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'Parece que estamos sentados sobre barril de pólvora', diz Martha Medeiros

'Definitivamente, não são tempos tranquilos'


postado em 05/05/2019 06:00 / atualizado em 05/05/2019 08:52

(foto: Carin Mandelli/Divulgação)
(foto: Carin Mandelli/Divulgação)

Bodas de prata. A marca de mais de duas décadas mergulhada em um ofício é, sem dúvida, uma data emblemática, que merece ser comemorada. E nada melhor festejar fazendo o que mais gosta: escrevendo. Dessa forma, a gaúcha Martha Medeiros, publicitária, escritora, poetisa, cronista e colunista lança no dia 9, quinta-feira, às 19h30, no CCBB (Praça da Liberdade, 450 – Funcionários), mais um livro (são 26), agora uma coletânea com as 100 melhores crônicas da carreira, sendo quatro inéditas. A edição traz temas como relações entre mãe e filha, amor, casamento, envelhecimento e vida profissional. Ela conversou com o Bem Viver e falou um pouco de tudo, dos 25 anos como colunista de jornal, do processo criativo, de se lançar como youtuber, do envelhecimento, de autoestima, do mundo de hoje, do amor... Enfim, foi um bate-papo com a identidade Martha Medeiros, uma profissional cheia de fãs pelo Brasil que sabe tocar milhares de pessoas, seja com uma crítica dos fatos, um poema, um texto prosaico com verdades profundas, vivências particulares compartilhadas, uma escrita que nos faça rir de nós mesmos e outras que nos fazem pensar, mudar de opinião, nos inspirar, alguém que é abraçada pelos admiradores como a melhor amiga.

 

Cada livro, uma história. Qual a singularidade desta edição com a reunião das 100 melhores crônicas?
Estou completando 25 anos como colunista de jornal e datas emblemáticas sempre conduzem a um balanço, a uma avaliação. Então, surgiu a ideia de lançar este livro, que faz um retrospecto da minha carreira até aqui. Claro que é só uma palhinha, pois já escrevi cerca de 2 mil textos desde que iniciei. Essa coletânea pode servir como um cartão de visita para quem ainda não conhece meu trabalho, pode ser um presente de Dia das Mães ou virar um item de colecionador para quem vem me acompanhando há bastante tempo. Também pretendo, por meio dele, fazer meu début em Portugal – ele será lançado em Lisboa no segundo semestre. Quanto às crônicas inéditas, elas são um bônus e uma forma de mostrar ao leitor que eu sigo produzindo, que muitos textos novos estão a caminho... é muito cedo pra viver só do passado.

É fácil ser cronista? Como se dá o processo criativo? Há sofrimento e prazer?

Era mais fácil no início. O cardápio de assuntos era inesgotável e eu não me sentia muito compromissada com nada e ninguém, era uma garota desconhecida que tinha o privilégio de ter um espaço no jornal para compartilhar minhas reflexões, e fazia isso com muito entusiasmo, mas também sem muito critério, chutando o balde mesmo. Às vezes, sinto saudade da minha inocência e falta de noção, eu não tinha freio e criticava certas pessoas públicas sem intuir o alcance que teria. Era mais divertido, sem dúvida, mas a gente aprende. Hoje, sou mais cuidadosa, mais responsável, mais madura, e isso tudo dá mais trabalho. Ficou mais custoso escrever, é o preço da exigência consigo mesmo, mas o resultado me agrada bem mais.

Todo assunto dá uma crônica?

Sim, qualquer assunto, do mais banal ao mais trágico. Uma vez, vi um caminhão deixar cair placas de isopor no meio de uma grande avenida, o motorista não percebeu e deixou aquelas placas pelo caminho, que foram destroçadas pelos carros que vinham atrás. As placas viraram pequenos flocos de isopor que voavam pela rua suavemente, parecia neve. Escrevi a respeito, claro. A crônica permite isso, que se encontre poesia no cotidiano, que o autor se detenha em miudezas. É um gênero literário muito livre, acho que é o seu maior encanto.

O que tem de especial na crônica que arrebata tantos leitores?

