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Estado de Minas PESQUISA

Pesquisadores conseguem detectar falha molecular ligada ao Parkinson

Mecanismo parece estar presente em todos os pacientes do Parkinson. Por isso, poderá ser usado na criação de testes para o diagnóstico precoce da doença neurodegenerativa


postado em 29/09/2019 04:00

(foto: Anderson Araújo/CB/D.A Press)
(foto: Anderson Araújo/CB/D.A Press)

As doenças neurodegenerativas ainda não têm cura, apenas terapias que ajudam a amenizar ou retardar sintomas. Descobertas feitas por pesquisadores norte-americanos podem contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes para uma dessas complicações: o Parkinson. Em um estudo publicado na última edição da revista Cell Metabolism, investigadores relatam que um defeito mitocondrial pode estar relacionado à enfermidade. Para os autores, as novas informações também devem contribuir para o desenvolvimento de diagnósticos precoces.

O Parkinson é decorrente da morte misteriosa de neurônios, prejudicando os movimentos corporais. Essas células nervosas que se originam em uma estrutura do mesencéfalo, substância negra do cérebro, são chamadas de dopaminérgicas, porque secretam a dopamina, substância química que transmite sinais moduladores de movimento a outros neurônios.

Não se sabe ainda a causa da morte desses neurônios, mas a equipe americana acredita que a intensidade especial com que eles desempenham suas funções debilita as mitocôndrias – componentes que, por meio da respiração, geram energia para as células em troca de suprimento constante de matérias-primas: oxigênio e carboidratos ou gorduras ricas em carbono.

“As mitocôndrias passam grande parte do tempo presas a uma grade de estradas de proteínas, que cruzam as células. Uma molécula adaptadora, chamada miro, é responsável por ligar as mitocôndrias, danificadas ou saudáveis, a essa grade”, explica Xinnan Wang, professora-associada de neurocirurgia na Universidade de Stanford e uma das autoras do estudo.

Em trabalhos anteriores, Wang e sua equipe identificaram, em células de pacientes com Parkinson, que a molécula miro enfrenta dificuldades em remover as mitocôndrias danificadas. Com base nessa descoberta, eles realizaram o estudo atual com 126 voluntários: 83 pacientes de Parkinson, cinco parentes próximos assintomáticos (considerados de alto risco para a doença), 22 pessoas diagnosticadas com outros distúrbios do movimento e 52 indivíduos saudáveis. A equipe extraiu fibroblastos – células que são comuns no tecido da pele – das amostras epitelial de todos os participantes. Depois, os cultivaram em laboratório e os submeteram a um processo estressante, capaz de prejudicar as mitocôndrias.

Os pesquisadores descobriram o defeito de remoção da molécula miro em 78 dos 83 fibroblastos retirados das amostras dos participantes com Parkinson (94%) e em todas as cinco amostras dos voluntários classificados como de alto risco. Não ocorreu o mesmo nos grupos de controle ou de indivíduos acometidos por outros distúrbios de movimento. Com os dados, os cientistas acreditam que têm uma nova base para a identificação precoce da doença neurodegenerativa.

“Identificamos um marcador molecular que pode permitir que médicos diagnostiquem o Parkinson com precisão, mais cedo e de uma forma clinicamente prática”, frisa Xinnan Wang. “Esse marcador também pode ser usado para analisar candidatos a medicamentos capazes de combater esse defeito e impedir a progressão da doença”, complementa.

REVERSÃO

Na mesma pesquisa, os cientistas conseguiram identificar um composto com grande potencial para reverter o defeito molecular ligado ao Parkinson. A equipe analisou 6.835.320 moléculas disponíveis comercialmente em um banco de dados. Por meio de uma análise com um software, conseguiram eleger 11 com potencial para interferir em miro. Uma análise ainda mais apurada os levou a uma molécula promissora.

Em testes com moscas-das-frutas modificadas para ter a doença, a molécula se ligou a miro e facilitou a separação das mitocôndrias, evitando a morte dos neurônios ligados ao    Parkinson. Segundo a equipe, outras vantagens do composto é que ele é atóxico, pode ser ingerido oralmente e consegue atravessar a barreira hematoencefálica.

Xinnan Wang adianta que os testes com humanos deverão acontecer daqui a alguns anos. “Nossa esperança é que, se esse composto ou similar se provar atóxico e eficaz, ele poderá ser usado como as estatinas. As pessoas que derem positivo para o defeito de remoção de miro, mas que não ainda têm os sintomas de Parkinson, poderão tomá-lo e evitar os danos causados pela enfermidade”, aposta.

MAIS ESTUDOS

Marcelo Lobo, médico neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia e especialista em Parkinson, acredita que os dados do estudo americanos são de grande importância, pois podem ajudar a dar maior confiabilidade ao diagnóstico da doença. “Apesar de ainda ser um trabalho de pesquisa básica, bastante inicial, ele mostra um potencial marcador da enfermidade, e isso pode nos ajudar bastante, pois, com a detecção precoce, podemos agir mais cedo e evitar danos maiores causados pela doença”, explica.

O médico também ressalta que qualquer dado que contribua para a possibilidade de mais tratamentos contra o Parkinson é muito bem-vindo. “Temos poucas opções, que são todas paliativas. Elas impedem que a doença evolua de maneira mais rápida, mas não curam. Esse estudo mostra uma linha de pesquisa que tem avançado bastante e que pode mudar esse cenário, que é evitar a doença, agindo diretamente no seu alvo”, ressalta.


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