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Estado de Minas DIA DA ÁGUA

Mais de R$ 200 milhões são enterrados na revitalização da Pampulha

Se somados os recursos gastos na última década em limpeza e revitalização da lagoa ao que vai ser investido para a Copa, daria para erguer a nova rodoviária, o hospital do Barreiro e 37 Umeis


postado em 22/03/2011 07:06 / atualizado em 22/03/2011 07:16

Maior parte dos R$ 100 milhões que serão gastos vai ser usada para livrar as águas do reservatório do assoreamento(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press. Brasil)
Maior parte dos R$ 100 milhões que serão gastos vai ser usada para livrar as águas do reservatório do assoreamento (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press. Brasil)

O mundo celebra hoje o Dia da Água e, em Belo Horizonte, as atenções estão voltadas para a Lagoa da Pampulha. Construída em 1936 para ser reservatório, a represa, cercada por obras do genial arquiteto Oscar Niemeyer, tornou-se cartão-postal da cidade e atualmente é um problema crônico que desafia as autoridades, revelando-se um verdadeiro poço sem fundo de investimentos e uma das principais fontes de poluição da Bacia do Rio das Velhas. Apenas na última década, R$ 220 milhões, entre recursos da prefeitura e do estado, foram mergulhados na lagoa, na tentativa de salvar o espelho d’água.

Se somada aos R$ 187 milhões de investimentos que a lagoa receberá até 2014, a verba total de R$ 407 milhões seria suficiente para construir a nova rodoviária, o Hospital Regional do Barreiro, além de 37 unidades municipais de educação infantil (Umeis). O montante, no entanto, não foi capaz de livrar as águas verdes, turvas e malcheirosas da Pampulha do esgoto e dos problemas carreados para o cartão-postal, que já sofreu com aguapés, algas fedorentas, mortandade de peixes e até a ameaça de soterramento, nos anos 1990. Segundo estimativa da Copasa, dejetos de 90 mil pessoas – população equivalente à de Itaúna, no Centro-Oeste de Minas, ainda caem diretamente na lagoa. Por ano, a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), tira 1.360 caminhões de lixo da lagoa, num total de 5,4 mil toneladas de resíduos.

A falta de resultados tem como explicação, de acordo com especialistas, o fato de que por muito tempo gastou-se para resolver as consequências e não as causas do problema, que começam bem longe do reservatório. “Muito dinheiro foi usado em medidas paliativas. O que está dentro da lagoa é consequência. É preciso haver ações em toda a Bacia da Pampulha”, afirma o coordenador-geral do Projeto Manuelzão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcus Vinícius Polignano. Com cerca de 100 quilômetros de extensão, a Bacia Hidrográfica da Pampulha abrange os municípios de BH e Contagem. A área conta com 42 córregos, sendo que oito deságuam na represa.

A mais recente promessa assumida pelos governantes é tirar, até a Copa do Mundo de 2014, 95% do esgoto da lagoa e permitir a prática da pesca e de esportes náuticos na represa, vizinha ao Estádio Mineirão e que deverá ser uma das principais atrações turísticas durante o Mundial. Além de resgatar lembranças da década de 1970, quando passear de lancha na Pampulha era programa de fim de semana, o compromisso exigirá mais R$ 187 milhões de recursos da Copasa e do Programa de Recuperação e Desenvolvimento Ambiental da Bacia da Pampulha (Propam), que articula ações das prefeituras de Belo Horizonte e Contagem.

De acordo com superintendente de Serviços e Tratamento de Efluentes, Eugênio Álvares de Lima e Silva, R$ 87 milhões serão aplicados na construção de uma rede de 35 quilômetros de interceptores de esgoto, a maior parte em bairros de Contagem. A obra evitará que os resíduos caiam na Pampulha e levará os rejeitos à Estação de Tratamento de Esgoto do Onça. “Já instalamos 55 quilômetros de interceptores e estamos concluindo as obras em toda a margem esquerda da lagoa.” Silva ressalta que as intervenções já livraram o espelho d’água de 80% do esgoto que recebia e cita, na lista de investimentos, a construção, em 2002, da Estação de Tratamento de Efluentes dos Córregos Ressaca e Sarandi, maiores poluidores da lagoa.

