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Estado de Minas

Setor leiteiro perde produção com greve dos caminhoneiros

Paralisação deve fazer país cair de quarto para sexto no ranking mundial dos maiores produtores de leite. Associação prevê queda de 10%, após descarte de 300 mi de litrosa


postado em 09/07/2018 06:00 / atualizado em 09/07/2018 10:25

Protesto dos caminhoneiros afetou alimentação das vacas lactantes, que não recuperaram a produção anterior (foto: Carlos Lopes/Megaleite/Divulgação)
Protesto dos caminhoneiros afetou alimentação das vacas lactantes, que não recuperaram a produção anterior (foto: Carlos Lopes/Megaleite/Divulgação)

Baixa da produção e distribuição após a paralisação nacional dos caminhoneiros em maio e junho pode rebaixar o Brasil de quarto para sexto maior produtor de leite do mundo, segundo avaliações feitas durante a 15ª Exposição Brasileira do Agronegócio do Leite, Megaleite, que reuniu produtores e investidores em tecnologias do setor leiteiro entre os dias 20 e 23 de junho, no Parque de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte.

Durante o protesto, que durou 11 dias, houve privação de alimentação dos animais matrizes lactantes e que não recuperarão os estágios de marcação em que se encontravam. “Muitas delas foram secadas por falta de rações e até mesmo de combustível para movimentar os maquinários provocando uma grande queda de produção e fornecimento em todos os estados”, reconhece o presidente da Associação Brasileira do Leite (Abraleite), Geraldo Borges.

Entre 2015 e 2017 o setor cresceu, em média, 4% ao ano. Borges diz que as estimativas indicam queda de até 10% neste ano. “A paralisação gerou descarte de 300 milhões de litros em todo o país”. Segundo o último censo do IBGE, o Brasil conta com 5 milhões de propriedades rurais, destas 1,350 milhão de propriedades produtoras de leite. Mesmo ocupando a quarta colocação na produção mundial, com um volume anual de 37 bilhões de litros, o país não é autossuficiente e importa o produto.

O presidente da Abraleite reclama do livre acesso ao mercado brasileiro dos produtos oriundos o Uruguai e Argentina que, segundo as regras do Mercosul, podem exportar para o Brasil sem restrições de quantidade ou de época do ano. Ele diz que a entidade vem trabalhando junto à Frente Parlamentar Agropecuária, no Congresso Nacional, para corrigir essas “assimetrias”.

De acordo com Geraldo, a competitividade também fica prejudicada diante da cargar tributária e obrigações trabalhistas existentes no Brasil, as quais classifica de “excessivas”. Ele reclama ainda da falta de incentivos por parte do governo local. Segundo o presidente da entidade a categoria aguarda aprovação no Senado de projeto de lei, já aprovado pela Câmara, que retira 9% da cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre rações bovinas. “É um paliativo”, pontua.

Geraldo Borges rechaçou a responsabilidade atribuída aos produtores rurais pela alta dos preços do produto nas gôndolas dos supermercados: “O leite jogado fora por não haver transporte por 11 dias, foi um prejuízo exclusivo dos produtores, ninguém mais pagou essa conta. Os aumentos nas gôndolas ainda não chegaram ao produtor”, garantiu.

José Renato Chiari veterinário e criador de gado girolando, em Morrinhos, Goiás, considera que o mercado interno passa por problemas de consumo “que vem caindo, principalmente nos produtos mais elaborados” e acredita que ainda há grande capacidade de crescimento, mas aposta na exportação. “O futuro é ser exportador de leite, o Brasil tem potencial, mas precisa superar dificuldades sanitárias, e entrar nessa briga”.

Genética

Para o criador de gado leiteiro e gerente da Genex, uma das empresas líderes no segmento de inseminação artificial (IA) no Brasil, Bruno Scarpa Nilo o mundo está olhando para o agronegócio brasileiro e a genética do gado leiteiro sendo vislumbrada por outros países, principalmente dos continentes asiático e africano. “Lá há escassez de alimentos e eles olham com muita atenção nossas criações, principalmente das raças Girolando e Gir, essa última vinda da Índia. São raças rústicas e muito resistentes às variações climáticas”.

Bruno, recém-chegado da Índia, foi a convite de governo e empresários do ramo, onde apresentou dados de cuidados em melhoramentos genéticos de nossos bovinos, disse que os resultados da viagem foram muito positivos, “eles ficaram deslumbrados” e bastante interessados em nossas experiências com a genética. “São mercados gigantes e uma excelente oportunidade. Há sim algumas barreiras sanitárias, mas nada que não possa ser resolvido”, garante.

