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Estado de Minas

Alencar: dignidade como filosofia de vida

O ex-vice- presidente recorreu à fé nos momentos mais difíceis, sempre enfrentados com bom humor. Postura igual À adotada nas interinidades do governo Lula. Somados os dois mandatos, o político foi presidente por mais de um ano


postado em 29/03/2011 15:02

"Eu não tenho medo da morte. Da desonra, sempre tive”. Reiteradas vezes, em meio à longa e penosa batalha contra o câncer, José Alencar Gomes da Silva recuperou o vocabulário esquecido da política brasileira. Por todos os cantos, cidadãos que acompanharam a dignidade com que o ex-vice-presidente da República enfrentou as recidivas dos tumores, em princípio, no abdômen, ouviram a referência a Sócrates. O filósofo, que preferiu a cicuta à negação de suas ideias, consideradas subversivas à polis, respondeu quando lhe indagaram se não temia a morte: “Não posso opinar sobre o que não conheço. Minha preocupação é com a vida, que desejo viver bem, com dignidade e sem desonra.”

A cada má notícia relacionada ao recrudescimento da doença, honra, moral, ética, interesse público, conceitos que sempre balizaram a conduta do cidadão republicano e discreto, retornaram ao debate na esfera pública. “O homem público que perde condição moral, mesmo em vida, pode se considerar morto. Ao passo que o homem que procede corretamente, mesmo depois de morto, continua vivo”, assinalava José Alencar durante entrevistas coletivas à porta do Sírio-Libanês, em conversas com jornalistas e com amigos próximos.

Mesmo debilitado, ele seguiu despachando, no Palácio do Planalto, exercendo a interinidade — somada em dias, por mais de um ano ao longo dos dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva —, ou mesmo, no gabinete de vice.
José Alencar passou em revista os anos: “A vida que não passamos em revista, não vale a pena ser vivida”. Publicamente, em homenagens que se multiplicaram de Norte a Sul, ele relatou passagens de sua infância, de sua trajetória empresarial e, na política, dos bastidores do poder. Servidores, empresários, associações de classe, sindicatos queriam retribuir o fato de um dia terem sido recebidos pelo ex-vice-presidente da República. Nos últimos anos de sua vida, por onde passou, José Alencar quis tornar pública a sua intervenção na solução de problemas de toda ordem.

Empenho


Ouvinte atento, ponderado, com a simplicidade que carregou do berço vida afora, quando o procuravam, os interlocutores sabiam que dali não sairiam promessas vãs. “Vice não manda. Mas vice pode se empenhar”, dizia sempre. Se a causa era considerada justa, ele se empenhava. Invariavelmente, bem à mineira, resolvia.

O bom humor não se restringiu à forma como tratou a sua doença. Era uma das facetas de seu caráter. Quando em 1994 decidiu abraçar a carreira política e se lançou ao governo de Minas, pelo PMDB, concedeu a sua primeira entrevista exclusiva ao Correio/Estado de Minas. Seria a primeira de uma série, nos anos seguintes. Ao ser indagado, na ocasião, sobre o valor de seu patrimônio, retrucou: “O meu patrimônio? Isso aí depende. O sujeito pode ter uma fazenda e achar que vale tanto, que pode ser o que ele quiser. Mas o patrimônio líquido de uma empresa só pode ser visto pelos balanços”. Se R$ 500 milhões ou R$ 1 bilhão, pouco importa. Brincando, respondeu em inglês: “I dont know. I really dont know” (Eu não sei. Eu realmente não sei).

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