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Saiba como a vinda de Dick Dale a BH mudou o cenário da surf music na cidade

Em sua passagem pela capital mineira na década de 1990, o ás da guitarra morto neste mês compôs a música "Belo Horizonte", ajudou a fomentar o surgimento de bandas e do campeonato de surf music


postado em 25/03/2019 05:07 / atualizado em 25/03/2019 07:49

Dick Dale, que morreu aos 81 anos, se apresentou em Belo Horizonte em julho de 1997, na Trash, onde hoje funciona o MIS Santa Tereza(foto: Mike Burns/Divulgação)
Dick Dale, que morreu aos 81 anos, se apresentou em Belo Horizonte em julho de 1997, na Trash, onde hoje funciona o MIS Santa Tereza (foto: Mike Burns/Divulgação)


Nem Saquarema, nem Maresias, nem Florianópolis. A capital do surf no Brasil é Belo Horizonte, pelo menos se o assunto for música. Quem decretou isso foi o “King of The Surf Guitar” (Rei da Guitarra Surf), Dick Dale, que morreu no último dia 16, aos 81 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas Dale já havia comentado publicamente que sofria de câncer, diabetes e insuficiência renal. Na robusta lista de composições deixada pelo instrumentista norte-americano, além da cinematográfica Misirlou e do hino Let´s go trippin, existe Belo Horizonte, em homenagem à capital mineira, onde ele se apresentou em 1997.

Se a passagem por aqui marcou o artista a ponto de dedicar à cidade um tema de seu show, a presença do ícone da surf music em BH influenciou fãs do gênero, músicos e agitadores culturais. Celeiro de bandas de surf music, a capital mineira é também sede do principal festival dedicado a essa vertente do rock, ainda que o litoral esteja a centenas de quilômetros de distância.

Dick Dale começou sua carreira no fim dos anos 1950 e experimentou o auge no começo da década seguinte, tornando-se a principal referência no rock instrumental californiano, seara na qual também militavam os Beach Boys, The Ventures, The Lively Ones, entre outros. Trinta anos depois disso, Dick Dale voltou a surfar a crista da onda.

Em 1994, o cineasta Quentin Tarantino lançou o cultuado Pulp fiction, cuja música-tema é Misirlou. O sucesso do filme colocou a surf music em evidência, com o despertar do interesse de uma nova geração. E assim Dick Dale desembarcou em Belo Horizonte três anos depois do lançamento do longa de Tarantino. Em julho, ele veio se apresentar na antiga danceteria Trash, no Bairro Santa Tereza, onde hoje funciona o Museu da Imagem e do Som (MIS).

Um dos presentes era Leopoldo Furtado, que, na época, era um estudante. Hoje médico, produtor musical e dono de cervejaria, Leopoldo mantém uma clara lembrança daquela noite, em especial da surpresa que tomou conta do público quando Dale, então com 60 anos, anunciou no palco que a próxima música era uma homenagem recém-composta a Belo Horizonte. “Ele falou que adorou a cidade. Achou o pessoal muito legal e fez uma música chamada Belo Horizonte. Ele tocou. Todo mundo achou legal, mas ficou meio desconfiado, pensando que ele devia falar isso ‘para todas”, relata. No entanto, a desconfiança mineira era equivocada.

E-MAIL Nos anos seguintes, Leopoldo Furtado passou a se interessar ainda mais pela surf music. Valendo-se do que a internet possibilitava na época, ele se conectou a outros entusiastas do estilo por meio de um grupo de e-mails, criado com o nome de Reverb Brasil. “Um dia, uns amigos de Curitiba me falaram que ele tocou lá e apresentou uma música chamada Belo Horizonte. Um tempo depois, ela apareceu como uma das faixas do álbum Spacial disorientation, lançado em 2001, o último disco de estúdio dele. Ou seja, a coisa era verdadeira”, conta Leopoldo.

