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Estado de Minas LIVRO

Professora da UFMG mostra o que pensavam os antivacina contra a varíola

Myriam Bahia Lopes lança 'Corpos inscritos: vacina e biopoder. Londres e Rio de Janeiro', que é resultado de sua tese de doutorado


02/02/2021 04:00 - atualizado 02/02/2021 09:53

Charges publicadas na imprensa eram uma grande ferramenta de comunicação da época, como mostra o livro, que reproduz exemplos como esses
Charges publicadas na imprensa eram uma grande ferramenta de comunicação da época, como mostra o livro, que reproduz exemplos como esses

No momento em que a vacinação contra a COVID-19 tem início no Brasil, um livro recupera a trajetória da vacina antivariólica, a primeira da história a ser desenvolvida com sucesso. Corpos inscritos: vacina e biopoder. Londres e Rio de Janeiro, 1840-1904, da historiadora Myriam Bahia Lopes, professora da Escola de Arquitetura da UFMG e coordenadora do Núcleo de História da Ciência e da Técnica (Nehcit), mostra que questões que estão na ordem do dia já eram urgentes no século 19.

A obra é resultado de sua tese de doutorado, defendida em 1997 na Universidade Paris 7 Denis-Diderot. Essa, por sua vez, veio como um desdobramento de seu mestrado. Defendida na Unicamp em 1988, a dissertação gerou o livro O Rio em movimento – Quadros médicos e(m) história: 1890-1920 (2001, Fiocruz), finalizado com um capítulo sobre a Revolta da Vacina, levante popular ocorrido em novembro de 1904 na então capital federal brasileira.

“Nessa pesquisa, descobri uma correspondência de brasileiros com ingleses sobre o debate a respeito da vacina. Quando cheguei à Inglaterra, vi que o movimento de discussão antivacina, que no Brasil significava um índice de atraso, ou falta de informação, não se sustentava. O movimento congregava uma diversidade enorme de pessoas, cientistas, feministas, evolucionistas como (Alfred Russel) Wallace (naturalista britânico com ideias semelhantes às de Charles Darwin)”, explica Myriam.

O trabalho acompanha o debate de distintas vertentes políticas e científicas em um período de quase sete décadas. A despeito das distâncias que separam a Londres de meados do século 19 do Rio de Janeiro do início do século 20, as duas capitais, palcos da pesquisa de Myriam, se encontram por ter sofrido com epidemias da doença. O processo de vacinação, tornada obrigatória, não foi tranquilo nos dois lugares.

POLARIZAÇÃO 

O livro reúne várias imagens que traduzem a polarização de cada período. A comunicação popular se dava principalmente por meio de charges e caricaturas publicadas na imprensa da época. 

A vacina é o marco zero da medicina científica, um divisor de águas na história da medicina. “Mas havia também uma questão que era a de pensar na saúde. Só teria saúde a população que tivesse uma estrutura básica de higiene, condições de trabalho dignas. Pipocavam epidemias na Inglaterra pós-Revolução Industrial. Os urbanistas vão surgir para dar uma resposta a isso. A discussão social no período era de que, para ter saúde e higiene, a população tinha que ter o básico, que o Estado deveria prover”, diz ela.

A discussão, no século 19, dizia que o Estado não deveria centrar os investimentos em uma medida única (a vacina antivariólica). A pesquisadora deixa claro que antivacinistas não eram, de maneira alguma, negacionistas. 

“São pessoas que, em um momento de polarização, levantaram questões. O principal problema é justamente este. Elas não eram contra a ciência, mas contra o dogma. Na vacina, você tem uma parte de desenvolvimento em laboratório e, depois, como isso funciona junto às populações. Não é só laboratório, é um processo complexo.”

Na atualidade, a questão, de acordo com Myriam, virou outra coisa, “uma briga por palavras absurdas”. “Os antivacinistas de hoje deturpam a questão. Eles pegam a noção de indivíduo, mas sem a sociedade, o que é uma ficção absurda, já que não há indivíduo sem sociedade. Pensar o eu sem sociedade, não usar máscara, não fazer distanciamento social é de muita arrogância, violência, já que nós somos um coletivo, e a morte está aí, presente.”

