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Estado de Minas

Família retira tesouro mineiro de velhas malas

Documentos guardados em um apartamento em Brasília revelam detalhes do Brasil colônia, especialmente de Minas, a partir da chegada da família Lobo Leite ao país. Uma herdeira e uma antropóloga estão debruçadas sobre o material e começam a identificar fotos, cartas e mapas


postado em 15/07/2012 07:09 / atualizado em 15/07/2012 07:42

 

 Documentos analisados em Brasília pela herdeira Iara Lobo incluem mapas para construção de estradas de ferro e da topografia de cidades, serras e fazendas da região de Ouro Preto(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Documentos analisados em Brasília pela herdeira Iara Lobo incluem mapas para construção de estradas de ferro e da topografia de cidades, serras e fazendas da região de Ouro Preto (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)

 

Brasília – Por três décadas, documentos centenários que contam parte da história de Minas Gerais e do país estão guardados em um apartamento do Bloco F da 311 Sul, na capital federal. Alguns desses papéis vêm sendo preservados há séculos por integrantes de uma família com origem em Portugal e detentora de títulos do império, que veio para o Brasil na época das sesmarias, se mudou para o interior mineiro no auge do Ciclo do Ouro e acabou se estabelecendo, em sua maioria, no Distrito Federal. O mistério em torno desse tesouro começa a ser desvendado por uma das herdeiras, com a ajuda de uma antropóloga da Universidade de Brasília. Elas pesquisam milhares de páginas e fotografias, amareladas pelo tempo.

Ambas decidiram, há um mês, abrir as duas malas de couro nas quais estavam o acervo. Desde então, marcam encontros semanais para identificar o conteúdo — também entraram em contato com o Arquivo Histórico de Minas Gerais e o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, para uma possível restauração e guarda dos documentos. Há dezenas de autorizações emitidas pelo Reino de Portugal para exploração de fazendas e jazidas em Minas; mapas feitos a mão para a construção de estradas de ferro e da topografia de cidades, serras e fazendas da região de Ouro Preto; cartas pessoais; todo  tipo de registros cartorários; e retratos em preto e branco.

O mais antigo documento identificado até agora data de 1793 e partiu da Corte portuguesa. Existe ainda uma carta de sesmaria assinada por dom. Manoel de Portugal, de 1821, e fotos feitas em Paris, em 1891. Os retratos mostram integrantes da família Lobo Leite, dona de tal acervo. Por muito tempo, ela foi a mais influente de Congonhas, na Região Central de Minas.  Tanto que dá nome a um povoado afastado do Centro da cidade, próximo ao município de Ouro Branco. O distrito tem o segundo maior e mais importante conjunto arquitetônico da cidade. O primeiro é o do Centro Histórico de Congonhas, onde, entre outros, ficam os profetas de Aleijadinho.

Lobo Leite também denomina a estação ferroviária de Congonhas. E dos representantes mais ilustres da família está o engenheiro Francisco Lobo Leite Pereira (1843-1920), chefe do prolongamento das Estradas de Ferro Central do Brasil. A maioria dos documentos guardados no apartamento em Brasília pertencia a ele, que instruiu os filhos a preservarem os papéis e, assim, criou-se uma tradição. A família doou grande parte dos arquivos ao Arquivo Nacional, em 1947. Outro tanto se perdeu com o abandono do casarão da família Lobo Leite. Construído no século 19, no povoado de Lobo Leite, o imóvel sofreu até um incêndio. Doado ao poder público, é restaurado pela prefeitura.

Olhar sobre uma época Para a antropóloga Verônica Lins de Oliveira Maia, os documentos conservados pelos Lobo Leite descrevem um período da história do Brasil. "Remontam a uma história comprida, rica, além dos valores de uma época, como a participação das mulheres e dos escravos na sociedade", observa. Entre outras descobertas, ela identificou comprovações sobre um dos Lobo Leite investigado pela Corte portuguesa por supostamente integrar o movimento da Inconfidência Mineira, que custou a cabeça de Tiradentes. "Ele acabou absolvido por falta de provas. Salvou o pescoço", conta.

Outro personagem que ela destaca é o médico Álvaro Lobo Leite Pereira. "Ele integrou a equipe do Instituto Osvaldo Cruz que mostrou a necessidade do iodo no sal", diz a antropóloga. Verônica Maia deu início a esse trabalho a convite da amiga e advogada Iara Lobo de Figueiredo, de 44 anos. "Minha mãe sempre dizia para guardar bem as malas, que ali havia muita coisa curiosa da história da nossa família e de Congonhas, mas que era para abri-las depois da morte dela", lembra.

