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Estado de Minas Uma fábrica de grandes mineiros

Berço de personalidades, Estadual Central é também marco arquitetônico, histórico e cultural


09/07/2011 06:00 - atualizado 09/07/2011 07:58

Em meados da década de 1960, o complexo ostenta a assinatura visual do mestre do modernismo
Em meados da década de 1960, o complexo ostenta a assinatura visual do mestre do modernismo (foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
Na lista histórica de chamada, ninguém menos que Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, Toninho Horta, os irmãos Henfil e Herbert de Souza (o Betinho)... é longa a relação de personalidades que, quando eram apenas jovens estudantes, frequentaram o prédio que ocupa dois quarteirões no coração do Bairro de Lourdes. As ousadas linhas são assinadas pelo gênio do modernismo Oscar Niemeyer, de 103 anos. Mas a marca dessas célebres figuras rendem apenas alguns capítulos na história da Escola Estadual Governador Milton Campos, ou simplesmente Estadual Central. O colégio, que em 2011 completa 55 anos na atual sede da Região Centro-Sul de Belo Horizonte, coleciona superlativos que dão a dimensão de sua importância. Muito antes de ser considerado berço da excelência acadêmica e símbolo da liberdade para a juventude nas décadas de 1950, 60 e 70, a escola já ostentava o título de primeira instituição pública de ensino secundário de Minas e a primeira do Brasil a se equiparar com o Ginásio Nacional, antigo Colégio Imperial Pedro II, no Rio de Janeiro, na emissão de certificados de conclusão dos estudos.

Essa história, que une o esplendor de meados do século passado com a decadência da qualidade da educação nas últimas décadas, começou a ser escrita em 1854, em Ouro Preto, na Região Central de Minas. As ladeiras centenárias da então capital do estado viram nascer o Liceu Mineiro, que reunia em um mesmo local as disciplinas do ensino secundário – mais tarde científico, hoje ensino médio. Em 1890, um ano depois da Proclamação da República, o liceu dava lugar ao Ginásio Mineiro.
Poucos anos mais tarde, em 1898, a escola foi transferida para BH, a nova capital. De forma bastante precária, teve como primeira sede o prédio originalmente destinado à Imprensa Oficial, na Praça da Liberdade. Em trabalhos de mestrado e doutorado sobre o Estadual Central, a doutora do grupo de pesquisa História da Educação da Universidade Federal de Minas Gerais Aleluia Heringer Lisboa Teixeira relata as condições da época: “As salas de aula serviam de passagem e possuíam latrinas que, além de não serem desinfetadas, eram separadas apenas por tabiques. (…) o chão e as paredes eram tisnadas de nódoas repugnantes.”

Nas décadas seguintes, o ginásio funcionou na Rua Piauí, espaço hoje ocupado pelo Corpo de Bombeiros, e na Avenida Augusto de Lima, em prédio depois demolido para dar lugar ao Fórum Lafayette. No início dos anos 1950, o então governador de Minas, Juscelino Kubitschek, chamou Oscar Niemeyer para construir uma sede própria para a escola. Com maestria, ele eternizou na arquitetura objetos que remetem ao ambiente escolar. Nas linhas do mestre, o prédio principal com as salas de aula, biblioteca e administração ganhou a forma de uma régua T; a caixa d’água virou um giz; a cantina, uma borracha; e o auditório, um mata-borrão (objeto usado para absorver o excesso de tinta da pena ou caneta tinteiro).

O edifício, inaugurado em 1956, contrastava com outras instituições de ensino da capital por ser uma escola sem muros. O colégio foi organizado nos moldes de uma universidade, com reitor e professores catedráticos. Rigorosos exames de admissão selecionavam a elite escolar e jovens com um “grande capital cultural”. “Tudo conspirava a favor da excelência do colégio: a efervescência vivida pela nova capital, a abertura democrática do país antes do golpe militar de 1964, a seleção dos melhores alunos e a liberdade consentida pelos reitores. O espaço virou lugar de sociabilidade e a marca da escola era a excelência”, explica Aleluia Teixeira.

Decadência

Na visão da pesquisadora, os ventos da decadência começaram a soprar pelos corredores do colégio a partir de 1963, com a criação de seis anexos nos bairros Serra, Gameleira, Sagrada Família, Lagoinha, Santo Antônio e Coração de Jesus. Em sintonia com a política nacional encabeçada pelo então presidente João Goulart (1961-64) para combater o analfabetismo, houve uma ampliação de vagas e menor rigidez na seleção dos novos alunos. “O sistema começa a ruir paulatinamente. Um novo público passa a frequentar a escola com os anexos, muda o formato de direção do colégio, as condições de trabalho e os salários dos professores pioram muito e ainda há a repressão militar. Isso vem acompanhado de políticas de flexibilização do sistema de avaliação escolar”, conclui Aleluia que, em sua tese, questiona: “É o paradoxo da democracia, e com ela, a impossibilidade da excelência”.

Hoje com 3,5 mil alunos distribuídos em 114 turmas, o Estadual Central tenta recuperar a qualidade dos antigos tempos, mas enfrenta grandes desafios. Segundo Jefferson Pimenta, que toma posse como diretor no próximo dia 1º, o principal deles é organizar a estrutura pedagógica. “Precisamos da figura de um coordenador de área, para fazer a ligação entre as turmas. Hoje, os professores não se conhecem e não há sintonia entre o conteúdo dado numa série e o que será ensinado no ano seguinte. Além disso, faltam funcionários para limpar e fazer a manutenção do prédio, que tem uma estrutura diferente das demais escolas estaduais”, diz Jefferson.

Sem uma grande reforma nas últimas duas décadas, o prédio projetado por Niemeyer mostra as marcas impiedosas do tempo e do vandalismo em paredes descascadas, infiltrações no teto, banheiros pichados e jardins malconservados. Segundo a Secretaria de Estado de Educação, já foi feito um inventário do edifício para diagnosticar as principais demandas, mas ainda não há previsão de início das obras ou do valor a ser investido, pois a reforma ainda precisa ser aprovada pelos órgãos municipal e estadual do patrimônio histórico.


outros tempos

Liberdade e excelência

Álvaro Fraga

Imagine uma escola pública, no auge da ditadura militar, onde os alunos só assistiam aula se quisessem, podiam namorar nos bancos e na praça de esportes, fumar e, no sábado, trocar o uniforme careta pela calça jeans e a camiseta, completando o dia com uma roda de violão na qual não faltavam as canções de protesto de Geraldo Vandré, Edu Lobo e Chico Buarque.
Imagine uma escola pública que não tinha caderneta de frequência, mas era referência de qualidade, sinônimo de acesso garantido à UFMG, nos sofridos vestibulares feitos nas arquibancadas do Mineirão. Uma escola pública cujas vagas eram disputadas quase a tapa por políticos, empresários e todo tipo de gente bem-sucedida que queria a melhor educação para os filhos.

Essa feliz combinação de democracia, liberdade e excelência não é fruto da imaginação. Era o Estadual Central em 1971, quando lá comecei o 1º ano do ensino médio, aprovado em exame de seleção com mais de 1,2 mil concorrentes. Desde então, infelizmente, tudo mudou para pior no ensino público brasileiro. Mas a experiência inovadora e bem-sucedida
do Estadual Central não
pode ser esquecida.


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