O Brasil exporta matrizes e sêmen para a Bolívia, Paraguai, Chile, Colômbia, Punjab, Siri-Lanka. “Falamos do Gir que veio da Índia e mostramos o que evoluímos, são mais de 80 mil lactações controladas, mais de 400 touros testados, tem número significativo de colaboradores e produtores de leite. Nosso banco de dados indica uma média de produção da raça que é o dobro da produção deles”.

O Brasil nos últimos anos tem exportado em torno de 150 mil a 180 mil doses de sêmen de Girolando, Gir e Nelore e Guzerá. O mercado mundial gira em torno de 600 mil doses de girolando, 400 mil de Gir. “Se somente a Índia passar a importar nossos produtos, teremos que nos readequar uma vez que se trata de um gigante”. Bruno Scarpa atribui a evolução do setor genético no país ao trabalho incansável das associações que “têm embasado em números o controle rigoroso das informações de lactação, idade de primeiro parto, qualidade do leite”, respaldando a seleção dos melhores indivíduos a serem ofertados no mercado.

Inovações no curral

No Parque de Exposições da Gameleira foram apresentadas tecnologias para as atividades na fazenda e na indústria(foto: Carlos Lopes/Megaleite/Divulgação)
No Parque de Exposições da Gameleira foram apresentadas tecnologias para as atividades na fazenda e na indústria (foto: Carlos Lopes/Megaleite/Divulgação)

Um pacote tecnológico de gestão de rebanho que se comunica com a de dados de produção, o MilkCheck, foi apresentado pela empresa Genex, durante a feira do agronegócio do leite, acontecida em Belo Horizonte. A ideia inicial seria um programa de manejo trivial – controlar nascimento, cobertura, monta, inseminação artificial, alimentação, reprodução e etc, mas a expansão para área de produção é uma inovação, existem softwares que só fazem gestão de rebanho, explica o gerente de marketing da empresa Daniel Carvalho.


O grande diferencial, segundo Bruno Scarpa Nilo, gerente de produto leite da empresa, “além de toda a expertise trazida de grandes técnicos dos EUA e do Brasil na sua estruturação, é a facilidade de inclusão de dados e a praticidade do manuseio”. “Gerir esses dados hoje é primordial para o sucesso de qualquer projeto, ‘O que não se mede, não se controla’, e o MilkCheck traz essa solução e apoio ao produtor, de maneira simples, prática, cooperativa e mútua de gestão”, detalha.


Com um mercado cada vez mais exigente, os elos da cadeia alimentícia passaram a se preocupar em garantir produtos seguros e de qualidade. Por isso, o rastreamento com informações que trazem a origem e o histórico dos animais leiteiros, por exemplo, se tornou foco de atenção para a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, que utiliza sistemas de identificação e monitoramento em parceria com a Allflex, líder mundial em identificação de animais.


Um colar de monitoramento que capta dados da atividade animal, de ruminação, de estresse térmico permitindo a análise de qual e em que horário cada vaca deverá ser inseminada, ou aquela que não está bem, adiantando a pesquisa para precisar a patologia a ser diagnosticada, foi a inovação apresentada pela All Flex, na Megaleite 2018. O equipamento de tecnologia israelense permite a observação de gado leiteiro independente da raça ou tamanho da propriedade.


O softwer transforma tudo em ícone, número e cor permitindo que o gestor possa visualizar os animais a serem trabalhados. “O dispositivo fica num colar no pescoço do animal com um peso para ponderar a posição do tag, para o colar não ficar virando e capta todos os dados do animal. São mais de 5 milhões de vacas sendo monitoradas em todo o mundo, 20 mil cabeças no Brasil”, explica a média veterinária da empresa, Brenda Barcelos. O valor do colar é em torno de R$ 600. O sistema com instalação e treinamento em torno de 18 mil reais.

Brinco

Os animais Girolando, possuem um brinco de identificação com o número de registro, que atende as especificações do Serviço de Registro Genealógico, custeado pela Associação. “Essa iniciativa tem como objetivo conscientizar os produtores e incentivá-los a investir na tecnologia. Procuramos mostrar para os criadores os benefícios de utilizar os brincos como uma forma de identificação dos animais, principalmente pela agilidade e segurança na localização que a utilização do brinco proporciona. Outra vantagem é a praticidade na aplicação, quando comparado com outros métodos de identificação”, explica o superintendente técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, Leandro Paiva.

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