Quando passou a ter um programa sobre surf music na Rádio Autêntica Favela FM, o futuro médico conseguiu entrar em contato direto com o ídolo da guitarra. “Eu mandava e-mail para as bandas, avisando quando tocava uma música delas. Um dia, mandei um para o Dick Dale, contando sobre Belo Horizonte. Malandramente, coloquei meu endereço na mensagem. Um dia, cheguei da faculdade e o porteiro me entregou um pacote, cujo remetente era Dick Dale.”

Dentro do envelope (que Leopoldo guarda até hoje), havia um exemplar autografado de Spacial disorientation. “Se não fosse o Dick Dale, eu teria um ciclo de amizades totalmente diferente. Teria feito coisas bem menos legais na minha vida. Por causa da surf music, conheci muita gente boa do Brasil e do exterior”, diz Leopoldo Furtado.

Em seu círculo de amigos, muitos tinham bandas dedicadas à surf music, e o próprio estudante participou de algumas, como Frank Simata, Del Tombs e Lava Jets. A boa oferta de BH incluía ainda o The Surf Motherfuckers e o Estrume’n’tal. Motivados pela proliferação dos grupos, Leopoldo e o amigo Daniel Werneck pensaram em criar um festival do estilo na capital mineira. Bastou uma conversa com outro entusiasta da surf music para nascer o Primeiro Campeonato de Surf, em 2001.

“Estavam pipocando bandas do estilo em BH na época. Eles propuseram um festival e nós topamos na hora”, afirma Claudão “Pilha” Rocha, um dos proprietários da casa de shows A Obra, inaugurada alguns dias após o show de Dick Dale na cidade.

A ideia prosperou e até hoje foram 17 edições do festival, que chegou a se mudar para casas maiores em alguns anos, tamanha a procura por parte do público. A programação sempre inclui artistas de outros estados e também de fora do país. “BH virou a capital brasileira das bandas de surf, e isso sempre foi curioso, porque tinha mais do que as cidades praianas. A Obra sempre foi uma casa aberta a novas bandas, outras foram se somando e transformando BH em uma cidade ‘surf music friendly’. Muita gente de fora ficou querendo vir tocar aqui. O campeonato se tornou uma vitrine dessa cena”, diz Claudão, que fazia parte do Estrume’n’tal.

CENA

Ele lembra que não só o Primeiro Campeonato Mineiro de Surf demonstrava o interesse local pelo estilo. “Além do Dick Dale, outro marco importante foi o show do Man or Astro Man, produzido pela Motor Music (em 1998, também na Trash). Ali a gente viu que havia uma cena forte, consolidada”, lembra o empresário, que, desde então, assistiu de camarote em sua casa de shows ao surgimento de novas bandas e a dissolução de outras. O certo é que o movimento da surf music em BH não parou.

“Não considero mais BH a capital da surf music pela quantidade de bandas. Hoje, outros lugares têm mais. Mas ainda é a capital, porque promoveu uma espécie de popularização do estilo no país, e a Reverb Brasil tem uma responsabilidade muito grande nisso”, argumenta Claudão.

O que começou como uma reunião on-line de fãs se tornou um selo ao longo da última década, por iniciativa de Leopoldo Furtado, que hoje mora em São Paulo, onde comanda o programa Surf Report, na web rádio Antena Zero. “Na Reverb são mais de 20 lançamentos, em CD, vinil e digitais. Quase tudo surf music brasileira, mas também tem banda da Dinamarca e uma da Itália. Agora lançamos o Brazilian tsunami, coletânea com 63 bandas nacionais, em um disco triplo”, conta o produtor.

“Tudo isso, de alguma forma, foi o Dick Dale quem criou. Não apenas pela surf music, mas porque foi um grande responsável por fazer o rock crescer. Ele participou da criação de amplificadores 10 vezes mais potentes. Antes, a guitarra tinha som de um violão elétrico. Depois dele, passou a ter o som de um canhão. Era um piloto de testes da Fender. Com ele, o rock cresceu de verdade”, afirma.


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