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Estado de Minas

Chino Darín conta como perdeu e como recuperou a vontade de ser ator

Ele está no elenco de 'O anjo', longa de Luis Ortega sobre o maior assassino em série da Argentina, que estreia nesta quinta (18), e prepara lançamento do primeiro longa em que contracena como pai, Ricardo Darín


postado em 18/04/2019 06:00 / atualizado em 18/04/2019 13:58

(foto: PAGU PICTURES/DIVULGAÇÃO)
(foto: PAGU PICTURES/DIVULGAÇÃO)


“Carlos é um nome de origem alemã. É feio. Mas o significado é bonito. Quer dizer ‘homem livre’”, diz o colecionador de arte a Carlitos (Lorenzo Ferro). “O meu é em homenagem a Gardel. Não gosto”, responde o jovem de cachos louros e rosto angelical, que tem um quê de Gardel (a genialidade em sua área) e bastante de homem livre (de culpa e de moral).

Carlitos, protagonista de O anjo, longa-metragem do argentino Luis Ortega que estreia nesta quinta-feira (18) no Brasil, é um personagem inspirado na história real de Carlos Robledo Puch, conhecido como o maior assassino serial da Argentina e apelidado de “o anjo do crime” por sua aparência.

Ambientado em Buenos Aires, em 1971, o filme enfoca furtos corriqueiros e também as ações mais espetaculares de Carlitos – o roubo a uma loja de armas e a uma joalheria – até sua prisão. Filho único de uma família de classe média, criado com requintes de mimos, Carlitos diz no filme que nasceu para roubar e que desacredita da convenção social da propriedade privada, “esse negócio de isso é seu; isso é meu”. O homem que queria ser livre para fazer tudo que desejasse cumpre pena numa prisão de segurança máxima há 47 anos. Ele é acusado de ser o autor de 10 homicídios qualificados, um homicídio simples, uma tentativa de homicídio, 17 roubos, um estupro, uma tentativa de estupro, dois furtos e dois raptos, de acordo com o jornal La Nación.

Para retratar sua história na tela, Luis Ortega reuniu um elenco estelar. Cecilia Roth (Ninho vazio) e Luis Gnecco (Neruda) interpretam os pais de Carlitos. Chino Darín faz o papel de seu comparsa Jorge Ibañez, que no roteiro ganhou mais tintas ficcionais e o nome de Ramón. Companheiro de delitos de Carlitos, Ramón sonha em ser ator. Na sua opinião, apenas os ladrões e os artistas desfrutam da vida. Os demais trabalham. Essa aspiração leva Ramón a ter uma cena como calouro de programa de auditório na TV, na qual canta Corazón contento, sucesso (real) de Palito Ortega, grande nome do rock argentino e pai do cineasta Luis Ortega.

Os pais do protagonista são vividos por Mercedes Morán (em cartaz no Brasil também com Um amor inesperado, no qual contracena com Ricardo Darín, pai de Chino) e Daniel Fanego (Clube da Lua).

O papel principal ficou com Lorenzo Ferro. Quando selecionado, aos 18 anos, ele era mais conhecido como filho do ator Rafael Ferro e por seu codinome Toto Ferro, com o qual assina composições de rap. Lorenzo não era ator e declarou que nem sequer havia pensado em sê-lo.

Ver Lorenzo Ferro atuando pela primeira vez como um protagonista foi uma experiência que reconciliou Chino Darín, de 30 anos, com a profissão de ator, como ele conta na entrevista a seguir.

Veja o trailer do filme:

 

Como foi dividir o set com um protagonista que era estreante como ator?

Foi uma linda experiência ver um garoto de 18 anos aprender tudo o que se requer desse ofício em tempo recorde, com o peso de retratar um personagem real tão importante na nossa história. Foi uma aventura que me fez recuperar a fé e a esperança nessa profissão. Luis Ortega é um dos cineastas mais talentosos que temos. Os momentos-chave da minha carreira devo a ele – ao seu olhar e à sua mão de diretor.

Quando você perdeu a fé e a esperança na profissão de ator?

