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Estado de Minas

Projeto comercial gera polêmica no Bairro Prado, em BH

Projeto que cria polo de moda em bairro onde ainda resiste clima residencial preocupa moradores, racha associações e levanta debate sobre segurança na área que abriga uma das maiores unidades da PM em BH


postado em 16/02/2012 06:00 / atualizado em 16/02/2012 07:04

Rua Cura D`Ars é uma das que concentram confecções. No total, cerca de 220 empresas do ramo funcionam no bairro, que pode ter expansão do setor(foto: Cristina Horta/EM/D.a Press)
Rua Cura D`Ars é uma das que concentram confecções. No total, cerca de 220 empresas do ramo funcionam no bairro, que pode ter expansão do setor (foto: Cristina Horta/EM/D.a Press)


Um texto em tramitação na Câmara de Belo Horizonte divide a comunidade de um dos bairros mais tradicionais da capital, ameaça sua característica ainda predominantemente residencial e expõe uma preocupação curiosa para uma região que abriga uma grande unidade da Polícia Militar: a segurança. Se depender do Projeto de Lei 1.907/11, do vereador Leonardo Mattos (PV), o Prado, na Região Oeste, pode se transformar em um grande polo da moda. Pronta para seguir para plenário, a proposta já provoca racha entre associações de moradores e desperta discussões sobre os impactos no trânsito e na qualidade de vida do lugar, que abriga nada menos que 220 confecções e pode receber muito mais empresas, já que a intenção do autor da ideia é facilitar a concessão de alvarás.

Para isso, o projeto altera regras de parcelamento, ocupação e uso do solo e cria a Área de Diretrizes Especiais (ADE) Polo da Moda. Até entre comerciantes que aprovam a proposta, existe a preocupação com providências consideradas mais importantes, como reforçar o policiamento na região. Mesmo com a presença da Academia da Polícia Militar, da Cavalaria e do Centro de Recrutamento e Seleção da corporação, eles denunciam que assaltos são praticados a qualquer hora do dia. O bairro também ostenta um dos maiores índices de furto e roubo de carros da capital.

A bancária Ieda Duque, de 35 anos, considera que o bairro perdeu o clima de tranquilidade desde que foram abertas brechas para o comércio. “Tradicionalmente, sempre foi um bairro residencial, mas foram surgindo muitos bares, lojas e confecções, o que aumentou o número de pessoas estranhas e de ladrões circulando pelas ruas. O volume de carros também aumentou. Era um bairro de pessoas idosas. Agora, estão destruindo casas antigas para construir prédios. Temos muitos roubos de carro e a tendência é só aumentar”, lamenta ela, temendo que o bairro se transforme em extensão do vizinho Barro Preto, referência em moda e que ela considera caótico.

Para o bancário aposentado Antônio Gobbo, de 76, que mora há 42 anos na Rua Cuiabá, o bairro não tem infraestrutura para comércio. “Não comporta tanta circulação de carros ou de pessoas. As ruas são estreitas e faltam praças”, disse Gobbo. “Para piorar, transformaram algumas ruas do bairro em corredores com mão única”, reclama o aposentado. “Antigamente, o Prado era uma cidade do interior dentro de Belo Horizonte”, disse.

Negócios

Nas ruas Cura D’Ars e Pompeia funcionam várias confecções, a maioria com as portas trancadas para se defender de assaltos. Os clientes precisam chamar pelo interfone para ter acesso é liberado. A maioria dos estabelecimentos tem segurança física. Valéria Lara é gerente de uma confecção que está no bairro há 25 anos e diz ser favorável à criação de um polo comercial forte e competitivo, mas também reclama da insegurança. “O bairro já é um polo da moda, mas é preciso agregar valores e ser mais divulgado”, disse.

O prédio onde mora o comerciante Antônio Sérgio Silva, de 57, está cercado de confecções de alto nível. Para ele, a chegada de mais empresas significará mais dinheiro e pessoas circulando, o que atrairia mais ladrões. “Temos várias rotas de fuga, como as avenidas Amazonas e Silva Lobo e a Rua Platina. Temos o batalhão da PM, mas não resolve”, reclama ele, lembrando que dois apartamentos do seu prédio foram assaltados no ano passado e que segunda-feira o prédio da esquina também foi atacado.

O tenente-coronel Luiz José Francisco Filho, comandante do 22º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo bairro, diz que os índices de criminalidade na região estão em queda e que a comunidade conta inclusive com o reforço do projeto Academia do Cidadão, que aproxima a polícia da população. O capitão Cleverson Natal de Oliveira, chefe da Sala de Imprensa da PM, disse também estranhar as reclamações de lojistas. Ele lembrou que, além do policiamento de rotina, as unidades policiais do Prado levam a um aumento natural do tráfego de militares pela área. Natal destacou a importância de os comerciantes levarem suas queixas à corporação.

Comissão

O vereador Leonardo Mattos reconhece que seu projeto é polêmico. Mas argumenta que o Prado está perdendo exatamente porque há muitos pontos de comércio sem alvará. “Essas pessoas e seus empregados trabalham ilegalmente e é indispensável a intervenção do poder público. Alguns estabelecimentos ali instalados estão em desacordo com a Lei de Uso e Ocupação do Solo, como os instalados em ruas com menos de 10 metros ou os que têm acima de 300 metros quadrados de área”, disse. Em audiência pública em dezembro, o parlamentar garantiu que depois da criação da ADE, seria composta comissão reunindo confeccionistas, sindicatos do setor, representantes da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Prefeitura de Belo Horizonte, vereadores e comunidade para acompanhar a preservação do bem-estar da população.

Ponto crítico


criar um polo de moda beneficia o Prado?


Ricardo Cheid, presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Prado e Calafate (Amaprac)

SIM

“Sou a favor do projeto de lei, porque na prática o bairro já está virando polo da moda. Se está naturalmente adquirindo essa característica, temos mais é que incentivar. É preciso considerar que, como essas confecções são instaladas em casas antigas, é uma forma de preservar o patrimônio arquitetônico do bairro e barrar a verticalização. Acho que a proposta não vai interferir na qualidade de vida dos moradores.”

Guilherme Neves, presidente da Associação S.O.S. Bairros, que representa o Prado, Calafate, Gutierrez e Barroca

NÁO

“Sou totalmente contrário a esse projeto de lei, porque bairro de moradia é bairro de moradia. Estão tentando implantar o polo da moda e expulsar os moradores do Prado. A qualidade de vida do bairro já está ruim e vai piorar. Não podemos deixar que o comércio tome conta de tudo. Vamos fazer o que for preciso, nos termos legais – mobilização, denúncia ao Ministério Público – para impedir a aprovação desse projeto de lei.”

Das carroças ao avião

O Bairro Prado teve papel importante na criação de Belo Horizonte. Pela Rua Platina passavam carroças transportando material para a construção da nova capital mineira. Em 1909, foi inaugurado no bairro o primeiro hipódromo da cidade, o Prado Mineiro, pelo então prefeito Prado Lopes, de onde surgiu o nome do bairro. Mais tarde, o hipódromo deu lugar a um campo de futebol para disputas do Campeonato Mineiro, e também sediou o primeiro voo oficial de avião da cidade, em uma época na qual o aparelho era visto apenas pelas telas do cinema. Hoje, as ruas Platina, Turquesa, Turfa e Avenida Francisco Sá abrigam o maior centro comercial do bairro. No lugar do antigo hipódromo foi construída a Academia Militar de Minas Gerais. Hoje, as casas antigas estão dando lugar a prédios e são poucos os imóveis que preservam quintais com jardins.


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