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UM AMOR PERDIDO NO TEMPO

Depois de revelar em reportagem a identidade do ex-cabeleireiro conhecido como Fofão da Augusta, jornalista Chico Felitti conta em livro o romance que ele viveu com um colega


postado em 26/02/2019 05:09

Ricardo namorou Vagner, que mais tarde se tornou Vânia, e hoje vive em Paris, onde deu entrevistas para o autor do livro(foto: FOTOS TODAVIA/DIVULGAÇÃO)
Ricardo namorou Vagner, que mais tarde se tornou Vânia, e hoje vive em Paris, onde deu entrevistas para o autor do livro (foto: FOTOS TODAVIA/DIVULGAÇÃO)


O maquiador, a garota de programa, o silicone e uma história de amor. Esses quatro elementos definem o livro Ricardo e Vânia, em que o jornalista Chico Felitti narra suas investigações sobre a vida de uma figura marcante do Centro de São Paulo. Ricardo Correa da Silva era morador de rua e ganhava a vida entregando panfletos de peças de teatro. Era conhecido pela pejorativa alcunha de Fofão da Augusta, em referência à aparência deformada por intervenções cirúrgicas.

No livro, o repórter narra seus primeiros contatos com Ricardo, as conversas entre os dois, que se estenderam por quatro meses, e o resultado da extensa pesquisa que fez a respeito do personagem. Parte dessa história foi publicada em outubro de 2017 pelo site Buzzfeed. Em um dia, o texto “Fofão da Augusta? Quem me chama assim não me conhece” atraiu mais de 1 milhão de leitores.
O empenho em contar a história e desvendar a trajetória de um cidadão que se tornou uma lenda urbana paulistana rendeu ao jornalista grande repercussão, diversos elogios e o Prêmio Petrobras de Jornalismo, na categoria Inovação, no ano passado. Antes mesmo de chegar às livrarias, Ricardo e Vânia, que dá continuidade àquela reportagem, já teve os direitos vendidos ao cinema e deve chegar à telona com produção de Rodrigo Teixeira – responsável por Me chame pelo seu nome (2018).

CURIOSIDADE Em entrevista ao Estado de Minas, por telefone, Chico Felitti lembra de seu primeiro contato com o biografado. “Voltei a São Paulo aos 17 (após temporada vivendo no Sul do país) anos para fazer faculdade e cruzei com o Ricardo nas primeiras noites aqui. A aparência dele me causou espanto, inicialmente, o que logo evoluiu para uma curiosidade, que, finalmente, se tornaria admiração”, afirma.

“Passei alguns anos pedindo entrevista, no período em que trabalhei na Folha de S. Paulo, e ele sempre declinava, muito educadamente, dizendo ser uma pessoa muito discreta, que preferia se manter no anonimato. Tornou-se uma obsessão saber quem era aquela pessoa e o que teria acontecido com ele”, diz Felitti.

Em um post em seu Facebook, o jornalista relatou um dos rápidos contatos que teve com Ricardo. A publicação motivou a mensagem de uma amiga, em abril de 2017, relatando que o “Fofão da Augusta” estava internado no Hospital das Clínicas, com um dedo amputado por gangrena e tendo surtos psicóticos. Foi quando Felitti começou a investigar seriamente a história daquele homem nascido em Araraquara, no interior de São Paulo, que fugiu de sua tradicional família por ser esquizofrênico e gay.

Vivendo na capital paulista desde a década de 1970, Ricardo tornou-se maquiador reconhecido e prestigiado por celebridades. Parte das finanças conquistadas na profissão foi investida no inusitado desejo de ter o rosto semelhante ao das bonecas de porcelana chinesas. Para isso, injetou mais de 1,5 litro de silicone na pele. Essas e outras descobertas foram elencadas na reportagem.

“Era uma história que merecia ser lida. Nunca torci tanto para que uma reportagem minha desse certo. Mas, quando o resultado vem, nunca é como imaginamos, nunca estamos preparados. Foi tudo muito imediato. A internet tem dessas mágicas”, afirma Felitti.

