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Estado de Minas

Truta vence a seca, cresce e projeta criação mineira

Produção só perdeu para a de Santa Catarina em 2014 e, a despeito da crise hídrica, recebe investimentos em novos cortes. Tradicional criação de tilápias também avança


postado em 07/12/2015 06:00 / atualizado em 07/12/2015 07:51

Além de investir no processamento, empresa de Sapucaí Mirim comprou equipamento para reúso de água (foto: Trutas NR/Divulgação )
Além de investir no processamento, empresa de Sapucaí Mirim comprou equipamento para reúso de água (foto: Trutas NR/Divulgação )
A tilápia ainda reina na aquicultura mineira, mas a estrela que está despontando nesse mercado é a truta. O peixe de escamas da família do salmão, comprido e farto em pintas no dorso, faz do estado o segundo maior produtor brasileiro. Em 2014, Minas só perdeu para Santa Catarina, de acordo com o levantamento Produção da Pecuária Municipal (PPM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Das 20 principais cidades fornecedoras no Brasil, sete estão localizadas na Serra da Mantiqueira, capitaneadas por Sapucaí Mirim, vice-líder, e Camanducaia, na terceira posição do ranking nacional.

Dos 41 municípios produtores de truta no Brasil, 13 estão em Minas e já aparecem com força na oferta nacional, de acordo com o coordenador de Pesquisas de Agropecuária do IBGE, Humberto Augusto. Têm destaque, ainda, as produções mineiras de Delfim Moreira, no quarto lugar; Bocaina de Minas, oitavo; Itamonte, 14º; Aiuruoca, 15º; e Baependi, 18º.

Com as 669,4 toneladas produzidas em 2014, os criadores do estado apuraram receita de R$ 9,313 milhões, mais de 9% do valor da produção da aquicultura mineira, de R$ 101,5 milhões. Ainda segundo o IBGE, a produção de trutas cresceu 33% em Minas e o faturamento aumentou 34% de 2013 para 2014.

A tradicional criação de tilápias rendeu R$ 81,918 milhões, graças às 14,910 mil toneladas produzidas em Minas no ano passado, quando o estado ficou na quinta posição no Brasil. A tilápia e a truta, específicos de água doce, representam 90% da produção de peixes em Minas. A tilápia ainda é o principal peixe produzido no estado, mas a truta já aparece com bastante força. “O segmento de aquicultura tem crescido rapidamente e está atraindo a atenção de muitos produtores mineiros. O curto ciclo de produção de pescados torna a atividade interessante entre os que produzem proteína animal”, explica Humberto Augusto.

Em Camanducaia, o técnico do escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) Gildásio de Souza destaca que a maioria dos produtores de truta da Serra da Mantiqueira ainda destinam a produção do peixe para o consumo interno. “As condições climáticas da região são muito favoráveis, inclusive a temperatura da água. Em Monte Verde, distrito de Camanducaia, estão muitos produtores e consumidores da truta, que abastece as atividades de turismo e gastronomia da cidade”, ressalta.

A fazenda Trutas NR, do produtor Afonso Celso Vívolo, é a segunda maior produtora do peixe no Brasil e a maior da serra mineira. De acordo com o gerente da propriedade, Benedito Carlos Pupio, no mercado desde 1996, a produção de trutas foi de 1,2 milhão em 2014 e a expectativa é repetir esse fôlego neste ano. A empresa produz as truturas do tipo arco-íris, da espécie oncorynchus Mykiss. “Começamos com 4 mil metros de tanques em Sapucaí Mirim e expandimos para mais 4 mil metros em Delfim Moreira e 5,5 mil metros em Camanducaia. Temos um centro de distribuição em São Paulo e de lá vendemos para toda a Serra da Mantiqueira, Vale do Paranaíba, Campos do Jordão, as capitais São Paulo e Belo Horizonte, Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal”, destaca.

Ainda segundo Benedito Pupio, no ano passado, foi preciso adotar tecnologia para driblar a crise hídrica. Aeradores – equipamentos usados para renovar o ar de um ambiente – foram instalados em todas as propriedades. “O sistema reutiliza a água, e, graças a esse investimento, foi possível manter a produção em alta”, afirma Pupio. Neste ano, a crise econômica, que afetou a renda dos brasileiros e influenciou no consumo interno da truta, deve cortar em pelo menos 25% o faturamento da Trutas NR, que convive, ainda segundo o gerente da fazenda, com aumento dos custos dos insumos, principalmente ração e embalagem, impactados pela alta do dólar. A marca comercializa a truta inteira eviscerada, o filé de truta borboleta com cabeça, e o defumado.

