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Estado de Minas ENTRE LINHAS

Dois candidatos perdidos na Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade

Talvez a chave da explicação das dificuldades de Doria e Garcia esteja no complexo quadro eleitoral de São Paulo


20/02/2022 04:00 - atualizado 20/02/2022 07:29

João Doria, governador de São Paulo
Governador João Doria venceu prévias do PSDB, mas sua candidatura não empolga os eleitores (foto: MARCOS VIEIRA/EM/D.A. PRESS)
“Oh! Minhas alucinações!/ Como um possesso num acesso em meus aplausos/aos heróis do meu estado amado..!/E as esperanças de ver tudo salvo!/Duas mil reformas, três projetos…/Emigraram os futuros noturnos…E verde, verde, verde!…/Oh! minhas alucinações!/Mas os deputados, chapéus altos,/mudavam-se pouco a pouco em cabras!/Crescem-lhes os cornos, descem-lhes as barbinhas…/ E vi que os chapéus altos do meu estado amado,/com os triângulos de madeira no pescoço,/nos verdes esperanças, sob as franjas de oiro da tarde,/se punham a pastar/rente do palácio do senhor presidente…/Oh! minhas alucinações!”
 
Os versos de Mario de Andrade, publicados em 1922, são considerados um marco modernista da literatura brasileira. Composto por 22 poemas, “Pauliceia desvairada” tem como pano de fundo a acelerada modernização e a urbanização de São Paulo. Marcados pelo afeto e pelo sarcasmo, pela crítica ao transformismo dos políticos, traduzem a realidade de uma forma exagerada, alucinatória, que produz um novo olhar sobre a realidade, despido de fórmulas prontas e preconceitos. O moderno, a renovação, a experimentação pedem passagem, sem nenhuma ingenuidade.
 
Seu poema “Ode ao burguês” foi lido durante a semana, no Teatro Municipal de São Paulo, para uma perplexa plateia aristocrática: "Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, /o burguês-burguês! /A digestão bem-feita de São Paulo! /O homem-curvao! homem-nádegas! /O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, /é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!". Era um manifesto e um aviso.
 
“Calça Apertada”, “Ken”, o namorado da Barbie, “Coxinha”... Tão incômodos são os apelidos de João Doria que seus marqueteiros resolveram assumir o risco de incorporá-los à imagem do pré-candidato à Presidência da República. Nas prévias do PSDB, produziram um antídoto: “Bom, enquanto eles procuravam apelidos pro Doria, o Doria procurava uma vacina pro Brasil. E o ‘Coxinha’, ‘Calça Apertada’ atravessou o mundo para conseguir a única vacina que o Brasil teve no pior momento da pandemia. A vacina que salvou vidas de idosos, médicos e enfermeiros; de petistas e de bolsonaristas”. Doria venceu as prévias, mas até agora não levou.
 
Na política, São Paulo gosta de audácia, principalmente na capital, palco de viradas espetaculares, como a volta de Jânio Quadros, a vitória de Luiza Erundina, a eleição de Celso Pitta, a ascensão de Marta Suplicy. O governador João Doria é um fenômeno político meteórico, tipicamente paulista, eleito prefeito da capital e, a partir dessa plataforma, alçou-se ao Palácio dos Bandeirantes. Agora mira a Presidência.
 
Pesquisa divulgada na sexta-feira pelo instituto Ipespe mostra que Doria continua sem empolgar o eleitorado paulista, com 4% das intenções de votos nas pesquisas espontâneas, e 5% nas induzidas, muito atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 34%, e de Jair Bolsonaro (PL), que tem 26%. Ensanduichado, também fica atrás do ex-ministro Sergio Moro (Podemos), com 11%, e em incômodo empate técnico com Ciro Gomes (PDT), que tem 7%. Por um mistério da autonomia da política, João Doria faz uma excelente administração, cujo rigor fiscal, agora, lhe permite executar R$ 26 bilhões em investimentos e aumentar os salários do funcionalismo, porém isso ainda não se traduz eleitoralmente.
 
Suas dificuldades no plano nacional eram esperadas: é paulista demais, tem zero quilômetro rodado no Congresso, não conhece a realidade dos demais estados etc. Entretanto, nada disso o impediu de vencer as prévias do PSDB, derrotando o governador gaúcho Eduardo Leite. A vitória apertada tem um detalhe preocupante: perdeu a disputa entre vereadores, ou seja, a turma que capilariza a campanha e carrega o piano. Entretanto, talvez a chave da explicação de suas dificuldades não esteja no cenário nacional, mas, sim, no quadro eleitoral de São Paulo, que é muito difícil.
 
A filiação do vice-governador Rodrigo Garcia ao PSDB gerou duas fricções: uma com o DEM, que se fundiu ao PSL, formando a União Brasil, afastando-se de Doria; outra, a dissidência de Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes Ferreira e José Aníbal, todos ultrapassados na fila de sua sucessão. O ambiente polarizado de uma disputa presencial antecipada e o cenário estadual criaram uma situação inédita em São Paulo: pela primeira vez, a expectativa de poder na largada da disputa eleitoral é muito maior no campo da oposição do que no Palácio dos Bandeirantes.
 
Na mesma pesquisa Ipespe, Garcia tem apenas 1% de votos na espontânea, num cenário no qual seus adversários mais fortes são Fernando Haddad, com 6%, o candidato de Lula, e Tarcísio Freitas, o ministro de Infraestrutura, um estreante, apoiado por Bolsonaro, tem 5%. Na consulta induzida, no melhor cenário, Garcia tem 10%, contra 38% de Haddad e Tarcísio, com 25%. No cenário com Haddad (28%), França (18%), Boulos (11%) e Tarcísio (10%), Garcia tem apenas 5%. É ou não é uma Pauliceia desvairada? Entretanto, Doria e Garcia não estão espiritualmente derrotados. Ninguém ganha nem perde eleições de véspera.

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