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Consumo de orgânico reduz risco de câncer

Estudo com 69 mil adultos mostra que a ingestão de alimentos sem fertilizantes artificiais e pesticidas está relacionada a uma diminuição de 25% na probabilidade de um indivíduo ser acometido por um tumor


postado em 03/11/2018 05:07

Os cientistas acreditam que a ausência de pesticidas pode estar relacionada à menor incidência de cânceres em quem prioriza alimentos orgânicos(foto: Romeo Gacad/AFP - 4/4/18 )
Os cientistas acreditam que a ausência de pesticidas pode estar relacionada à menor incidência de cânceres em quem prioriza alimentos orgânicos (foto: Romeo Gacad/AFP - 4/4/18 )

A ligação entre hábitos alimentares e a maior probabilidade de surgimento de cânceres intriga cientistas. Trabalhos mais consolidados mostram, por exemplo, que a ingestão de alimentos processados e gordurosos pode ajudar no desenvolvimento de tumores malignos. Não são muitos, porém, os estudos que investigam como os orgânicos podem estar associados à condição contrária. Pesquisa francesa divulgada no Journal of the American Medical Association (Jama) traz resultados nesse sentido.

Ao analisar dados de 69 mil adultos, pesquisadores da Universidade de Sorbonne, do Instituto Nacional de Pesquisa Agrônoma e do Instituto Nacional da Saúde e a Pesquisa Médica concluíram que o consumo regular de alimentos orgânicos está relacionado a um risco 25% menor de surgimento de cânceres. “Observamos riscos reduzidos para locais específicos de câncer (de mama na pós-menopausa, linfoma não Hodgkin e outros linfomas(…). Futuros estudos prospectivos usando dados exatos de exposição são necessários para confirmar esses resultados”, ressaltaram os cientistas no artigo, que tem Julia Baudry, do Instituto Nacional da Saúde e a Pesquisa Médica, como principal autora.

Para o estudo, os voluntários responderam a um questionário com dados diversos — renda, prática de atividade física, se eram fumantes, o índice de massa corporal, entre outras informações — e declararam os alimentos orgânicos consumidos nas 24 horas anteriores. Ao longo de quatro anos e meio, os investigadores contabilizaram o diagnóstico de tumores malignos entre os participantes, que eram em sua maioria mulheres. Foram mais de 1.300 casos registrados, segundo o artigo. Considerando os hábitos alimentares, a equipe concluiu que aqueles que consumiam orgânicos regularmente apresentavam risco reduzido * de ser acometidos pela doença.

Os autores ressaltam que o estudo não tem a intenção de estabelecer uma relação de causa e efeito e apontam uma hipótese para o resultado atingido. “Uma possível explicação para a associação negativa observada entre frequência de alimentos orgânicos e risco de câncer é que a proibição de pesticidas sintéticos na agricultura orgânica leva a uma menor frequência ou ausência de contaminação em alimentos orgânicos em comparação com alimentos convencionais e resulta em reduções significativas em níveis de pesticidas na urina”, relataram.

Limitações Apesar da associação significativa, Julia Baudry pondera que o estudo foi feito em uma pequena amostra e que estudos mais aprofundados precisam ser conduzidos. No caso do trabalho atual, os autores se preocuparam em ressaltar que os consumidores de orgânicos eram, em média, mais ricos, menos obesos e menos fumantes. “Nossas análises foram baseadas em voluntários que, provavelmente, eram indivíduos particularmente preocupados com a saúde, limitando assim a generalização de nossos achados”, justificaram.

Em entrevista à agência France-Presse de notícias (AFP), Nigel Brockton, diretor de pesquisa do American Institute for Research Against Cancer (AICR), fez ponderação parecida. “As pessoas que comem produtos orgânicos de maneira deliberada, a ponto de declarar isso, provavelmente são diferentes dos demais em muitos outros aspectos.” Para reduzir os riscos de câncer, o especialista americano recomenda, em vez de um tipo particular de alimento, um conjunto de práticas: peso normal, atividade física e dieta saudável, sem muitas carnes vermelhas. “O regime alimentar é uma coisa complexa. Nunca teríamos uma recomendação baseada somente em estudo, inclusive se for estatisticamente significativo”, acrescentou.

Em artigo publicado na mesma edição da revista Jama, especialistas da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, chamaram a atenção para o fato de os rastros de pesticidas nos participantes não terem sido medidos na pesquisa francesa. “A investigação de efeitos de longo prazo, embora responsável pela mudança de exposição, será esclarecedora como parte do acompanhamento da coorte (…)Embora nossos achados precisem ser confirmados, promover o consumo de alimentos orgânicos na população geral pode ser uma estratégia preventiva promissora contra o câncer”, defenderam os autores.

A equipe francesa também ponderou a dificuldade de acesso a esse tipo de alimento. “Embora os orgânicos possam ser importantes para reduzir o risco de cânceres específicos, o alto preço desses alimentos continua sendo um obstáculo importante.”

* Resultado similar

Um dos maiores estudos sobre a relação entre a ingestão de alimentos orgânicos e o surgimento de cânceres, o Million Women Study também identificou uma associação significativa do hábito alimentar com o linfoma não Hodgkin. Nesse caso, a redução do risco foi de 21%. A pesquisa divulgada em 2014 foi conduzida com 623.080 mulheres britânicas que estavam na meia-idade. Não houve associação, porém, entre o tipo de dieta e a redução na incidência geral de câncer.


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