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Estado de Minas SISMOS EM SETE LAGOAS

Entenda por que cidades mineiras estão sujeitas a abalos

Não há risco de terremotos, mas falhas geológicas e ação humana expõem Minas a tremores como os de Sete Lagoas e exigem atenção, diz especialista


05/06/2022 04:00 - atualizado 06/06/2022 18:24

Minas Gerais tem muitas falhas geológicas e atividades humanas que tornam o estado sujeito a abalos sísmicos, mas não sofre a ação direta de placas tectônicas, o que afasta o risco de terremotos e de grandes prejuízos humanos ou à infraestrutura. A afirmação é do professor Humberto Reis, do Programa de Pós-graduação em Evolução Crustal e Recursos Naturais da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), ao comentar fenômenos como os que vêm preocupando a população de Sete Lagoas, na Região Central de Minas. O especialista, que também é pesquisador sênior em geologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça que os tremores registrados na cidade tem em sua origem os efeitos da intervenção urbana.


“Assim como outras partes do país, a crosta terrestre no estado está sujeita a pressões tectônicas (geológicas) que, eventualmente, podem causar a acomodação de falhas geológicas e desencadear tremores como os que foram registrados em diversas regiões no estado. Como estamos distantes dos limites de placas tectônicas, estes eventos tendem a ser de baixa magnitude. Sabe-se, entretanto, que determinados tipos de intervenção humana como a construção de grandes barragens podem causar os chamados tremores induzidos, uma vez que alteram as condições de equilíbrio da crosta na localidade em que são feitas. Para que causem sismos induzidos, entretanto, tais intervenções tem que ser de grande porte”, diz.



Segundo ele, o fenômeno em Sete Lagoas não está relacionado à extração excessiva de água do subsolo. “A região tem o que é chamado de 'aquífero cárstico', ou seja, a água ocupa pequenas cavidades no terreno. Com a retirada dessa água para abastecer a cidade, o terreno sofre acomodações na ausência do líquido, que está diminuindo. Não é possível afirmar que os fenômenos recentes estão relacionados à extração excessiva de água, pois não foram feitos estudos específicos dessa natureza pra chegar a tal conclusão. Entretanto, há uma discussão aberta se a extração excessiva de água na região pode ter alguma relação com os eventos”, afirma.


 O professor afirma que seria necessário haver um estudo específico sobre a sustentabilidade e a necessidade de reequilíbrio para o uso dessa água, “o que não foi feito”.


Quanto às falhas geológicas de Minas Gerais, também associadas a abalos, o especialista explica que são antigas, de mais de 500 milhões de anos, e que a maioria delas não está ativa. “Mas é bom lembrar que falhas antigas podem ser reativadas, e não se pode precisar isso, pois a natureza age por conta própria. É impossível de se prever”, pondera. Ainda assim, os eventos do tipo em Minas Gerais são considerados de baixo risco.


Não se pode afirmar que os tremores registrados em Sete Lagoa tem sua origem nos efeitos da intervenção humana, segundo ele. “Pelo contrário, tremores naturais de baixa magnitude em Minas Gerais são comuns e concluir que um evento como o de Sete Lagoas foi causado pela intervenção humana exigiria estudos específicos, o que não temos até o momento”.


O Brasil, explica, não está em área considerada suscetível a terremotos. “Não estamos no limite das placas tectônicas, que existem na região do Oceano Pacífico, da Cadeia Andina, Himalaia, Japão. O Brasil é considerado um paraíso, nesse sentido, por não ter experimentado grandes sismos e também não existe essa perspectiva. Mas isso não quer dizer que isso não possa acontecer.”


Mas há outras atividades humanas, como a extração mineral que ocorre no Quadrilátero Ferrífero, na porção centro-sul de Minas Gerais, abrangendo a Grande BH, e a construção de grandes barragens, além da exploração de água, que também podem estar associadas a ocorrências desse tipo. “Com certeza, quando se mexe na terra, esta reage.


Nos casos dos abalos registrados em Sete Lagoas, segundo ele, o primeiro, em 20 de maio, registrou 2,6 graus na escala Richter. O segundo, no dia 30 do mesmo mês, marcou 2,5. São limites considerados baixos, longe de ser considerado uma possibilidade de terremoto, que envolveria tremor acima de 6 graus.



A TERRA TREME

Saiba mais sobre os abalos sísmicos em MG

» Recorde e morte
O maior abalo sísmico registrado em Minas Gerais ocorreu em 9 de dezembro de 2007, em Caraíbas, distrito de Itacarambi, no Norte mineiro. Foi quando ocorreu a primeira morte em função de um sismo em Minas Gerais. A vítima foi uma menina de 5 anos. O tremor marcou 4,9 graus na escala Richter. Cinco construções consideradas precárias desabaram e seis pessoas ficaram feridas. O total de desabrigados chegou a 300 pessoas.

» No Brasil
No país, a primeira morte associada a um sismo aconteceu em 27 de janeiro de 1922. O tremor foi de 5,1 graus na escala Richter e ocorreu na cidade paulista de Mogi das Cruzes.

» Século 19
Somente a partir de 1º de janeiro de 1824 ocorreu o primeiro registro de sismo no Brasil, e ele aconteceu em uma cidade mineira: Caxambu, no Sul de Minas. Estima-se que o tremor tenha sido de 3,2 graus na escala Richter.

» Centenas
Desde 1824, até os dias atuais, foram registrados mais de 800 tremores de terra em Minas Gerais

» Locais suscetíveis
Em Minas Gerais, os tremores acontecem em pontos específicos. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte e entorno, ocorrem em Sete Lagoas, Nova Lima, Pedro Leopoldo, São José da Lapa e Capim Branco. Na Região Norte do estado, em Montes Claros, Itacarambi e Capitão Enéas. No Centro-Oeste, em Divinópolis e Carmo do Cajuru. No Vale do Aço, em Santo Antônio do Jacinto e Santa Bárbara.


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