A Inglaterra do fim do século 19 teve uma “capital dos antivacinistas”, a cidade de Leicester. Em meados de 1870, a cidade conseguiu driblar a epidemia de varíola. “A partir de uma quarentena, foi utilizado um leque de medidas que conteve a doença”, comenta Myriam. O equivalente, nos dias de hoje com a COVID, foi o realizado pela China. 

Já no século 19, diz a autora, havia outras questões que são válidas hoje, um século e meio mais tarde. “Naquele tempo, se falava da relação entre humanos e animais com epidemias e do deslocamento. A Revolução Industrial (iniciada na Inglaterra em 1760) trouxe um impacto grande para o deslocamento.” 

A pandemia do novo coronavírus trouxe de volta o interesse pela história. “E a forma como se lida com ela é muito importante. Quando vários projetos estão em disputa, o que ganha é que vai contar a história. Mas o historiador, quando a vê a posteriori, começa a perceber ruídos. Foi por meio deles que cheguei ao movimento dos antivacinistas ingleses”, diz.

CORPOS INSCRITOS: VACINA E BIOPODER. LONDRES E RIO DE JANEIRO, 1840-1904
• Myriam Bahia Lopes
• Nehcit/UFMG e Ciec/Unicamp (280 págs.)
R$ 45 (Pedidos devem ser feitos pelo telefone (31) 98671-7303 ou pelo e-mail marciamoreira1@hotmail.com)

(foto: Maria Nogueira/divulgação)
(foto: Maria Nogueira/divulgação)

Revolta virou romance nas mãos de Moacyr Scliar

Médico e especialista em saúde pública, o escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011) promoveu encontros entre a medicina e a literatura em sua obra. Um de seus romances trata da Revolta da Vacina, ocorrida no Rio de Janeiro no começo do século 20, e muito lembrada neste 2021, quando as campanhas de imunização contra a COVID-19 enfrentam resistência de parte da população.

Lançado em 1992, pela Companhia das Letras, Sonhos tropicais acompanha o explosivo contexto da então capital federal, que, entre 1903 e 1904, se encontrava castigada por doenças como a varíola, a peste bubônica e a febre amarela. 

Disposto a controlá-las, o então presidente Rodrigues Alves iniciou uma série de reformas urbanas e sanitárias. Nesse processo, o médico Oswaldo Cruz assume a Diretoria Geral de Saúde Pública, promovendo uma campanha de vacinação obrigatória contra a varíola. 

O temor da injeção e a insegurança sobre os componentes do imunizante, associados a um contexto mais amplo de insatisfação popular na capital da recém-proclamada república, geraram uma escalada de conflitos que chegaram a proporções preocupantes, envolvendo até o Exército. 

Em sua obra, Scliar mistura esse contexto real a uma trama ficcional, contada por um médico desempregado e em crise existencial, que aguarda a chegada ao Rio de Janeiro de um pesquisador norte-americano interessado na vida de Oswaldo Cruz. 

A partir disso, a narrativa procura explorar diversos aspectos da vida do sanitarista, dando uma perspectiva mais ampla do que foi a Revolta da Vacina e de como aconteceram os avanços empreendidos por ele na saúde pública daquela época.

Dez anos depois do lançamento do livro, indicado ao prêmio Jabuti de 1993, o romance ganhou sua versão cinematográfica, em adaptação homônima de André Sturm. No longa-metragem lançado em 2002, Oswaldo Cruz é interpretado por Bruno Giordano. Seu caminho se cruza com o da polonesa Esther, personagem de Carolina Kasting, que veio ao Brasil enganada por uma falsa promessa de casamento, acabou na prostituição, mas teve papel fundamental na causa de Oswaldo Cruz, ao militar favoravelmente pela vacina. O longa Sonhos tropicais está no catálogo do serviço de streaming Petra Belas Artes à la carte. (Pedro Galvão)

Sonhos tropicais
• Moacyr Scliar
• Companhia das Letras 
• (212 págs.)
• R$ 49,90


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