Quando filmei Uma noite de 12 anos. (2018, de Álvaro Brechner, sobre o período em que José “Pepe” Mujica e dois outros guerrilheiros tupamaros foram reféns do regime militar uruguaio. Chino Darín interpreta o poeta Mauricio Rosencof, em cujo livro Memorias del calabozo o filme se baseia.)As filmagens foram tão duras para mim que eu já não acreditava que meu futuro estivesse associado à atuação. Pensei que era o fim. Não sou o tipo de ator que carrega os personagens consigo. Mas nesse caso acho que submergimos física e psicologicamente um pouco mais do que o saudável. Saí dessa filmagem com problemas físicos, arestas psicológicas e uma particular aversão ao meu estilo de vida, rechaçando meu trabalho como ator. Chegamos a um limite físico, pela necessidade de emagrecer, de estar enfraquecidos, destruídos. Eu me senti frágil e desprotegido durante todo o tempo de filmagem. Fizemos nosso maior esforço e acho que, ao menos por um momento, conseguimos captar algo da essência dos personagens. Isso tudo combinado com o fato de que rodamos no inverno, numa montanha espanhola, durante muito tempo, toda aquela carga dramática combinada com aquele lugar confluiu numa experiência devastadora. Desta vez não foi como das outras, em que saí das filmagens e voltei a ser o Chino. Fiquei com uma carga. Tudo o que aconteceu depois com o filme, o modo como ele foi recebido, foi lindo. Mas valeu a pena? Não. É um desses filmes que eu não faria de novo. Se tivesse a chance de dizer hoje sim ou não, diria não. Com o passar do tempo, em vez de sair dessa experiência, eu me sentia mais preso a ela e com menos vontade de encarar outro projeto. Até que Luis (Ortega) me chamou. Não me sentia em condições, não sentia que poderia zerar a quilometragem, como acho que deve ser em cada projeto. Mas gosto tanto do Luis e admiro tanto o trabalho dele que, sempre que ele me chamar, direi sim. Devo muito a ele. Fui me redescobrindo no processo de ensaios, aconteceu quase magicamente. E acabou sendo um dos melhores sets da minha vida.

Marcelo Martinessi, o cineasta paraguaio que dirigiu As herdeiras, afirma que seu país “sempre teve um romance com os ditadores”. Você acha que O anjo mostra que os países latino-americanos também se seduzem por seus maiores criminosos?

Acho que misturar a ditadura, o Brasil, a Argentina e o Paraguai com esse filme é colocar muita coisa no mesmo pacote. O fato é que a espécie humana tem atração pelo lado escuro. Querendo ou não, desde tempos imemoriais temos que lidar com isso. Somos contraditórios, claro/escuros. Temos que lidar com o politicamente estabelecido na convivência e, ao mesmo tempo, com as pulsões animais menos refinadas. É verdade que na América Latina temos uma espécie de atração vinculada aos personagens carismáticos. Lamentavelmente, parece que esses personagens macabros têm uma grande dose de carisma, o que nos atrai e, nesse sentido, somos manipuláveis.

Qual é sua cena favorita em O anjo?


Não gosto de me ver na tela. Minhas cenas favoritas são aquelas em que não estou. Quando me vejo, começo a suar, fico desconfortável. Não é uma experiência agradável. Com o tempo, fui me acostumando a deixar de lado essa sensação para prestar atenção ao filme, porque acho que é um bom exercício para um ator observar seu trabalho para evoluir.

Então, qual é sua cena favorita de O anjo, na qual você não aparece?


As cenas em que o personagem de Lorenzo dança e aquela em que ele volta para casa, come bife à milanesa com purê de batatas e conversa com os pais.

Quando você começou a trabalhar em cinema, seu pai afirmou que ninguém tornava as coisas mais fáceis para você simplesmente por ser filho dele e disse que você era o garoto faz-tudo do set. É mesmo possível que o sobrenome Darín não tenha tornado as coisas mais fáceis ou eventualmente mais difíceis para você no cinema?


Temos a chance de viver apenas uma realidade e ela é incomparável. Minha vida é normal. Na minha carreira, já tive momentos fáceis e momentos difíceis. Cada projeto é um mundo. Meu pai se referia a quando fui trabalhar em O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella, 2009). Eu estudava direção de cinema. Não pretendia ser ator e o que eu menos queria é que as pessoas no set pensassem que eu estava ali para me divertir. Eu estava tentando contribuir com o que tinha de melhor. Coloquei toda a minha energia nisso. Não posso saber o que pensaram de mim, o que posso garantir é que trabalhei pra burro.

Hoje que tem também uma produtora. Você consegue estar num set pensando apenas como ator, sem prestar atenção nas outras questões?

É péssima ideia me contratarem apenas como ator. Não sei fazer isso. Não consigo evitar dar palpite em tudo. Mas é assim muito antes de eu ter minha produtora. Acho que o trabalho em equipe está na base da tarefa de se produzir uma ficção. Tem a ver com a permeabilidade das ideias. Felizmente, até hoje não trabalhei com ninguém do tipo que diz: ‘Não quero que você mude uma vírgula do que está escrito’. Mas em cada projeto acaba ficando claro até onde você pode ir e aonde não.

A direção parece ser um passo natural na sua carreira, certo?

Não sei se é natural. Comecei a estudar direção, depois a produção foi me atraindo. Gosto de resolver problemas, acho que tem mais a ver comigo. Mas isso não me tira a sensação de que também poderia gostar de dirigir. É algo que está pendente.

Pensa em fazer um filme no Brasil?

