Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Imagens da queda

Petra Costa lança hoje na Netflix Democracia em vertigem, documentário que enfoca o impeachment de Dilma Rousseff tendo a figura de Lula como peça central do jogo político


postado em 19/06/2019 04:10

A prisão do ex-presidente petista é o ponto de partida e de chegada do filme da diretora mineira (foto: Franscico Proner/Netflix/Divulgação)
A prisão do ex-presidente petista é o ponto de partida e de chegada do filme da diretora mineira (foto: Franscico Proner/Netflix/Divulgação)

Sobre o documentário Democracia em vertigem, que entra nesta quarta (19) no catálogo da Netflix em 190 países, a diretora Petra Costa diz que seu objetivo é “deixar a memória viva e propor a autocrítica que falta a muitos setores, à elite, aos partidos, ao Judiciário e aos donos do poder, que deveriam fazer este país melhor”. Embora não seja a primeira a expor em um longa-metragem o tumulto político nacional visto nos últimos anos, a cineasta belo-horizontina procurou um formato mais sensível e reflexivo para o filme, lançado diretamente na plataforma de streaming, depois de ser exibido neste ano em festivais internacionais, como Sundance (Estados Unidos).

Em O processo, Maria Augusta Ramos se debruçou especificamente sobre os trabalhos da comissão especial do impeachment, no procedimento que destituiu Dilma Rousseff da Presidência da República, em 2016. Excelentíssimos, de Douglas Duarte, enfocou os parlamentares, em suas atividades cotidianas, durante esse mesmo período caótico, enquanto O muro, de Lula Buarque, teve como recorte a polarização da população. À sua maneira mais ensaística, Petra Costa abordou o mesmo contexto, mas colocando a democracia brasileira como principal ponto de interrogação.

O filme começa e termina com a prisão de Lula, exibindo uma coleção de imagens de quando o ex-presidente se entregou à Polícia Federal, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, em abril de 2018. O ex-presidente é protagonista nas duas horas de exibição. Sua história é resgatada em imagens, desde as greves no ABC, passando pelas derrotas eleitorais nos anos 1990, a chegada e a saída do poder, até o momento em que se tornou alvo da indignação de parte da população, dos procuradores da Lava-Jato e do então juiz Sergio Moro.

“Seria centrado no impeachment, mas só é possível compreender o que foi esse impeachment entendendo o surgimento do PT, do Lula como líder político e por que ele escolhe a Dilma como sucessora. O impeachment se dá pela erosão da credibilidade do Lula, com exposição de áudios de forma ilegal. Por isso ele é tão importante e teve esse destaque”, afirma a diretora, que contou com imagens de bastidores feitas pela equipe do ex-presidente em muitos momentos.

O roteiro aborda conquistas do governo petista, inclui depoimentos enaltecedores de eleitores e apoiadores, mas também destaca alianças controversas que o partido fez e o escândalo do mensalão. Porém, a narrativa vai muito além do complicado intervalo entre a abertura do processo de impeachment e a eleição presidencial do ano passado, seguindo o objetivo da realizadora de promover a memória. “No Brasil, por muito tempo, fizemos o pacto do esquecimento. É um país que insiste em esquecer as coisas, seja queimando registros sobre a escravidão, seja fazendo anistia dos crimes cometidos por militares na ditadura ou esquecendo o passado mais recente”, diz ela.

BRASÍLIA 

Dessa forma, por imagens e pelo texto, narrado pessoalmente por Petra, o roteiro volta até mesmo à fundação de Brasília, em que aponta o início do fortalecimento de empresas de construção civil que seriam personagens decisivos nos escândalos dos últimos anos. A ideia é ampliar o panorama e mostrar a estruturação da corrupção no jogo político e a relação dos partidos com grandes empresas. Em muitos momentos, a diretora costura sua trajetória pessoal aos acontecimentos documentados.

Nascida em 1983, perto do fim da ditadura, ela compara sua vida à recente democracia, que suspeita ser “um sonho efêmero”. Lembra seu primeiro voto, em Lula, em 2002, e fala sobre sua família, que reflete a divisão vista em muitos lares brasileiros, ressaltando que os pais são militantes da esquerda desde o regime militar e outros parentes fazem parte de uma elite econômica de visão oposta. Em uma cena, Petra frisa o fato de ela ser neta de um dos fundadores da Andrade Gutierrez. Em outra, filma o encontro de sua mãe com Dilma Rousseff, duas mulheres mineiras que foram presas pela ditadura. E em muitos momentos, a diretora procura analisar a estética de cenas já conhecidas, como na primeira posse de Dilma, quando ela, Lula e Marisa Letícia descem a rampa do Palácio da Alvorada abraçados, com Michel Temer ao lado deles, separado por um espaço classificado pela narradora como “um abismo”.

“O filme vem do desejo de falar da dor. Uma dor que não tinha nunca contemplado. E ainda falar sobre como dói ter essa relação abalada com aquilo que você imaginava ser o seu país. Essa dor que é pior que a de perder uma pessoa querida”, afirma Petra, que se diz satisfeita pelo alcance que seu filme poderá ter com a inclusão no catálogo da Netflix. “Espero que, no Brasil, ele possa inspirar, de alguma forma, um diálogo e trazer reflexões”, diz ela.


Publicidade