
Quando o mestre de cerimônias anunciou, terça-feira, no auditório da Superintendência Regional de Ensino Metropolitano, Diogo Hess de Oliveira Filho, de 14 anos, aluno da Escola Municipal Santos Dumont, no Bairro Santa Efigênia, Região Leste de Belo Horizonte, como um dos vencedores da Olimpíada Brasileira de Matemática em 2009, aplausos para um aplicado aluno do ensino fundamental. Mas, ao ouvir o segundo nome e a idade da vencedora, palmas redobradas e inevitáveis expressões de surpresa e curiosidade na plateia: Liu Yang Duan I, de 57 anos. Mais intrigada ficou a galera quando o apresentador revelou tratar-se de uma chinesa da democrática República da China (não confundir com a comunista e emergente República Popular da China). O país de Liu pode ser também chamado de Formosa ou Taiwan.
Mas quem é Liu Yang Duan I e como ela foi parar em uma sala de educação de jovens e adultos (EJA) na Escola Municipal Caio Líbano Soares, no Bairro Santo Antônio, Região Centro Sul de BH, e ganhar um computador e uma medalha por demonstrar habilidade como números e cálculos? Foi a pergunta que ficou na cabeça da maioria dos presentes na solenidade de premiação e reconhecimento. Liu Yang sorri meio sem graça com a súbita notoriedade de uma estudante que tenta apenas se comunicar integralmente, em palavras e ideias, com os brasileiros. Para isso, precisa formar-se no ensinos fundamental e médio por meio do programa do Ministério da Educação (MEC), que dá oportunidade de diplomação a quem não conseguiu ou não pôde seguir a sequência normal do ensino básico.
Liu Yang nasceu em 1953. Filha de um oficial do exército de Taiwan, antes do início da década de 1980 já estava casada. O marido, um químico dedicado a pesquisas de veneno de animais peçonhentos, informou-se sobre o Brasil, país tropical, de muitas matas, farto em material de estudos na sua área. Juntou a bagagem e voou para a América do Sul, deixando a jovem mulher para trás. Desembarcou em Minas Gerais. Depois de certo tempo de saudade e incerteza, Liu Yang arrumou as malas e se mandou para se unir ao marido. “Não tinha filhos ainda. Então, ficou mais fácil”, conta ela, em um português que ainda deixa muito a desejar. O casal se instalou em BH. Ela se resignou a ser dona de casa dedicada à família, que cresceu com a chegada dos dois filhos. Mineiros, sim senhor.
Sem amigos ou parentes, Liu Yang ficou reclusa ao marido e aos filhos. “Conversava com eles só em mandarim. Raciocinava em mandarim.” O pouco que aprendeu de português foi com o marido e em viagens ao Bairro da Liberdade, em São Paulo, onde iam em busca de pessoas da mesma língua, da mesma cultura da Ásia Oriental.
E como a dona de casa comprava o pão, o leite, enfim, o alimento de cada dia, se tinha dificuldade de se comunicar-se com os brasileiros? Ela, então, revela que o supermercado tem um idioma universal: o visual. “Você chega, olha, pega e compra. Não precisa conversar, se não quiser.” O marido avançava nas pesquisas, nos estudos, e hoje leciona mandarim na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os meninos cresceram se formaram e ganharam asas. Um é médico e o outro fisioterapeuta.
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Estímulo ao estudo
A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) é um projeto criado para estimular o estudo da matemática entre alunos e professores de todo o país. Promovida pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e pelo Ministério da Educação (MEC), é aplicada pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). A olimpíada tem o compromisso de afirmar a excelência como valor maior no ensino público e, de acordo com o MEC, vem mostrando a importância da matemática para o futuro dos jovens e para o desenvolvimento do Brasil. A OBMEP é dirigida ao estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e aos alunos do ensino médio das escolas públicas municipais, estaduais e federais. Os participantes ganham prêmios conforme a classificação nas provas. Professores, escolas e secretarias de Educação também concorrem a prêmios.
O sonho com a acupuntura
Há três anos, Liu Yang também decidiu dar seus passos fora do mundo mandarim. Matriculou-se no EJA para tentar desenvolver o português. “Difícil falar e mais difícil ainda escrever”, revela a chinesa. Faz sentido. Por mais de 50 anos, ela conversou e raciocinou em mandarim. “É complicado entender e se fazer entender em uma língua desconhecida”, diz, não necessariamente com essas palavras. Ela encontrou na sala de aula jovens e adultos de diferentes classes sociais, profissões e formações. Um caldeirão cultural propício a quem precisa raciocinar e se comunicar em português. “A Liu Yang está muito feliz aqui”, diz Celeste Marinho, coordenadora da Escola Municipal Caio Líbano Soares, instalada em um dos andares da antiga Fafich, da UFMG, na Rua Carangola, no Bairro Santo Antônio.
Liu Yang foi aprender português, mas encantou o professor Wilmar de Freitas pela destreza com cálculos e expressões contábeis. Daí a ideia de inscrevê-la na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, que atrai cerca de 20 milhões de estudantes a cada edição. E ela não decepcionou. Foi lá e mostrou à garotada como fazer uma conta e tirar a prova dos nove para não deixar dúvida.
Se número não é problema, a esforçada chinesa tem pelo menos mais três anos para compreender o alfabeto português e suas intricadas amarrações. Tão intricadas que nem todo brasileiro pode se gabar de ser um craque na fala e na escrita. E depois? Liu Yang vai continuar os estudos? “Li muito sobre acupuntura. Só não sei aplicar as agulhas. Quem sabe eu sigo esse caminho? A acupuntura é uma ciência em crescimento no Brasil.” Tomara, pois Liu Yang é mesmo um exemplo que veio de longe. Veio mostrar que se pode começar a sonhar novamente a qualquer tempo.