Depende de que os planetas se alinhem. Fiz uma série, O hipnotizador, para a HBO, com a qual conheci muitos atores e produtores brasileiros. Conheci (o produtor) Rodrigo Teixeira, que me parece que tem feito um grande trabalho. Sou muito amigo da (atriz) Bianca Comparato. Adoro o Rio de Janeiro. Já estive no Brasil dezenas de vezes, mas não vou priorizar o fato de trabalhar no Brasil ao objetivo de fazer um grande filme, o projeto certo.

Um filme e dois Darín

Estreia em agosto o primeiro longa em que Ricardo e Chino, pai e filho, atuam juntos. Eles produziram o filme baseados no livro La noche de la usina, de Eduardo Sacheri, autor de O segredo de seus olhos (foto: LAURENT EMMANUEL/AFP )
Estreia em agosto o primeiro longa em que Ricardo e Chino, pai e filho, atuam juntos. Eles produziram o filme baseados no livro La noche de la usina, de Eduardo Sacheri, autor de O segredo de seus olhos (foto: LAURENT EMMANUEL/AFP )

Em agosto, deve chegar aos cinemas o primeiro filme em que Ricardo e Chino Darín atuam juntos. Pai e filho hoje têm uma produtora. E se envolveram nesse projeto desde a concepção do roteiro, segundo conta Chino. A campanha de divulgação está prevista para começar em breve. E só aí serão divulgados o título e as primeiras imagens do longa.

Chino contou ao Estado de Minas que a direção é de Sebastián Borensztein, com quem Ricardo Darín trabalhou em Um conto chinês e Kóblic e que é “um grande amigo da família”. A história é baseada no premiado livro de Eduardo Sacheri La noche de la usina, sobre um grupo de amigos que se insurgem contra o confisco de dinheiro por parte do governo ocorrido em 2001 na Argentina, episódio que ganhou o nome de “corralito” e derivou na crise que derrubou Fernando de la Rúa da Presidência do país. Sacheri é autor também de O segredo de seus olhos, levado ao cinema por Juan José Campanella (2009), com Ricardo Darín e Soledad Villamil como protagonistas.

“A produção tem que necessariamente se adaptar às condições de jogo em que encontra. A situação na Argentina é instável e, às vezes, desfavorável. O importante é tentar sobreviver”, afirma Chino Darín. O ator e produtor diz que, “nesse caminho de sobrevivência, rodamos um filme numa situação econômica muito desfavorável no fim do ano passado”. A Argentina tem recorrido seguidamente ao FMI (Fundo Monetário Internacional) para equilibrar suas contas e conter a crise econômica.

“Nós nos esforçamos para filmar nas melhores condições possíveis, cientes de que o momento não era amistoso nem propício. Mas isso depende também da confiança que você tem num projeto. Num contexto nada favorável, tivemos uma filmagem idílica. É o primeiro filme que meu pai e eu produzimos e no qual atuamos juntos”, diz Chino.

 

Veja o teaser que a Warner divugou nesta quarta (17):

 

 

Avaliando o panorama mundial de produção, Chino diz: “Tenho a sensação de que cada vez se produz mais no mundo. Às vezes parece que a contrapartida é que cada vez menos as pessoas vão ao cinema, o que não é verdade. Na realidade, esse mercado está cada vez mais concentrado nos grandes lançamentos e o espaço para nós, produtores independentes, fica dia a dia menor. Mas vamos lutar por ele”.

Recentemente, o ator argentino usou seu Twitter para festejar a volta às salas de cinema do longa espanhol produzido pela Netflix (e já disponível na plataforma) Durante a tormenta, no qual atua. Chino tuitou que era possível ver o filme nas salas, “como deve ser”. Questionado pela reportagem se isso significa uma tomada de posição no debate atual sobre o papel da Netflix na produção audiovisual, considerado por muitos como letal às salas de cinema, ele diz se tratar de um caso específico, não de uma opinião geral.

“A produção da Netflix é minoritária nesse projeto. Claro que foi um filme pensado para, em algum momento, chegar à plataforma de streaming, mas o plano é que ele fosse visto primeiro no cinema. É uma produção com imagens e áudio espetaculares. Houve um grande esforço para isso, e eu acho que ver um filme desses no lugar apropriado é o correto. Durante a tormenta estreou nos cinemas na Espanha em novembro passado e, por razões alheias ao filme, ficou muito poucas semanas em cartaz. Foi então para a Netflix e muita gente começou a recomendar o filme em suas redes sociais. Estreou na China e estava batendo recordes nas salas. E agora está voltando aos cinemas na Espanha. Eu achava triste que esse filme tivesse passado em brancas nuvens pelos cinemas. Meu tuíte foi um convite às pessoas para vê-lo no cinema. Não quero dizer que não se deva vê-lo na Netflix.”


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