Os Lobo Leite se mudaram para Brasília em 1976. Maria Alice Lobo Leite Burle, a tia que criou Iara como filha, morreu em 2008, aos 74 anos. Mas, no apartamento da família, ainda ficaram o marido, o médico Maurício Carvalho Burle, e um dos seis filhos dela, Lauro. Maurício morreu em dezembro último, aos 84 anos, e o filho, há pouco mais de um mês, com 54. "Meu irmão era o último guardião desses documentos. Achei que estava na hora de abrir essas malas", explica Iara Lobo.

Paciência e delicadeza Ela e a amiga Verônica Maia costumam se reunir às quartas-feiras no apartamento da 311 Sul, onde ninguém mais mora. O resgate que as duas fazem exige paciência e olhar clínico. A maioria dos papéis contém grafia e linguagem de difícil compreensão. Os papéis, além de amarelados, acumularam poeira. Muitos acabaram tendo parte destruída por traças. "Um documento de uma companhia inglesa que dizia respeito à construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II espatifou em minha mão. Por essas e outras, precisamos da ajuda de especialistas", pondera Iara.

(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
O apartamento em Brasília é um dos poucos bens em comum dos Lobo Leite, que, apesar das sesmarias, das jazidas de ferro e da pedra-sabão no interior de Minas, não acumulou fortuna. O maior legado da família foi o conhecimento, por meio de juristas, médicos, políticos e diplomatas. Tudo documentado, com parte doado ao Arquivo Nacional. Outro tanto está à espera do interesse e dos cuidados dos estudiosos, em duas malas de couro muito bem guardados em um agora desabitado imóvel da capital federal.

Memória

Expansão da agricultura


Portugal estabeleceu a Lei das Sesmarias em 1375, para ajudar no avanço da agricultura, que se encontrava abandonada em virtude das batalhas internas e da peste negra. Essa lei chegou ao Brasil, de forma adaptada, em 1536, quando o rei dom João III instituiu as capitanias hereditárias. Ele criou 14 distritos, partilhados em 15 lotes e repartidos entre 12 donatários, indivíduos que receberam as terras como doação do governo português e, em contrapartida, tornaram-se pessoas de confiança da realeza.Os donatários, no entanto, tinham que pagar impostos à monarquia. A partir da instituição das capitanias, foi inserido o sistema de sesmarias — pedaço de terra devolvido ou abandonado, prática comum durante o Brasil colônia. Cabia a esses donatários permitirem que os colonos cultivassem os nacos de terra e os tornassem novamente produtivos. Caso o proprietário não fertilizasse a terra para a produção e a semeasse, ela seria repassada a outro agricultor que tivesse interesse em cultivá-la.

Documentos do brasil
Fundado em 1838, o Arquivo Nacional é subordinado ao Ministério da Justiça e responsável pela gestão da produção documental da administração pública federal. Do acervo, a partir de 2007, conjuntos de documentos sobre a Inconfidência, a Lei Áurea, as Relações de Vapores (chegada de imigrantes) e o Fundo Agência Nacional, com filmes produzidos pelos serviços de comunicação do governo federal como o extinto Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), foram registrados como Memória do Mundo do Brasil.

Mudanças

A estação foi inaugurada em 1886 com o nome de Soledade, como se chamava o povoado. Mais tarde, passou a se chamar Congonhas, pelo fato de estar nesse município. O nome de Lobo Leite foi dado em 1907. Agora, está em restauro. Deverá ser entregue à comunidade até o fim do ano. Abrigará um telecentro e um salão destinado a artesãos.

Fim social

As ruínas da edificação foram doadas ao município pelos Lobo Leite para que sejam restauradas e ganhem um fim social. A obra começou em maio e o prazo para que a construtora entregue a obra termina em dezembro.

Esculturas
Também conhecida como esteatito, uma variedade de esteatita, a pedra-sabão é muito usada em Minas Gerais para esculturas e ornatos arquitetônicos. Também calçam muitas ruas estreitas das cidades históricas, como Ouro Preto. A resistência e a dureza podem ser comparadas às do mármore, com a vantagem de ser também refratária, suportando temperaturas elevadas.


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