Venho me perguntando isso há muito tempo e não encontro uma resposta precisa. Acho que os assuntos que elejo são de interesse de todos: relacionamentos amorosos, românticos, familiares, e também a relação com a gente mesmo. Nossas angústias, dores, paixões e fragilidades. O que faz a vida dar certo, o que não faz, enfim, essas coisas que a gente leva pro divã. Não por acaso, muitos psicanalistas já me disseram que usam textos meus pra ajudar seus pacientes. Talvez seja esse o meu diferencial, tocar em assuntos profundos com palavras fáceis.

Das páginas para o palco e para a TV. Como é que se “vê” em cena?

Sempre que meu texto ganha voz, fico um pouco desconfortável. Ele deixa de estar em seu lugar de origem e vira um estrangeiro para meus ouvidos. Mas enfrento bem esse estranhamento, pois sei que para o resto da plateia o desconforto não existe. Eu até aqui não tive nenhum desgosto, nenhum sentimento de vergonha ou arrependimento por ter permitido as adaptações, ao contrário. Sempre me sinto lisonjeada por ver grandes atrizes e atores interpretando algo que escrevi. Não importa que o resultado passe longe do que eu pretendia, entendo que teatro, cinema e tevê são trabalhos de equipe, ganham diversas interpretações, é assim mesmo, faz parte da dinâmica da arte. Em maio, estreará mais uma peça com texto meu, Simples assim, com Julia Lemmertz, Georgiana Goes e Pedroca Monteiro. É o meu trabalho mais autoral em teatro, me envolvi como nunca antes. Estou ansiosa pra assisti-lo.

Agora, você se tornou uma youtuber! Como é fazer o “M de Martha”?
Não houve um “boom”, não sou do ramo, estou aprendendo a fazer. Mas já gravei a segunda temporada, que deverá ir ao ar em maio ou junho. Estava querendo abrir uma nova porta de acesso ao meu leitor, queria experimentar o universo digital, já que sou muito analógica. Pra mim já deu certo, adorei gravar os episódios, me diverti muito. Não acredito em trabalho bom que não seja divertido, o que não significa que não haja muito esforço envolvido. Tive que superar minha vergonha, aprender a me comunicar com a palavra falada, expor minhas dificuldades com a oratória, enfim, é um risco sair de um patamar em que você está segura para adentrar num mundo em que você não domina nada. Mas não é para isso que a gente nasce? Pra aprender, pra expandir nossa experiência de vida? É sobre isso que escrevo e é o que faço. O canal M de Martha é prova de que sou fiel ao meu discurso.

No mundo atual, viver é ainda mais um ato revolucionário?

Revolucionário é você fazer as coisas que defende. Tem muita gente expert em bla-bla-blá, mas que na sua vida prática, pra valer, não faz nada do que diz. Viramos os reis morais do universo, mas ainda sabotamos o mundo com nossas mesquinharias e com nossas pequenas desonestidades. Tem sido muito fácil julgar os outros. Fácil condenar, fácil humilhar. Quase ninguém pondera. Vejo pouca gente assumir os próprios erros, as próprias dúvidas. Revolucionário é você ser honesto em tudo: no que diz, no que faz e no que pensa.

Como encontrar o equilíbrio entre o pensar, sentir e fazer? A crônica O que acontece no meio, de 2011, é uma lição para a vida de todos?

Essa crônica, que abre o livro, é um mosaico de frases genéricas sobre a vida, ao menos pra vida que eu acho que vale a pena a gente levar. São pensamentos que eu gostaria de ter desenvolvido, cada um, em textos mais longos, especificando cada assunto, mas que acabaram sendo transmitidos assim, soltos, em pequenos fragmentos, parecendo “pílulas de sabedoria”, mas não tenho a pretensão de passar lições de vida, de ser guru de ninguém, não. Na verdade, escrevo pra mim mesma, pra me convencer de que viver pode ser menos complicado do que parece.

Crescer dói para todos?
Crescer é abandonar a infância, a inocência e a ingenuidade, é enfrentar o mundo sem retaguarda, sem rede de proteção, então acho que é um processo dolorido para todos, sim, mas não na mesma intensidade. A gente tem que aprender a se relacionar com os nossos sofrimentos, eles são inevitáveis. Em vez de brigar contra a dor, devemos aceitar e extrair dela autoconhecimento, força, coragem. Mas há quem não aceite o sofrimento e viva em litígio com suas dores, aprofundando-as em vez de amenizá-las. É um autoboicote. Fico pasma de ver tanta gente transformando pequenas encrencas em grandes tragédias. Claro que não estou falando de depressão, que é doença séria e precisa de tratamento.

