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Estado de Minas

Conheça a poetisa americana que se apaixonou pelo barroco

Há 60 anos chegava a Ouro Preto a norte-americana Elizabeth Bishop, expressão literária do século 20 que manteve um caso de amor com a cidade por mais de 20 anos


postado em 11/02/2012 06:00 / atualizado em 11/02/2012 07:14

Em sua casa, a premiada escritora Elizabeth Bishop mantinha biblioteca com obras de todo o mundo(foto: Arquivo/O Cruzeiro/EM/D.A Press - 7/4/70 )
Em sua casa, a premiada escritora Elizabeth Bishop mantinha biblioteca com obras de todo o mundo (foto: Arquivo/O Cruzeiro/EM/D.A Press - 7/4/70 )
A década de 1950 trouxe a Ouro Preto, na Região Central, uma das mais importantes poetas norte-americanas do século 20, sempre reverenciada pelas universidades, aplaudida pelos críticos e, principalmente, mestre no ofício de transformar palavras em arte. Nascida em Worcester, estado de Massachusetts, Elizabeth Bishop (1911-1979) completaria esta semana 101 anos e dos 68 que viveu passou quase um terço no Brasil, grande parte em longas temporadas na ex-Vila Rica. De tanto que gostava de Ouro Preto, a poeta e crítica literária comprou um casarão do século 18 no Bairro das Lajes, tendo o cuidado de restaurá-lo e mobiliá-lo de acordo com o estilo. O imóvel é de propriedade da família Nemer, que o adquiriu há 30 anos de Alice Methfessel, secretária e herdeira da artista, e faz questão de preservá-lo do jeito que a antiga moradora deixou.

No livro Flores raras e banalíssimas, a escritora Carmen L. Oliveira descreve a intensa relação de Elizabeth e Ouro Preto. A autora de One Art conheceu a antiga capital de Minas guiada pela companheira Maria Carlota Costallat de Macedo Soares (1910-1967), conhecida como Lota e famosa pela construção do Parque do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Carmen escreveu: “Finalmente, Lota achou tempo para concretizar o sonho de Bishop: conhecer Ouro Preto. Suspeitando o que deveria ser viajar no Brasil, Lota, habituée de Nova York, elaborou uma longa lista de apetrechos para garantir a viagem, de abridor de lata a zarabatana. Mandou fazer uma revisão no Land Rover e pesquisou mapas. Consultando uma amiga, que tinha acabado de vir de lá, soube que a nova estrada tinha ficado pronta”.

E mais: “Se fossem de carro, o passeio seria muito mais aprazível. Transferiram a volumosa equipagem do jipe para o velho Jaguar e lá se foram. Após alguns quilômetros de estrada nova, sob o céu maravilhosamente azul de Minas, Lota e Bishop embasbacaram. A estrada tinha sido inaugurada, mas não tinha sido terminada! (…) Entraram em Ouro Preto à noite, arrastando em marcha triunfal o escapamento, desprendido num buraco. Para Bishop, Ouro Preto compensou todas as agruras da viagem, que incluíram pneu furado e hotéis totalmente inadequados. Bishop apaixonou-se pela cidade e partiu resolvida a voltar lá muitas vezes”.

O artista plástico José Alberto Nemer, nascido em Ouro Preto e residente em Belo Horizonte, conheceu a poeta, em 1968, num almoço na casa do artista plástico Carlos Scliar (1920-2001). Ficaram amigos íntimos e, mais tarde, Linda, sua irmã, também. “Sei desse amor de Elizabeth pela cidade. Em 1953, ela enviou carta à amiga, de influência intelectual, Marianne Moore e falou da viagem, destacando que Ouro Preto era o único lugar do Brasil que desejava conhecer.” A paisagem, por sinal, mereceu o comentário: “As igrejas e capelas brancas, com detalhes em pedra-sabão de um cinza avermelhado, são excelentes na minha opinião”. Quem visita a casa sabe que, de perto ou longe, é quase uma poesia barroca, pela arquitetura e integração à paisagem.

Casa Mariana

Nos primeiros anos, em Ouro Preto, a poeta se hospedava no Pouso Chico Rei. Nemer não se esquece do verso bem-humorado que Elizabeth fez. “Fica para Shakespeare e Milton, o Hilton. Eu ficarei no Chico Rei”, numa referência à rede de hotéis e à pequena pousada. Com o tempo, veio a vontade de ter um pouso definitivo e surgiu, em 1965, a oportunidade de comprar aquela que se tornou a Casa Mariana, nome em homenagem a Marianne Moore (1887-1972). Como o imóvel precisava de restauração, a amiga Lili Correia de Araújo, viúva do pintor pernambucano Pedro Corrêa de Araújo, dono de algumas casas na cidade, ficou encarregada de supervisionar as obras.