Dragagem

Mas o esgoto, segundo o gerente de planejamento e monitoramento ambiental do Propam, Weber Coutinho, deixou de ser o maior obstáculo a ser enfrentado na Pampulha. Parte dos R$ 100 milhões de investimentos previstos até a Copa serão aplicados na dragagem de 700 mil metros cúbicos de sedimentos (assoreamento). Parece muito, mas a quantidade equivale a apenas 0,07% da lagoa. Atualmente, a represa tem 10 milhões de metros cúbicos de água, e o objetivo é chegar aos 11 milhões, enquanto, nos tempos áureos, a lagoa tinha 18 milhões de metros cúbicos. Desde 2001, foi tirado 1,5 milhão de metros cúbicos de detritos da represa.

“O principal problema da Pampulha é o assoreamento, provocado por erosões, aberturas de novos loteamentos e terraplanagens”, afirma Coutinho, consciente de que o problema do espelho d’água começa bem longe dele. “Nossa urbanização é deficitária, com problemas de estrutura e saneamento básico”, afirma, ressaltando a importância do trabalho de urbanização de 10 vilas e favelas na bacia para melhorar as condições da lagoa.

O poder público busca tecnologias de oxigenação para tratar a água da lagoa, projeto que deve ficar com outro naco dos R$ 100 milhões. “A tecnologia escolhida dependerá do preço e do resultado apresentado”, afirma Coutinho. Numa escala de 1 a 100, a qualidade da água da Pampulha se encontra em nível 50, enquanto para a prática de esportes seria necessário ao menos ter índice 70. A Secretaria Municipal de Obras, que vai licitar a dragagem e contratar o serviço de tratamento das água, busca recursos para viabilizar os trabalhos.

Para Polignano, não há segredo para resolver o problema da Pampulha, que hoje é uma das principais poluidoras do Velhas. “O processo de revitalização de rios envolve decisão política e vontade de que a natureza volte a fazer parte do cenário urbano”, afirma Marcus Vinícius que considera ser este o momento de recuperar a lagoa. “A possilidade de pescar e navegar ali vai reestabelecer a afetividade da população com um bem natural da cidade”, acrescenta.

Espelho d’água poluído

As águas da Lagoa da Pampulha são de Classe 3, conforme o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Esta classificação impede o consumo humano e o contato com o reservatório

>> Os meses de junho, julho e agosto, quando as águas estão mais baixas, são os piores em termos de poluição

>> Nas águas, estão presentes metais pesados – mercúrio, chumbo, arsênio, cádmio e manganês. Esses elementos, de forma cumulativa no organismo humano, podem causar doenças, entre eles o câncer

>> Há também coliformes fecais, que causam verminoses, além de nitrogênio e fósforo, também decorrentes do esgoto doméstico, matéria orgânica e sedimentos

>> Na escala de qualidade da água, medida de 1 a 100, de acordo com dados do Propam, a Pampulha se enquadra no nível 50. Para prática de esportes náuticos, teria que chegar a 70

>> A Bacia da Pampulha tem área de 100 quilômetros quadrados e abrange os municípios de Belo Horizonte e Contagem. Nesse perímetro, há 42 córregos, sendo que oito deles deságuam no reservatório

>> Atualmente, a estimativa é de que o esgoto proveniente de uma população de 90 mil pessoas, residentes na bacia, seja lançado nas águas da lagoa – isso equivale à produção de dejetos de uma cidade como Itaúna, na Região Centro-Oeste de Minas

Fontes: Professor Eduardo Fleury Mortimer, consultor ambiental Rafael Resck e Programa de Recuperação e
Desenvolvimento Ambiental da Bacia da Pampulha/Prefeitura de BH

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