VÂNIA Ricardo Correa morreu em dezembro de 2017, vítima de uma parada cardíaca, menos de dois meses após ter parte de sua história revelada. A princípio, Chico Felitti hesitou em dar continuidade à reportagem. “Não queria ir além, porque tinha medo de ir a fundo em uma história que já havia sido contada com dignidade e alcançado boa repercussão. Foi quando apareceu a Vânia”, lembra o autor.

Felitti se refere a um amor do passado de Ricardo, que, quando ainda se chamava Vagner, foi seu namorado e parceiro de trabalho. A relação entre eles chegou ao fim quando a doença mental do maquiador se agravou e teve início a epidemia de Aids, na década de 1980, o que acentuou o preconceito contra homossexuais.

Vânia teve acesso à reportagem de Felitti e o convidou para uma temporada em Paris, onde vive atualmente. “Depois da morte do Ricardo e de um bom tempo de convivência com a Vânia, tive a real dimensão do que tinha sido a vida dos dois. Entendi que valeria a pena investir em um livro e seria possível fazer isso sem explorar, de forma sensacionalista, a história do casal.”

Assim, a biografia dá continuidade e vai além da proposta da reportagem, revelando uma história de amor na vida de uma figura lendária e, até pouco tempo atrás, desumanizada. “Ricardo e Vânia são complementares. Curiosamente, durante algum tempo, muitos achavam que eles eram a mesma pessoa em razão da aparência. Quando Vânia vai embora do Brasil, ela assume 10 nomes em 30 anos, enquanto Ricardo fica sem nome nenhum. São histórias paralelas, apesar de opostas”, comenta Felitti.

NOMES Ricardo e Vânia não segue a ordem cronológica da vida dos biografados, mas acompanha o progresso de descobertas do autor. “Não foi uma opção pessoal, simplesmente não havia outra forma. Se tentasse construir uma biografia comum, no molde mais disseminado, omitiria pontos essenciais do meu trabalho. A história ficaria incompleta, até porque há trechos da vida do Ricardo que desconheço até hoje, pela ausência de fontes.”

“Pareceu mais nobre falar da minha experiência de ir encontrando respostas em pessoas diversas pela cidade, como se a sociedade fosse construindo o nome dele. A objetividade tiraria o espírito comunitário desse projeto, escrito com a ajuda de tanta gente”, assinala Felitti. O capítulo Ricardos, “escrito a 200 mãos”, como diz o autor, reúne depoimentos colhidos em redes sociais de pessoas que relatam ter tido contato com o protagonista, entre antigas freguesas e transeuntes da Rua Augusta, onde trabalhou nos últimos anos de vida.

A pesquisa inclui entrevistas com pessoas que fizeram parte do passado dos personagens-título. Felitti foi até Araraquara, onde depoimentos de familiares e antigos amigos lhe deram acesso a uma parte desconhecida da trajetória de Ricardo. Cada capítulo do livro é batizado com o nome do entrevistado em questão. O capítulo Vick Marroni, por exemplo, traz relatos de uma mulher transexual que conviveu com o maquiador desde a juventude e foi uma das poucas de sua geração a não se prostituir. “Era uma personagem completa, que leva a história adiante”, afirma o autor.

“Se aquela matéria inicial tinha um objetivo, era a busca de um nome. Essa busca envolve todo um processo humanizador daquela pessoa. Tirar o nome do Ricardo (chamando-o de Fofão da Augusta) é reduzi-lo a algo, o que já me incomodava, antes mesmo de descobrir que o incomodava”, conta Felitti.

Com a história dos dois personagens centrais, o livro perpassa a realidade do Brasil, revelando como o preconceito impactou as duas trajetórias e está longe de ser um problema superado. “Encontrei histórias inacreditáveis em Araraquara. Se a vida do Ricardo em São Paulo foi tão sofrida, imagine em uma cidade menor, mais conservadora”, diz Felitti. “O livro vem a calhar neste momento em que voltamos a discutir se os direitos humanos à vida e à liberdade, tão básicos, devem existir. Não foi proposital, mas Ricardo e Vânia talvez sirvam a esse contexto de retrocessos.”


RICARDO E VÂNIA

•  De Chico Felitti
•  Editora Todavia (192 págs.)
•  Preço sugerido: R$ 54,90 (físico) e R$ 39,90 (digital)


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