Casa Mariana, onde poeta morou, é preservada até hoje do jeito que a antiga proprietária deixou(foto: Rafael Motta/Divulgação)
Casa Mariana, onde poeta morou, é preservada até hoje do jeito que a antiga proprietária deixou (foto: Rafael Motta/Divulgação)


Em carta a um amigo, conta Nemer, Elizabeth disse que “a casa tem o telhado mais bonito da cidade: é como uma lagosta emborcada com a cauda curvada em ângulo reto, onde fica a cozinha”. “Aliás”, acrescenta o artista plástico, “era ali que ela fazia, com alegria e métodos precisos, pratos deliciosos, como as abobrinhas ao forno, lombo com purê de maçã verde, geleia de laranja e conserva agridoce de legumes em seu banho de mostarda. Essa inigualável.” Depois da morte trágica de Lota, por suicídio, a poeta passou a ficar mais na Casa Mariana. Em Ouro Preto, adorava contemplar a fachada da Igreja de São Francisco, obra de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814).

Nemer diz que, a partir da morte de Lota, houve uma fase muito dura. “Ela teve que enfrentar, além da perda, problemas de herança e o julgamento de parentes e amigos de Lota. Às vezes, eu tinha a impressão de ver em Elizabeth uma pessoa ferida de morte. Falava pouco sobre o assunto, o suficiente para eu saber do que se tratava, mas suas crises de tristeza e depressão eram de tal forma dilacerantes que não precisava dar nome aos sentimentos. Mais dramáticos quando associava a depressão ao álcool. Passava dias seguidos trancada em seu quarto, sem ver ninguém. Ria e chorava ao mesmo tempo, em delírios, dia e noite.” Com a casa restaurada, em 1974, a norte-americana resolveu se estabelecer novamente no seu país.

O prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, conheceu Elizabeth e publicou, em 1971, um poema dela no Suplemento Literário que editava no Minas Gerais. “Bishop escreveu pouco sobre a cidade, era mais atenta aos flagrantes inusitados do cotidiano do que à monumentalidade da capital do ouro.” Num deles, descreveu uma cena vista da janela (veja o texto). E No livro Esforços do afeto dedicou uma prosa a uma Ida ao botequim.
 
Catando o português

Sempre ao lado de Elizabeth e sem falar inglês, Nemer e Linda se comunicavam com ela em português. “Tinha um jeito muito bem-humorado e especial de falar a nossa língua, como se fosse catando as palavras com precisão. Era uma pessoa divertida, perspicaz, reservada, seletiva, com uma visão surpreendente do mundo e um olhar para o insólito do cotidiano”, recorda-se.

Quando conheceu a poeta, Nemer era muito jovem e, embora não lesse inglês nem conhecesse sua poesia, podia sentir a dimensão de seu talento nas sutis observações. “Alguns desses insights, de tão sensíveis, poderiam ter virado poema escrito. É o caso do comentário que fez sobre uma lamparina de querosene sobre a lareira da Casa Mariana – um trabalho popular e artesanal, usando o bojo de uma lâmpada queimada, sustentada por alças de lata recortada e terminando com uma tampinha de garrafa de onde saía o pavio. ‘Agora sei por que gosto tanto desse objeto; quem fez isso quis ressuscitar a luz da lâmpada’.”


Escritora nobre

Elizabeth Bishop era filha de William Thomas Bishop, que morreu antes de ela completar um ano, e de Gertrude Bulmer Bishop – com transtornos mentais, foi internada num hospital psiquiátrico quando a menina tinha 5 anos. A família materna a levou para viver em Great Village, na Nova Escócia, no Canadá. Os primeiros poemas, muito influenciados por Marianne Moore e outros escritores, surgiram na revista do Vassar College, nos EUA. Depois da rejeição de alguns editores, teve o primeiro de seus volumes de poesia (Norte e Sul) publicados. Com ele, ganhou o Prêmio Pulitzer. Ao longo da vida, vieram muitas outras premiações. Quando da publicação de Norte e Sul, o mais importante crítico nos EUA, A. Randall Jarrell, escreveu que “todos os seus poemas, como percebi, têm uma segunda escrita”. Em 1979, Bishop ganhou o National Book Award (Prêmio Nacional do Livro), um dos mais importantes da literatura em língua inglesa.


Pela janela: Ouro Preto

 

Mulheres de vestidos vermelhos
e sandálias de plástico, carregando bebês
quase invisíveis – agasalhados até os olhos
naquele calor todo – desembrulham-nos, abaixam-nos,
e amorosamente lhes dão de beber
nas mãos sujas, ali onde costumava haver uma fonte,
e onde todo mundo ainda costuma parar
 


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