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Estado de Minas ARTES VISUAIS

Sebastião Salgado faz um apelo ao mundo em 'Amazônia', sua nova exposição

Por sete anos, o fotógrafo mineiro registrou a floresta, os indígenas e os biomas da região. Com suas 200 imagens, ele luta para frear o desmatamento


22/05/2021 08:40 - atualizado 22/05/2021 08:44

Rio Jaú, no Amazonas(foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)
Rio Jaú, no Amazonas (foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)

Celebrar o que ainda resta para conseguir protegê-lo. É com essa intenção que o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado apresenta, em Paris, a mostra Amazônia, fruto de sua viagem de sete anos pelas entranhas da maior floresta tropical do mundo.

Aberta desde quinta-feira (20/5) na Filarmônica de Paris, a mostra nasceu com vocação internacional. Vai viajar para Londres, Roma, São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras cidades, da mesma forma que seu grande trabalho anterior, Gênesis, deu a volta ao mundo para mostrar os lugares mais bonitos e remotos do planeta.

Arquipélago fluvial de Mariuá, no Rio Negro, Amazonas(foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)
Arquipélago fluvial de Mariuá, no Rio Negro, Amazonas (foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)

PANDEMIA 

Amazônia é, sem dúvida, o trabalho mais pessoal e reivindicativo do mineiro de 77 anos, fotógrafo reconhecido mundialmente. Inicialmente, ele tinha a intenção de convidar para a inauguração lideranças indígenas com o objetivo de fazer ouvir essas vozes contra a destruição de seu habitat e das consequências disso para o planeta. Salgado espera fazê-lo assim que a pandemia permitir.

Entrar na exposição é empurrar uma porta para a floresta tropical, ingressando numa jornada de fotografias em preto e branco que caminham na penumbra, como uma expedição na selva.

A viagem é acompanhada pela trilha, composta especialmente para a mostra pelo francês Jean-Michel Jarre, um dos pioneiros da música eletrônica.

Desde as primeiras vistas aéreas, acompanhando o Exército em missões na Amazônia brasileira, Salgado transforma a natureza exuberante em arte, cuja força reside numa estética imaculada.

O fotógrafo lembra que o ecossistema, que ocupa quase um terço do continente sul-americano e engloba nove países, principalmente o Brasil, é a soma de elementos.

A começar pela água, com o Amazonas e seus afluentes, que serpenteiam por milhares de quilômetros, os verdadeiros "rios voadores" - enormes torrentes de vapor que se formam sobre a floresta -, e as chuvas torrenciais, que parecem capazes de encharcar o observador das fotografias do brasileiro.

"A Amazônia é a pré-história da humanidade, o paraíso na Terra", afirmou Salgado ao apresentar à imprensa a exposição com a qual pretende "despertar consciências".

Depois do exuberante, chega-se ao coração da selva: Salgado mostra os 10 grupos indígenas com os quais conviveu durante sua jornada de sete anos, além de outras viagens pontuais, a última em fevereiro de 2021.

Indígenas ianomâmis, marubos, iauanauás - o fotógrafo os convida para seu "estudo"” entre as árvores: um lençol branco pendurado ao fundo e um plástico no chão pronto para ser enrolado após a irrupção da chuva. Alguns se vestem para a ocasião, pintando o corpo e usando cocar de penas.

Salgado espera que eles tomem a iniciativa, da mesma forma que só chegou a essas comunidades depois de obter sua autorização e no dia que determinaram, graças à mediação da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Indígenas da etnia Ashaninka, no Acre(foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)
Indígenas da etnia Ashaninka, no Acre (foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)

MÚSICA 

As 200 fotografias da exposição, imaginada e montada pela mulher do fotógrafo, Lélia Wanick Salgado, são acompanhadas pela música de Jarre, que também fez uso dos arquivos sonoros da Amazônia guardados no Museu de Etnografia de Genebra.

"Nem Salgado nem eu queríamos música ambiente ou exclusivamente étnica. A floresta é muito barulhenta, tem sons independentes, não é como uma orquestra", explica o compositor. Ainda assim, "é harmoniosa para o ouvido humano", observa.

"A exposição poderia ter sido fruto de um documentarista, mas é obra de um artista. Salgado nos convida a um passeio místico, é disso que precisamos agora que começamos a sair dessa pandemia", conclui Jarre.

(AFP)

Entrevista 

(foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)
(foto: Sebastião Salgado/philharmoniedeparis.fr/reprodução)

SEBASTIÃO SALGADO - FOTÓGRAFO

Aos 77 anos, Sebastião Salgado poderia dar a impressão de fragilidade por trás da máscara. Mas quando toma a palavra, o lendário fotógrafo demonstra vitalidade louvável, seja para defender a Amazônia ou para criticar aqueles que acusa de destruí-la.

"Todos temos que lutar" e "ajudar os movimentos de resistência brasileiros" a frear o desmatamento, afirma, denunciando o governo Jair Bolsonaro por tentar "se apropriar dos territórios indígenas e dos parques nacionais" para desenvolver novas extensões agrícolas. Ele avisa: sua luta por meio da fotografia está longe de acabar.

"Juntos conseguiremos frear a destruição"

Qual é o objetivo de Amazônia, a sua nova exposição?

Queremos que as pessoas que forem ver a exposição tomem ciência do que é a Amazônia. Não é só uma grande planície com grandes rios no centro. Também é a montanha, um sistema de água, os 'rios voadores', que chegam a quase todas as regiões do mundo, e as comunidades indígenas. Portanto, é uma tentativa de apresentar a Amazônia.

A exposição, em cartaz em Paris, também chama a atenção para as ameaças que pesam sobre esse ecossistema, começando pelo desmatamento.

A grande esperança é que juntos conseguiremos frear a destruição dos biomas amazônicos, que conseguiremos protegê-los, e proteger também as comunidades indígenas. Não só para preservá-los, mas porque precisamos deles para o planeta. A Amazônia garante uma grande distribuição de umidade no planeta (...), além de sequestrar o carbono graças a esses milhões de árvores que se ocupam de transformá-lo e liberar o oxigênio que respiramos.

Na recente cúpula sobre o clima, o presidente Jair Bolsonaro se comprometeu a eliminar o desmatamento ilegal no Brasil em 2030, depois do drástico aumento observado desde sua chegada ao poder, em janeiro de 2019. O senhor acredita que isso é possível?

O governo de Bolsonaro conta uma mentira atrás da outra. Dá a impressão de que resolve os problemas, mas mente para continuar destruindo. Depois de fazer essa declaração no grande encontro organizado pelo presidente dos Estados Unidos (Joe Biden), no mesmo mês houve a maior destruição da floresta amazônica, pouco depois da sua promessa: 580,55 quilômetros quadrados foram desmatados na Amazônia brasileira em abril, nível recorde para esse mês, segundo dados oficiais.


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