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Estado de Minas LITERATURA

Serra do Curral inspira versos de tristeza e revolta de poetas mineiras

Com ''Derrama'' e ''Horizonte em talude'', Adriane Garcia e Thais Guimarães exprimem sua visão sobre a perspectiva de mineração no cartão postal de BH


05/05/2022 04:00 - atualizado 04/05/2022 20:23

Ilustração mostra serra com formato humano chorando lágrimas de pedra, tendo em seu dorso trem de transporte de minério se movendo

Thais Guimarães*
Especial para o Estado de Minas

Minas Gerais está em perigo desde o século 16. A fartura mineral de nossas terras foi mote para o nome que a elas foi dado. Mas a riqueza de nossas minas, nas profundezas das montanhas e serras, torna-se o nosso ponto fraco e prenuncia um futuro de pobreza para o nosso estado.

A memória recente dos rompimentos de barragens que mataram pessoas, fauna, flora e bens imateriais e materiais nos coloca cara a cara com a triste realidade que nos espera se não houver uma revisão regulatória séria que priorize a vida, e não o dinheiro.

E o que pode a poesia contra a destruição da mineração?

Drummond já cantava a sua Itabira devastada. O Pico do Cauê foi exaurido e de cartão-postal da cidade tornou-se uma imagem desolada de uma cava. O mundo inteiro sabe disso, porque os versos do poeta seguem vivos em nossa memória.  Versos dolorosos, de imensa angústia e tristeza, mas, também, proféticos.

Infelizmente, o tema não se esgotou.

Muitas vezes, dizemos que já não temos mais palavras, mas ainda as temos, e ainda gritamos. Salvemos a Serra do Curral, salvemo-nos. Não podemos esperar, de braços cruzados, outra catástrofe fruto da sanha mineradora. “Nós não respiramos, não comemos e nem bebemos minério.”

E se a poesia não consegue barrar a licença para a mineração da Serra da Curral, que ao menos possa denunciar tamanha ameaça, revelando sua camada mais cruel: a cava, o buraco, o pó de ferro despejado sobre nós.

Que a poesia possa tocar o limiar das decisões – pois, com certeza, há lugar para um coração nas mãos de quem segura a caneta e tem o poder de veto.


“HORIZONTE EM TALUDE”

Thais Guimarães*

Olhe bem o retrato
das montanhas no jogo
de erros da realidade
Conte as que restaram 
perfilando a cidade
Olhe bem a paisagem antes
Da próxima madrugada
Mais uma em mais 
de quatrocentos anos
de esconsas canetadas

Mãos de ferro embalam o berço
dessas Terras Minerais
Do ouro para o minério
a destruição regulada 
por Minésios imorais

Olhe antes
que seja tarde
O que houve não há mais 

Per saecula saeculorum
mineram 
sem alarde
Até que uma mina explode
enquanto Minas dorme 
Até que disparam alarmes
E minas ameaçam
Minas

Por isso olhe
Olhe bem a lâmina
das montanhas 
antes que seja
um corte


*Thais Guimarães
Poeta, residente em Belo Horizonte. Publicou “Jogo de Cintura” (poesia), “Dez pretextos para uma noite de solidão” (poesia), “Bom dia, Ana Maria” (infantil – Prêmio Jabuti 1988); 
“Notas de viagem” (Coleção Leve um livro), “Jogo de facas” (poesia), “Uma praça chamada Liberdade” (poética de observação, com Carlos Ávila) e “Senhor Relógio” (infantil)

“DERRAMA”

Adriane Garcia*

Minas é um animal ferido
Todos os dias seu corpo esquartejado segue
Em vagões onde a liberdade 
Não pega carona
Onde a liberdade sequer
É uma palavra

Uma outra inconfidência
Outra conspiração 
Suspeita-se
Na calada da noite
Silvérios dos Reis trocam
Cifrões pelos nossos currais

Mais barragens de rejeitos
A matança de nascentes
Tremula a bandeira 
De medo 
Esse triângulo vermelho 
É sangue.


*Adriane Garcia
Poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou os poemários “Fábulas para adulto perder o sono” (Prêmio Paraná de 
Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), “O nome do mundo” (poesia); “Só, com peixes”; “Garrafas ao mar”; “Arraial do Curral del Rei – A desmemória dos bois”; “Eva-proto-poeta” e “Estive no fim do mundo e me lembrei de você”


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