nada indica que Trump e sua equipe tenham ideia do que consiste a 'arte do deal' (título do best-seller de Trump) para o que diz respeito à diplomacia internacional", ressalta no periódico "Foreign Policy" Ilan Goldenberg, diplomata no governo de Barack Obama.

- Exceção norte-coreana? -

A questão norte-coreana será a exceção que permitirá a Donald Trump conquistar sua reputação no cenário internacional, ou, como acreditam alguns de seus colegas, ganhar um Prêmio Nobel da Paz?

Terça-feira, em um hotel de luxo em Singapura, ele se prepara para tentar algo que nenhum presidente americano em exercício conseguiu: negociar ao vivo com um herdeiro da dinastia Kim uma possível desnuclearização do regime recluso.

Algo até então impensável aconteceu em 8 de março. Depois de uma reunião com Donald Trump no Salão Oval, Chung Eui-yong, conselheiro nacional sul-coreano para a Segurança, foi à Casa Branca anunciar que Kim Jong-un estava disposto a encontrar o presidente dos Estados Unidos.

A informação, que vazou, foi uma meia surpresa. O que, de fato, deixou todos de boca aberta foi Trump aceitar a ideia!

Três meses depois, enquanto repórteres de todo o mundo reservavam suas passagens para Singapura, Trump enviou uma carta a Kim anunciando que a cúpula não aconteceria por causa da "visível hostilidade" de Pyongyang.

No dia seguinte, ao amanhecer, enquanto a tinta das incontáveis análises das razões do enorme "fiasco" ainda não estava seca, ele ressuscitou com um tuíte a possibilidade do encontro.

- "Novo pragmatismo" -

Seus críticos afirmam que ele foi muito menos exigente do que seus antecessores antes de se sentar à mesa com Kim Jong-un. E apontam, com razão, que o presidente americano não pode atribuir a si mesmo todo o crédito pela distensão diplomática espetacular em andamento na península.

Ainda assim, o mundo inteiro aguarda com atenção este inimaginável tête-à-tête há um ano. E que os "anti-Trump" estão divididos - às vezes desconfortáveis - quanto à atitude a ser adotada diante de sua abordagem iconoclasta de um assunto tão espinhoso.

Em uma coluna publicada no "New York Times", Nicholas Kristof, lamentou que alguns democratas passem mais tempo prevendo o fracasso de Trump ao invés de apoiar um processo certamente embrionário, mas promissor.

"É verdade, há muitas razões para se preocupar (...) e tudo ainda pode desmoronar", escreveu ele. Mas - acrescentou - o "novo pragmatismo" do presidente americano é "infinitamente preferível" à ameaça de uma guerra nuclear.

"Nós todos devemos nos alegrar que Trump está finalmente se envolvendo em uma espécie de abordagem diplomática que ele uma vez denunciou", completou.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade