Clarisse Souza
Uma equipe da Polícia Civil voltou ontem à Rua Juca Flávio, no Bairro Inconfidentes, em Contagem, na Grande BH, para recolher provas que possam ajudar a identificar o homem que matou o menino João Pedro Avelar Cotta, de 2 anos, baleado na cabeça durante uma tentativa de assalto no fim da tarde de sábado. Depoimentos de familiares, relatos de testemunhas e um vídeo gravado por câmeras de segurança de uma empresa vão compor o inquérito. Mas, segundo um policial da 4ª Delegacia de Polícia Civil de Contagem, a corporação não chegou nem mesmo a uma conclusão sobre a idade aproximada do assassino. Ele revelou que a demora da perícia na casa e no veículo da família também podem atrasar a conclusão do caso.
Depois das primeiras informações, que apontavam como autor do crime um homem negro, magro e com cerca de 25 anos, novos depoimentos levam a polícia a trabalhar com a possibilidade de que o assassino seja um adolescente. A polícia espera que o pai da vítima, o engenheiro Sandro Magno Cotta, de 47 anos, baleado enquanto tentava proteger o filho, possa analisar, depois de alta hospitalar, fotos de suspeitos com características semelhantes às do criminoso.
MANOBRA Uma das evidências mais importantes do inquérito foi recolhida em um estabelecimento comercial, que fica a poucos metros da casa em que o menino foi morto. Duas câmeras de vigilância registraram toda a ação, que durou pouco mais de um minuto. As imagens mostram que, às 17h30 de sábado, Sandro chegou à rua, na altura do número 235A, e desceu de um Doblô com João Pedro no colo. Ele entrou na garagem e, pouco depois, Sandro e a mulher realizam uma manobra para trocar as posições de dois carros – um Fiat e um Honda City. Enquanto recolocavam os veículos no lugar, o assaltante aproveita para invadir a casa.
O objetivo do criminoso era levar o veículo Honda City, mas, segundo os policiais que investigam o caso, a mãe da criança contou que, devido ao nervosismo, Sandro acabou entregando a chave do veículo da Fiat. Irritado ao perceber a troca, o assaltante atirou no dono do veículo, mas acabou atingindo também a criança, que estava no colo do pai.
A filmagem mostra que, depois de ser baleado, Sandro ainda saiu correndo atrás do assaltante. Mas quando o alcançou, foi baleado outra vez. Machucado, ele recuou e voltou para a garagem. Depois de se desvencilhar das mãos de Sandro, o rapaz moreno, que vestia uma camisa do Atlético Mineiro e uma bermuda, subiu a Rua Juca Flávio correndo com a arma na mão sem levar nada. Um Fiat Palio de cor escura aparece nas filmagens descendo a rua antes da tentativa de assalto e voltando logo depois do crime, seguindo na mesma direção do atirador. O empresário João Henrique Gomes, responsável pela instalação das câmeras de segurança, conta que o veículo chamou a atenção dos policiais devido à possibilidade da existência de um cúmplice.
MENOR A delegada regional de Contagem, Ana Maria Santos, afirma que uma equipe vai tentar melhorar as imagens das câmeras de segurança para chegar ao rosto do assassino. A possibilidade de que o autor tenha menos de 18 anos também está sendo apurada depois que as testemunhas descreveram as características físicas dele, segundo contou um dos investigadores da equipe que acompanha o caso.
Vizinhança em pânico
Ainda sem entender direito os motivos da violência que levaram à morte do pequeno João Pedro, a aposentada Maristela Barbora de Oliveira, de 72 anos, subia cabisbaixa a Rua Juca Flávio no fim da manhã de ontem para visitar a mãe da criança. Moradora do Bairro Amazonas, vizinho ao Inconfidentes, Maristela conhece a família há anos e se emociona ao falar do crime que chocou a região. “Vi essa família crescer. São pessoas maravilhosas, gente batalhadora. Não entendo como alguém pode ser capaz de matar uma criança desse jeito”, lamenta a mulher.
Amiga da avó materna do menino assassinado, ela conta que o engenheiro Sandro e a mulher sempre viveram na Rua Japurá, no Bairro Amazonas, e mudaram há pouco tempo para uma casa de dois andares no Inconfidentes, na esquina com a Rua José Gonçalves. “Eles trabalhavam muito e tinham conseguido melhorar a vida financeira. Por isso se mudaram para cá”, diz Maristela. Inconformada com o fim trágico do assalto, ela revela que está assustada. “Ninguém espera isso perto da sua casa, com as pessoas que você conhece. É muito triste.”
O empresário João Henrique Gomes, que cedeu as imagens da câmera à polícia, afirma que instalou o equipamento há vários anos, mas nunca havia registrado nenhum crime. “É uma questão de segurança, mas é a primeira vez que foram realmente necessárias”, diz. Ele explica que só soube do assassinato na noite de sábado, depois que os investigadores da Polícia Civil ligaram solicitando as filmagens. “A gente se assusta ao ver esse tipo de coisa ao lado da gente. E o medo é de que ele não seja capturado e volte para cometer outros crimes ”, teme.