MAIS TANQUES A produção da tilápia está concentrada nos sete municípios do Lago de Três Marias: Abaeté, Biquinhos, Felixlândia, Morada Nova de Minas, Pompéu, São Gonçalo do Abaeté e Três Marias. De acordo com o técnico da Emater-MG em Três Marias, Carlos Augusto de Carvalho, a produção de tilápia in natura dessas cidades, em 2013, foi de 554 toneladas ao mês, alcançando 6.655 toneladas no balanço anual. Em 2014, a produção mensal chegou a 616 toneladas e no ano foram produzidas 7.392 toneladas.

“Em 2013 a piscicultura cresceu muito devido aos incentivos, que ajudaram a explorar o potencial do lago. A pesca profissional já demonstrava um aumento significativo na região e a partir deste ano a exploração da piscicultura se fez mais presente”, afirmou. A redução do ciclo de chuva, no entanto, prejudicou alguns municípios. O incremento no ano passado veio da mudança do sistema de criação da tilápia e da expansão da demanda.

Técnicas valorizam peixes

A diversidade de cortes da tilápia produzida na região da represa de Três Marias agrega valor ao produto, segundo o técnico da Emater local Carlos Augusto de Carvalho. “Antes, o produtor vendia apenas o filé e dispensava o resto do peixe”, lembra. Os produtos mais vendidos na região são o filé da tilápia processado e acondicionado em bandejas, cujos preços variam de R$ 18 a R$ 20 por quilo; o contra-filé, comercializado a R$ 8 o quilo; as tirinhas ou iscas, que custam R$ 7 por quilo; e o queixinho do peixe, parte próxima à cabeça do peixe, sem espinho, está avaliado em R$ 10 o quilo.

Neste ano, só em Três Marias, houve um aumento de 275 tanques-redes até novembro, de acordo com o técnico da Emater-MG. “No último trimestre, observamos uma pequena queda no consumo do brasileiro, que sentiu o peso da inflação e a renda mensal diminuir, mas, com o alto preço da carne de boi, a carne branca se torna uma saída para o consumidor”, afirma. As tilápias da região ganharam mais mercados, como Brasília, Goiás e São Paulo.

Olímpio Moura, produtor de tilápia há cinco anos em Morada Nova de Minas, viu sua produção dobrar em 2015. “Aumentei a escala para reduzir custos. O reservatório da Bacia do Rio São Francisco está abaixando muito e isso gera altos custos. Na verdade, a demanda está em crescimento, mas não sei se vai continuar assim”, conta. Na empresa Top Fish Pescados, da qual ele é sócio, o filé da tilápia já está pelo menos 20% mais caro em relação ao ano passado, mas a venda do produto in natura se mantém.

O analista de agronegócio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) Wallisson Fonseca avalia que 2015 foi um ano favorável para a agricultura em geral, inclusive para os pescados. “Não há dúvidas de que a tilápia e a truta são as espécies mais fortes em Minas. O ano foi um pouco difícil devido à escassez hídrica e pode ser que comprometa uma parte da produção, mas, ainda assim, os resultados devem ser positivos”, diz. Wallisson aposta na tendência de manutenção do consumo nos próximos anos. Dados da Faemg mostram que as exportações também púxaram a produção. As vendas externas mineiras de pescados (peixes, crustáceos e moluscos) chegaram a US$ 24,4 mil de janeiro a outubro último, frente aos US$ 7,1 mil no mesmo período do ano passado. O acréscimo foi determinado pelas compras da China, Japão e Taiwan

NA ONDA


» Valor da produção da Aquicultura mineira

(2014)
Truta R$ 9,313 milhões
Tilápia R$ 81,918 milhões
Total R$ 101,492 milhões

» O ranking nacional
(em toneladas/2014)

TRUTA
Santa Catarina 953,7
Minas Gerais 669,4
Rio de Janeiro 56,8
Espírito Santo 13,2
Rio Grande do Sul 4,3

TILÁPIA
Paraná 51 mil
Ceará 36,3 mil
São Paulo 24,8 mil
Santa Catarina 23,2 mil
Minas Gerais 14,9 mil

Fonte: IBGE

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