Estado de Minas

Como empresas tradicionais de Minas superaram série de crises e planos econômicos

As lições de sobrevivência de marcas como Casa Pérola e Casa Falci


postado em 13/07/2018 07:00 / atualizado em 12/07/2018 16:12

A comerciante Lélia Gonçalves Bedran, da Casa Pérola, conhece como poucos os altos e baixos da economia nas últimas décadas(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
A comerciante Lélia Gonçalves Bedran, da Casa Pérola, conhece como poucos os altos e baixos da economia nas últimas décadas (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

A crise persistente do consumo no Brasil, depois de dois anos de encolhimento da economia, não surpreende e muito menos amedronta uma guerreira dos balcões do comércio de Belo Horizonte, Lélia Gonçalves Bedran, de 89 anos, dos quais 68 à frente da Casa Pérola. A empresa nasceu no Bairro Floresta, adquiriu logo o formato das lojas de departamentos, tendo, nos anos 90, se firmando no comércio de itens de cama, mesa, banho, enxovais, presentes e roupas. Lélia divide o comando do negócio com o filho Zander.

“Passei por todos os planos econômicos e não tive medo de nenhum deles. Quando o negócio está em crise, você se levanta, não vacila e trabalha mais ainda”, conta a comerciante,  demonstrando vitalidade suficiente para assumir as compras do setor de vestuário e participar quase que diariamente da administração do negócio. Lélia é personagem do setor digna de contar os altos e baixos da economia nesta edição comemorativa dos 90 anos do Estado de Minas.


Ela encontrou o difícil caminho para manter as portas abertas num país que viveu do improviso no combate a várias crises a sucessos, sim, mas muitos deles momentâneos. Parte dessa trajetória foi também vivida por Bruno Falci, de 62, dono de outra antiga empresa do varejo de BH, a Casa Falci, que ele assumiu no início dos anos 1980, a chamada década perdida da economia brasileira.

“A arte do empreendedor é saber navegar entre os bons e maus períodos da melhor forma possível. A maioria dos nossos erros é cometida por arrogância e prepotência”, diz Bruno Falci, que é também presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH). A carteira de trabalho dele foi assinada na Casa Falci ao completar 16 anos, para mais tarde atuar em várias áreas da administração. A loja especializada no comércio de material de construção foi aberta em 1908 pelo imigrante italiano Aleixo Falci.


Na extensa lista de fatos relevantes na história da loja centenária e da sua própria atuação, Bruno Falci destaca o impacto no negócio de duas grandes guerras mundiais que afetaram a economia brasileira, e os planos de estabilização no Brasil durante os governos Sarney, Collor e FHC. Como não se lembrar, ainda, do corte de três zeros de sete  moedas sucessivas, criadas no país desde 1942?

“Na época da Segunda Guerra, importávamos muito e houve desabastecimento. Quem tinha estoque tirou proveito da situação. Estávamos superestocados num momento em que ninguém tinha produto para vender”, diz o sócio-proprietário da Casa Falci. Momentos de tensão não foram raros naquele tempo.

Ficou guardado na memória de Bruno Falci um episódio marcante enfrentado pelos familiares que administravam a loja no fim da Segunda Guerra, quando brasileiros depredaram empreendimentos, no calor das posições conflitantes do Brasil e da Itália durante o armistício. “Um grupo ameaçava pôr fogo na Casa Falci. Alguns amigos e funcionários se postaram em frente aos manifestantes e sustentaram que aquela era uma casa brasileira”, afirma.

"Passei por todos os planos econômicos e não tive medo de nenhum deles. Quando o negócio está em crise, você se levanta, não vacila e trabalha mais ainda"

Lélia Gonçalves Bedran, sócia-fundadora da Casa Pérola


Os desafios dentro de casa, na administração do negócio, da mesma forma, surgiram ainda no começo da década de 80. Era um tempo de inflação alta, que alcançou 242,23% em 1985, véspera da adoção do Plano Cruzado, no governo de José Sarney. A experiência seria traumática, como sucessão de um período de euforia na economia do Brasil conhecido como o milagre econômico, depois do golpe militar de 1964.

Sob os efeitos trágicos da repressão iniciada no governo Costa e Silva, de 1967 a 69, o Brasil cresceu a taxas inacreditáveis para os tempos de hoje, de 11,3% em 1970; 11,9% em 1972; e 14% em 1973. Foram anos de sucesso na economia e desespero com a repressão social e política sob os governos militares, até que o general Ernesto Geisel (1974-1979) iniciou a abertura política.

Turma difícil de receber

Sem vacilar, Lélia Bedran, fundadora e sócia da Casa Pérola, elege o período de atuação dos “fiscais do Sarney” como o mais difícil entre as tentativas de estabilização da economia. Lançado em 28 de fevereiro de 1986, o Plano Cruzado buscava controlar e reduzir a inflação usando instrumentos como o congelamento dos preços de produtos e dos salários, e uma nova moeda, o cruzado (Cz$), em substituição ao cruzeiro. Como não podiam reajustar seus preços, produtores e comerciantes deixaram de entregar produtos, o que levou ao desabastecimento no país.

Dedicação e amor ao trabalho, além do bom relacionamento com clientes e empregados, são regras universais para salvar o negócio, tanto para a dona da Casa Pérola quanto para Bruno Falci.

A longevidade, na avaliação do presidente da CDL-BH, tem uma característica dentro das empresas familiares, por estar associada ao espírito de união, se de fato existir, entre os parentes. O nó da questão, em boa parte dos casos, surge no processo sucessório da gestão. “Talvez seja um dos processos mais dolorosos na empresa familiar”, afirma.

O economista Paulo Vieira, professor da Faculdade Novos Horizontes, costuma brincar com os movimentos bruscos de sucesso e inssucesso na economia brasileira, ao recordar que durante o longo tempo de sua atuação no mercado financeiro os cumpridos números da inflação da década de 80 não cabiam na antiga calculadora HP. “Quem mora no Brasil e prestou atenção ao que ocorreu desde 1980 fez um curso completo de economia, com os mais diversos índices de inflação, crise, retração e recessão”, diz. Os brasileiros enfrentaram seis planos de controle da inflação até o bem-sucedido Plano Real. Desde a redemocratização do país no fim dos anos 80, houve os planos Cruzado, Cruzado 2, Bresser, Verão, Collor 1 e Collor 2.


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