Em tempos de haters, polarizações, da falta de paciência e respeito com o contraditório, para onde caminhamos? Você é uma otimista de carteirinha?
Sou otimista no modo privado, acho que mesmo quando as coisas não saem como o esperado, elas me apontam um rumo interessante. Dou bom aproveitamento até ao que dá errado na minha vida. Por temperamento, não sou catastrofista, não declaro o fim do mundo antes da hora, mas reconheço que, em termos gerais, as coisas não andam fáceis, já estamos vivendo as consequências climáticas geradas pela nossa falta de cuidado com o meio ambiente, e em vez de mais gregários estamos mais desunidos, parece que estamos todos sentados sobre um barril de pólvora. Definitivamente, não são tempos tranquilos. Falando particularmente do Brasil, acho que só um total alienado pode estar otimista.

Numa sociedade em que há imagem fake nas redes sociais, principalmente no Instagram, como se permitir ser real e encarar as patrulhas de plantão? Saudades da imperfeição?
Acho que ninguém leva o Instagram tão a sério assim, todos sabem que é uma egotrip. A vaidade, ali, é descomunal. Os melhores ângulos, os melhores cenários, os filhos, os netos, as viagens, os looks, os amores, os amigos, os prêmios: é um desfile de conquistas. Os fracassos e desilusões ficam guardados a sete chaves em algum lugar bem longe. Encaro o Instagram como um outdoor, cada um vendendo seu peixe. Abri minha conta faz um ano e meio, aprendi as regras e entrei no jogo. Comemoro o número de seguidores, posto fotos bacanas, divulgo meus eventos. É uma ferramenta de trabalho, assim como a fanpage. O Facebook também é uma ferramenta de autopromoção, mas nele encontro coisas interessantes, análises políticas, textos, entrevistas, dicas de filmes e livros, humor inteligente. Mas depende de quem a gente segue, né? Tenho um número reduzido de amigos no Face, só adiciono pessoas que conheço. Aí, é possível uma filtragem, ficar menos exposto a bobajadas e maldades.

Como enxerga a sociedade de consumo que reza por uma Louis Vuitton e não por um mundo mais acolhedor, menos agressivo, como escreveu na crônica de abril de 2007?
Tudo está relacionado ao tamanho do nosso vazio. Quanto maior a falta de sentido para estar vivo, mais procuramos subterfúgios para preencher o que está oco dentro de nós. Podem ser roupas, carros, comida, bebida, sexo, sei lá. Não que tudo isso não seja ótimo, o problema é o exagero e a compulsão. Acho também que temos dificuldade de abraçar o coletivo. Postamos mensagens de paz, de cidadania, mas na hora H só pensamos em nosso próprio prazer, em nosso próprio umbigo.

“Não confio no amor de quem não consegue ficar sozinho”, maio de 2015. Que visão tem do amor nos tempos de hoje?

O conceito de amor é um guarda-chuva que abrange muitos significados. Amor pode ser amizade, erotismo, segurança, status, passatempo, álibi para constituir família, antídoto contra a solidão, tudo isso ou nada disso... Seja qual for o papel que o amor desempenhe na vida de uma pessoa, de uma coisa tenho certeza: ele é necessário e tem uma potência transformadora excepcional. Mas não significa que sem um amor romântico a gente não possa ser muito feliz. Pode sim, me desculpe o João Gilberto (“é impossível ser feliz sozinho”). Esse verso da bossa nova é doce, mas é falso. Podemos ter amigos espetaculares, podemos ter uma autoestima bem trabalhada, podemos amar sobrinhos, viagens, animais de estimação, o silêncio, a natureza, os livros, e ter uma vida plena e rica. Se a gente aceitasse isso, o desespero acabaria e os amores românticos se tornariam mais disponíveis, mais naturais, até mais assíduos.

Envelhecer, para muitos, parece um castigo. O melhor da velhice é a liberdade? E, como você escreveu, o voar começa aos 40 anos?
Envelhecer e amadurecer não são sinônimos. O amadurecimento é sublime, pois a gente atinge o clímax de ter uma mente afiada, experiência de vida, autoconhecimento e libido – é a hora de ser quem se é, de se responsabilizar corajosamente pelas suas escolhas. Isso não significa ausência de problemas, eles vão estar sempre presentes, mas o modo como a gente lida com eles é que muda, a gente aprende a relativizar as chatices e temos mais ferramentas para solucionar as panes. Envelhecer é outra coisa. É a ausência de independência, ausência de livre-arbítrio, é quando deixamos de ser autossuficientes. É a antessala do fim. Eu preferiria passar direto da maturidade para o fim, sem passar pela decadência, mas isso eu digo agora, sem conhecimento de causa. Já conversei com pessoas bem velhas e debilitadas que me disseram que, apesar de todas as dificuldades, lutariam bravamente por mais 10 minutos de vida. Há que se respeitar esse depoimento.

O papel higiênico da empregada e a luta pela injustiça social, crônica de setembro de 2005. O quanto a sociedade ainda padece de evolução e respeito aos direitos humanos? Vivemos num mundo com mais ativismo, o que tem escancarado ainda mais as mazelas desta mesma sociedade?

Até um tempo atrás, os preconceitos passavam de pai pra filho, herdávamos um pensamento único e automático, sem questioná-los. Portanto, ave, tecnologia! Ave, expansão da comunicação e do ativismo! Sim, tem sido muito importante a gente debater sobre racismo, feminismo, diversidade sexual, desigualdades sociais, a influência dos imigrantes. A expansão do pensamento e da tolerância é emergencial, é pra já, agora. A próxima revolução tem que ser a da mentalidade. Quem pensava quadrado precisa se abrir, aprender a deslizar nessa nova onda, a do reconhecimento de que somos diferentes uns dos outros, e não melhores uns que os outros.

Você também já abordou o feminicídio. Crime que a cada dia ganha mais manchetes. Tema duro como esse, faz parte de um compromisso seu em abordar?
Não tenho esse compromisso, não preciso me engajar em causas, desfruto a minha liberdade de opinião, mas tenho milhares de leitoras e uma voz que elas escutam. Como me calar diante de um fato concreto como o feminicídio? A diferença é que não acuso os homens somente, procuro alertar sobre os meios de evitar o crime, e eles passam pela autoestima feminina. Os homens estão apavorados com o protagonismo das mulheres, pois ele ameaça sua virilidade, então acabam cometendo abusos indefensáveis. Qual a saída? Relacionar-se com homens mais amadurecidos, mais seguros, mais inteligentes, e dizer um sonoro não aos que ainda habitam as cavernas. Não somos obrigadas a formar um casal a qualquer custo.

A sala de espera do analista, de setembro de 2013, é um retrato do quanto anda doente e sozinha a atual sociedade? Não há espaço para a fala e para a escuta? É preciso pagar?
Essa crônica não é uma crítica à terapia, da qual sou fã. É só uma brincadeira sobre como ainda somos cerimoniosos em relação às nossas dores. Acho importante narrar-se, colocar pra fora nossos desejos, fantasias, maluquices, memórias. Fui uma garota muito calada, não falava sobre minhas angústias, achava que não era elegante contar minha vida íntima. Ainda bem que mudei, hoje sou um livro aberto e isso não é força de expressão nem jogo de palavras. Hoje, tenho mais facilidade pra me desnudar, pois sei o efeito positivo disso, que é o encontro genuíno com os outros e a dessacralização da dor. Porém, sou mais escutada quando escrevo. Ninguém anda com paciência pra escutar ao vivo, todos querem apenas falar de si mesmos, somos uma legião de matracas, a troca é deficiente. Mas temos que continuar tentando, seja do jeito que for. É preciso que cada um encontre sua forma de expressão, que não deixe seus demônios trancafiados. Silenciar gera doenças e mal-entendidos, silenciar não ilumina nada, silenciar deixou de ser elegante para nos transformar numa bomba-relógio.

SERVIÇO
Livro: O meu melhor – 100 crônicas de sucesso + 4 inéditas
Autora: Martha Medeiros
Editora: Planeta
Páginas: 240
Preço sugerido: R$ 39,90


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